quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

"Chaucer", de Ted Hughes

«Quando Abril com suaves aguaceiros
sacia a sede de Março até às raízes...»
Com a tua voz no seu tom mais elevado, balançando no cimo de um [escadote,
braços erguidos - para te equilibrares e
segurares as rédeas da esforçada atenção
daquela tua audiência imaginária - declamaste Chaucer
para um campo com vacas. E o céu da Primavera fez o resto,
com a roupa lavada a esvoaçar, o verde-esmeralda
dos espinheiros, o espinheiro branco, o espinheiro negro,
tu com um daqueles copos de champanhe
a que tinhas deitado a mão na arrebatação do momento.
A tua voz voou pelos campos até Grantchester.
Deve ter soado a perdida. Mas as vacas
olharam, e aproximaram-se logo: elas apreciavam Chaucer.
E tu continuaste. Havia razões
para recitar Chaucer. Seguiu-se uma divertida Mulher de Bath,
a tua personagem favorita de toda a literatura.
Estavas arrebatada. E as vacas fascinadas.
Empurravam-se e roçavam-se, faziam um círculo
para contemplar o teu rosto, dando alguns bramidos ocasionais
de exclamação, para avivar a sua assombrosa capacidade de [atenção,
de ouvidos à escuta para apanhar todas as inflexões,
à respeitosa distância de dois metros.
Tu simplesmente não conseguias acreditar.
E também não consegues parar. Que podia acontecer
se resolvesses parar? Seriam capazes de te atacar,
assustadas com o choque do silêncio, ou só porque queriam mais? -
E por isso tiveste de continuar. E continuaste -
vinte vacas ficaram contigo, hipnotizadas.
Como é que conseguiste parar? Não me lembro
de teres parado. Imagino que se foram embora cambaleando -
a revirar os olhos, como que atraídas pelo cheiro da erva.
Imagino que as devo ter enxotado. Mas
a tua interpretação de Chaucer em sustenido
já era eterna. Aquilo que se seguiu
encontrou a minha atenção demasiado ocupada
e teve de regressar ao esquecimento.

(in Cartas de Aniversário; trad. Manuel Dias)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Excerto de "O Medo (II)", de Al Berto

saúde periclitante, pensamentos periclitantes, café periclitante, cigarros periclitantes, tempo periclitante, trabalho periclitante...
abismos, paisagens inacessíveis. insónia. ideias sinistras ocorrem-me. à minha volta tomam forma pequenos objectos cortantes. precária eternidade de quem já abandonou o corpo.
os deuses deveriam predestinar-me outras tarefas, outros percursos: a mendicidade, o nomadismo, a cegueira, a transumância ou o ascetismo.
gostaria de ter nascido ave, pequena ave, flutuante pássaro marinho ou bicho subterrâneo, míldio ou peste, sarna das glicínias, feridas das tâmaras, ferrugem das roseiras, nuvem, sujidade. ah! como tenho sede doutras vidas, como desejaria o silêncio magnífico das oceânicas profundidades!

(excertos de "O Medo (II)", in O Medo)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

(Dias sem poesia)


Branka Parlic interpreta "Metamorphosis 2", de Philip Glass (Sinagoga de Novi Sad, 27.10.2004)

(...sucedem-se os dias sem poesia...).

sábado, 20 de dezembro de 2008

Versos de Herberto Helder

Tocaram-me na cabeça com um dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
É assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas

(in A Faca não Corta o Fogo)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

domingo, 14 de dezembro de 2008

"Os dentes de leão", de Jorge Sousa Braga

O poemapossivel dedica estes versos a cinco amigos
com quem é sempre um prazer e um privilégio conviver.


Os dentes de leão
adoram trincar
minúsculos grãos de pólen

(in Fogo sobre Fogo)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"À memória de Ruy Belo", de Eugénio de Andrade

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis de um império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

1978
(in Epitáfios)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Poema de Maria do Rosário Pedreira

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste que o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste, mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
eu não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

(in revista Relâmpago, n.º 22)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Excerto de obra recente de Gonçalo M. Tavares

Os versos fortes não têm currículo nem, dirá vossa excelência, passado. Não deixam, pois, pegadas, como as que as crianças e homens pesados deixam na areia. O verso pisa-te, sim, o coração, como se fosse o inverso de um ataque cardíaco, o simétrico bom do peso mau. Um verso forte não tem história como os países. Não tem invasões, reis assassinados, resistências, traições; e quatro adultérios de uma rainha da Idade Média. Um verso, hoje, não tem Idade Média dentro dele. Mesmo que seja um verso com dois mil anos, hoje, esse verso é absolutamente contemporâneo. Porque é verso. Um verso do senhor Homero lido hoje, dia sete, tem esta data, e currículo nenhum. Não tem Idade Média nem nenhuma outra.

(in O Senhor Breton e a entrevista)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

(Life out of balance)


Imagens do filme Koyaanisqatsi, realizado por Godfrey Reggio (1983); banda sonora original de Philip Glass.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

"Passos", de Luís Quintais

Escutaste os passos
no quarto
semi-escurecido
pela tua derrota?

Não eram teus,
mas do que amaste:

os passos
do que esqueces.

(in Mais Espesso que a Água)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

"Liberdade", de Fernando Pessoa

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

(in Poesia 1934-1935 e não datada)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

"Engodo", de Cees Nooteboom

A poesia não pode tratar de mim,
nem eu da poesia.
Estou só, o poema está só,
o resto é dos vermes.
Estava à beira das ruas onde moram as palavras,
livros, cartas, notícias,
e esperava.
Sempre esperei.

As palavras, em formas claras ou escuras,
transformaram-se em alguém escuro ou mais claro.
Poemas passam por mim
e reconheciam-se como coisa.
Via-o e via-me.

Esta escravidão não tem fim.
Esquadrões de poemas procuram os seus poetas.
Vão errando sem comando pelo grande distrito das palavras
e esperam o engodo da sua forma
feita, perfeita, fechada,
concentrada e

intangível.

(in Uma Migalha na Saia do Universo. Antologia de poesia neerlandesa do século vinte, trad. Fernando Venâncio)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Novos dois excertos de "O Medo (I)", de Al Berto

com fotografias consolo a saudade do rapaz que fui, embora saiba que há muito se apagaram os sorrisos do teu rosto. envelhecemos separados, o eu das fotografias e o eu daquele que neste momento escreve. envelhecemos irremediavelmente, tenho pena, mas é tarde e estou cansado para as alegrias dum reencontro. não acredito na reconciliação, ainda menos no regresso ao sorriso que tenho nas fotografias. não estou aqui, nunca estive nelas. quase nada sei de mim.

* * *

pela janela, entre acácias e piteiras, vejo os barcos surgindo na bruma. o coração aéreo dos pássaros passa rente ao mar, e o mar põe-se a fulgurar, arde, cobre-se de plumas, levanta voo com os pássaros.

(excertos de "O Medo (I)", in O Medo)

sábado, 22 de novembro de 2008

Excerto de "O Medo (I)", de Al Berto

esqueço-me de tudo, por isso escrevo. longe do terror ao sismo inesperado das estrelas, escrevo com a certeza de que tudo o que escrevo se apagará do papel no momento da minha morte.

(excerto de "O Medo (I)", in O Medo)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

"Soneto", de Eugénio de Andrade

Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.

(in Os Amantes sem Dinheiro)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

"Fado", de Maria do Rosário Pedreira

Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses. As ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.

A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.

(in A Casa e o Cheiro dos Livros)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

(When God created the coffeebreak. Uma homenagem)


Esbjörn Svensson Trio interpretando "When God created the coffeebreak", ao vivo no festival Jazz à Juan Les Pins, França, em Julho de 2003

(Tencionava assistir ao concerto do Esbjörn Svensson Trio na Casa da Música, programado para o dia 14 de Dezembro... Depois de nos deixar um último e fabuloso álbum, "Leucocyte", o desaparecimento deste grande pianista - tinha apenas 44 anos - deixou um vazio na programação da Casa da Música e em todos os que admiravam a música do seu trio...)

domingo, 9 de novembro de 2008

"Com as Gaivotas", de Eugénio de Andrade

à tripla que rumou comigo ao Sul

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo esta morte dia a dia.

(in Os Amantes sem Dinheiro)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pessoa, fé e obra

Poema após poema, íntimo, escrevia
Aquela grande obra do seu ser
Que nunca em tempo algum alguém leria
E que ele via o universo a ler.

Era mais que poeta: era profeta,
E os seus versos errados e divinos
Toca a rebate o que nele era poeta,
Mas numa torre que não tinha sinos.

Viveu assim, feliz do que escreveu,
Morreu, deixando a obra como sobra
Da alma que fora... Mas, meu Deus, e eu?
Eu que nem tenho a fé nem tenho a obra?

(in Poesia 1934-1935 e não datada)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"Equilibrista", de Cecília Meireles


Alto, pálido vidente,
caminhante do vazio,
cujo solo suficiente
é um frágil, aéreo fio!

Sem transigência nenhuma,
experimentas teu passo,
com levitações de pluma
e rigores de compasso.

No mundo, jogam à sorte,
detrás de formosos muros,
à espera da tua morte
e dos despojos futuros.

E tu, cintilante louco,
vais, entre a nuvem e o solo,
só com teu ritmo - tão pouco!
Estrela no alto do pólo.

(in Antologia Poética)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

(Em directo)

(Numa sala vazia, o futebol joga-se no televisor que ninguém olha - bendito seja a voz do locutor televisivo, que companhia me faz! Na mesa, aberto, um livro esquecido - entrecortadamente, gastei alguns minutos percorrendo as suas palavras. Hoje, os teus versos, ó poeta do meu gosto, não me dizem nada - estou surdo para a beleza do que escreveste [... o comentador refere que o avançado estava bem posicionado...], mas acuso antes o mundo desta minha surdez... O futebol, em directo transmitido, encheu o estádio, e quem sabe quantos cafés; enquanto eu, nesta quase sala de espera, nem com um verso teu, ó poeta, consigo encher este incomensurável vazio).

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Canção de Cecília Meireles

Inesperadamente,
a noite se ilumina:
que há uma outra claridade
para o que se imagina.

Que sobre-humana face
vem dos caules da ausência
abrir na noite o sonho
da sua própria essência?

Que saudade se lembra
e, sem querer, murmura
seus vestígios antigos
de secreta ventura?

Que lábio se descerra
e - a tão terna distância! -
conversa amor e morte
com palavras de infância?

O tempo se dissolve:
nada mais é preciso,
desde que te aproximas,
porta do Paraíso!

Há noite? Há vida? Há vozes?
Que espanto nos consome,
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)

(in Antologia Poética)

domingo, 2 de novembro de 2008

(Fim-de-semana)

(Alguma poesia - que saborosos, aqueles poemas da Cecília Meireles! -, mas sobretudo muita música. Depois de me encantar com o lirismo de um dos - para mim - incontornáveis do jazz, embriago-me agora com a matemática dos livros d'O Cravo Bem Temperado).

sábado, 1 de novembro de 2008

Poemas como companheiros de viagem

Deitei-me sem compor nenhum poema, mas não pude dormir. Recordei o poema sobre Matsushida que Sora me deu ao abandonar a minha choupana. Procurei no meu saco um poema de Hanteki Hara. Ambos foram companheiros daquela noite. Depois li dois haikus de Sampu e Dakusmi.

Matsuo Bashô
(in O Caminho Estreito, trad. Jorge Sousa Braga)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Verso isolado de Luís Quintais

(...)
Como compreender o mundo sem o chorar?

(verso de "Deixar como único testemunho", in A Imprecisa Melancolia)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Um poema mais de Pessoa

Névoa... A manhã é névoa e o dia é este...
Que quero eu dele ou ele quer de mim?
Quero que a minha angústia nada ateste
De si, nem de quem quer um fim...

Quero que a manhã seja como é,
Porque o seria sem o eu querer;
E que eu tenha esse resto vil de fé
Que é ainda querer viver...

(in Poesia 1934-1935 e não datada)

domingo, 26 de outubro de 2008

(Dias sem poesia)


Pat Metheny (guitarra), acompanhado por Chris McBride (contrabaixo),
interpretando temas do filme "Cinema Paraíso"

sábado, 25 de outubro de 2008

"Manhã de Inverno", de Luís Quintais

O verão entrou pelo inverno adentro.
O céu é azul, sem nuvens.
E no meu pensamento voa a cotovia.

O sol não nos abandonou durante todo o dia.
O sol faz de mim um homem como os outros.
Mas só desta vez,

porque da próxima serei menos que o último dos homens.
Afirmações de senso-comum transportam-nos
até ao verão que há dentro do inverno.

A alma, pobre prefiguração das coisas sem lume,
a alma depõe as enregeladas sombras
que a envolvem

e caminha no contentamento sucessivo das horas.
E desta vez direi para que se não regresse
a estes instantes que tudo encerram

para melhor se perderem:
foi disto que se fez o dia,
este primeiro dia na esquecida memória dos homens:

de uma passagem
para a outra margem do inverno, de uma passagem
para a solenidade do verão.

(in A Imprecisa Melancolia)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Últimos versos de "Quasi"

(Versos que me perseguiram durante a viagem de regresso a casa - feliz bóia, sabê-los de cor! Noites há em que me penaliza um pouco conduzir... Hoje a solução foi repetir quatro versos em voz alta, sem qualquer finalidade concreta, mas acabando por bloquer o pensar e o sentir, a estrada feita de curvas, os reflexos da luz nas árvores, os veículos lentos a ultrapassar, as rotundas mais do que conhecidas... Quatro versos apenas para toda uma viagem... Relido o poema na sua versão completa, fecho o dia. De certa forma, fecho também a vida - ceio qualquer coisa leve e preparo-me para um sono triste).

* * *

(...)
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

sábado, 18 de outubro de 2008

(Nunca defunto o amor)

poema publicado à memória da minha tia M.J. (1949-2008)

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Helder
(in A Faca não corta o fogo [o poema que abre o livro])

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Dois haikus de Matsuo Bashô

Não há arroz
mas tenho na malga
uma flor

* * *

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia

(in O Gosto Solitário do Orvalho, trad. Jorge Sousa Braga)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

(A poesia é um vício caro)

(Comprei o novo livro do Herberto Helder. Comprei-o e sinto-me um pouco culpado. A poesia é um vício caro - nem coragem tenho para aqui deixar escrito os euros que tive de dispender para comprar (consumismo?) um livro que não tinha forçosamente que ter na minha biblioteca... Herberto Helder publica um livro que é uma "súmula & inédita", o que significa que somente uma parte - falta avaliar se a maior ou menor - constitui completa novidade... Na capa, uma interessante pintura da Ilda David... mas nem ela me apaga um certo remorso).

Do ortónimo

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão,
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida.

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre meu braço
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu
Sem o querer
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério
Súbito e etéreo
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

Fernando Pessoa
(in Poesia, 1934-1935 e não datada)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Uns versos soltos + um poema de Mia Couto

(Gostei tanto deste livro, que é impossível deixá-lo passar em branco).

* * *

Estes quatro versos, se é permitido fazê-lo com
versos alheios, gostaria de os dedicar aos meus Amigos


(...)
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

(versos de "Poema da despedida", in Raiz do Orvalho e Outros Poemas)

* * *

Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousam a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltarei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
quem reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

(in Raiz do Orvalho e Outros Poemas)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Mia Couto: recomendo muito

(Este fim de semana li um livro de Mia Couto - «Raiz de Orvalho e Outros Poemas». Ainda que diferentes dos poemas de um outro livro (mais recente) que já lera do autor, vários foram os versos que me conseguiram encantar; muitos transcrevi, qual anacrónico copista, num dos meus inúteis cadernos (anacronicamente manuscritos). Às vezes, neste livro, o autor escreveu o que eu, há quanto tempo, quero dizer - ou, mais ainda, escreveu o que eu queria ter entendido dentro de mim para poder, se não dizer, ao menos calar (mas calar em consciência).
Ler um livro de poemas é quase sempre um passatempo sereno, mesmo que invariavelmente inútil. Aprende-se a nossa língua, certamente (depreende-se, com sorte, o que sentimos); mas não se aprende a beleza, os bons sentimentos ou qualquer coisa que se possa parecer com a vida... Na vida, somos só nós - face à beleza, aos (bons ou maus) sentimentos, à vida; e cada um com sua espingarda - e não vou ao encontro das metáforas já de todos conhecidas. Li Mia Couto. Agora, pela lógica deste blogue - mas que lógica?, meu Deus, que lógica? - devia publicar um poema, ou somente um verso. Não: hoje, escrevo este parágrafo para me poder sentir culpado com mais razão - não publiquei sequer um verso, apesar de haver versos (oh!, tantos!), não foi possível o poema, mesmo havendo muitos para ler...).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

(Apesar de)

(A verdade é que, após uma hora de condução nocturna, e apesar de - ligado o computador - me resolver publicar uns versos do Francisco José Viegas, lidos há horas atrás, neste momento sinto que a Poesia não encerra em si mesma qualquer valor.
Talvez seja o cansaço a falar, admito; mas também é possível que o cansaço fale a clara linguagem da evidência.)

"Eu que não sei o que sou", de Francisco José Viegas

Tudo parece gasto, tudo: os corredores, as janelas,
mas sobretudo os nomes das coisas, a forma como
se organizam e se preparam para a morte,
o modo de tudo desaparecer. Um sentido
para as coisas, um sentido para dar às coisas.
Ter medo e saber, esquecer e querer esquecer.
Sento-me à noite na varanda onde o frio chega
primeiro e reparo que tudo parece gasto e sem sentido.

(in Se me comovesse o amor)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Uma edição fac-similada da «Mensagem» nas livrarias


"Saudade", de Al-Mu'tamid

breve será vencedora
a morte com tal paixão,
se não estancas coração
esta dor que me devora.

ausente minha senhora
mil cuidados me dão guerra.
não logro paz cá na terra.

e o sono, que invoco em vão,
com a sua doce mão
nunca as pálpebras me cerra.

(in Al-Mu'tamid. Poeta do Destino, trad. Adalberto Alves)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"Balões", de Sylvia Plath

Desde o Natal que eles têm vivido connosco,
Simples e transparentes,
Ovais animais com alma,
A ocupar metade do espaço,
Movendo-se e roçando-se nas sedosas

E etéreas correntes de ar,
A guinarem e a rebentarem
Quando atacados, depois fugindo a toda a pressa para uma calma [ainda tremente.
Serviola amarela, chúmbea azul -
Tais são as estranhas luas com que vivemos,

Não com mobília fúnebre!
Tapetes de corda, paredes brancas
E estes viajantes
Globos de ar fino, vermelhos, verdes,
A encantar

O coração como desejos ou os livres
Pavões que abençoam
O chão antigo com uma das suas penas
Embutida no fundo de peças de metal luzente.
O teu irmão

Mais pequeno faz
O balão dele guinchar como um gato.
Parece estar a ver
Através dele um divertido mundo cor-de-rosa que talvez possa [comer,
Morde,

Depois senta-se
De novo, pote gordo
A admirar um mundo transparente como a água.
Um resto de vermelho
Esfarrapado na sua mão pequena.

(in Ariel, trad. Maria Fernanda Borges)

* * *

(Este é, para mim, um dos mais perturbadores poemas de Ariel, talvez por me parecer demasiado ingénuo ou inocente para caber em tal brutal - e potencialmente autobiográfica - obra... «Um resto de vermelho / Esfarrapado na sua mão pequena.»)

domingo, 5 de outubro de 2008

Uma «brilhante prestação»

Rainer Maria Rilke, nas Cartas a um Jovem Poeta, aconselhava: «Não escreva poemas de amor; evite por ora as formas mais comuns e correntes: são elas as mais difíceis, pois só uma grande força, já amadurecida, conseguirá criar uma coisa própria por entre a abundância de boas e por vezes brilhantes prestações».

* * *

(Às vezes, tropeço em livros extraordinários. Acontecerá, por certo, com todas as pessoas - nuns casos, admito que possam ser outros os objectos desses contactos felizes. Desta vez, num mercado de livros em promoção, comprei o livro organizado, contextualizado e traduzido por Adalberto Alves - "Al-Mu'tamid. Poeta do Destino".
Porquê relembrar as palavras de Rilke? Porque ao ler alguns dos versos deste poeta peninsular do século XI senti - intensamente - estar perante alguns exemplares de "brilhantes prestações" no campo da poesia amorosa.
)

* * *

Separação

só eu sei quanto me dói a separação!
na minha nostalgia fico desterrado
à míngua de encontrar consolação.

à pena, no papel, escrever não é dado
sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
linhas de amor na página da face.

se o meu grande orgulho não obstasse
iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
de visita às pétalas da rosa.

Al-Mu'tamid
(Al-Mu'tamid. Poeta do Destino, trad. Adalberto Alves)

(Contraditório)

(A opção pela poesia pode estar errada, mas mesmo admitindo que o esteja, isso não tem qualquer valor. Tudo é igual, já o escrevera.
Insisto neste blogue. Insisto porque insisto. Insisto também por amizade e por uma muito minha - inglória e à partida perdida - luta contra uma espécie de morte ou contra o embrutecimento. Insisto pelas palavras do Sebastião Alba. Insisto porque posso dizer «Fim» a qualquer momento, sem serem necessárias proclamações. Insisto mesmo que neste insistir se esconda um erro
).

sábado, 4 de outubro de 2008

(Para os meus amigos)


Glenn Gould intepretando a Ária das Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

(Interregno ou fim?)

(Tantos os poemas, tantas as possibilidades... comecei, quase sem pensar, o poemapossivel: um espaço onde, de quando em quando, este leitor "anónimo" publicitava algumas das suas leituras, sem despender grande tempo ou energia... Um espaço mais, um espaço apenas, um espaço... Agora, o interregno (ou mesmo o fim). Tinha planeado publicar nos próximos dias alguns versos lidos recentemente: "Lendo o que escreves", de Francisco José Viegas, ou um perturbador poema da Sylvia Plath, cujo título agora me falha. Mas não o farei, agora (pelo menos) não... Levarei o cachorrito a passear noutro relvado - e, quem sabe?, talvez ele ache mais interessante outra coisa que não a poesia!... Não é preciso uma razão para um interregno (ou fim); às vezes acontece porque acontece, mesmo não tendo que acontecer, ou nada o fazendo prever. Consideremos: é tudo igual - e ainda que o não fosse, desta vez será).

terça-feira, 23 de setembro de 2008

"Poesia é acto", de Remco Campert

Poesia é acto
de afirmação. Afirmo
que vivo e que não vivo só.

Poesia é futuro: pensar
na próxima semana, em outro país
e em ti mesmo quando velho.

Poesia é a minha respiração, empurra
meus pés às vezes hesitantes
sobre a terra que pede movimento.

Voltaire acometido de varíola
salvou-se ingerindo entre outras coisas
120 litros de limonada: isso é poesia.

Ou então a ressaca. Quebrada
nas rochas não se deixa derrotar,
refaz-se: e isso é poesia.

Cada palavra que se escreve
é um atentado contra a velhice.
Afinal a morte vence, isso é certo,

mas a morte é apenas silêncio na sala
depois de ressoar a última palavra.
A morte é emoção.
(in Uma Migalha na Saia do Universo. Antologia da poesia neerlandesa do século vinte, trad. Fernando Venâncio)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"Eles", Richard Minne

Eles, as pessoas com dignidade
nesta vida, com chama interior,
andam aí dispersos sobre a terra
e trazem um chapéu inferior.

Caminham asseados, silenciosos,
rente às casas preferem deslizar
e escutam, se possível no Outuno,
os choupos todos a rumorejar.

Espaço não costumam ocupar
como o dourado nas folhas dum livro,
e se acaso o eléctrico vem cheio
o seu lugar é sempre no estribo.

Ontem levei uma pessoa dessas
à estação. Era uma noite assaz
brumosa e fria. O meu cansado amigo
tinha um bilhete de terceira classe.

(in Uma Migalha na Saia do Universo. Antologia da poesia neerlandesa do século vinte, trad. Fernando Venâncio)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Poema de Sebastião Alba

A luz, morosa,
esconde a minha sombra:
vou indigno de nota.

Uma escusa é a melhor dádiva de mim
à língua em que me calo, irreprovável.

Calo?

Com o verso insto, instalo o clima,
amenizando o da região.

(in A Noite Dividida)

domingo, 14 de setembro de 2008

Dois versos de amor de um poema de Mia Couto

(Em dois versos apenas, quantos poemas de amor... Partilho-os com o meu auditório o que considero perfeito).

"E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer".

(versos do poema "O amor, meu amor", in idades cidades divindades)

"Ourogulho", de Mia Couto

Nunca pedi.
Sempre me perdi.
Na eminência do triunfo
eu me esqueci de vencer.

Onde havia escada
eu me furtei ao degrau
preferi o nada
a subir de grau.

Outros são donos,
donos de nomes, títulos
brilhos, proezas e luzes.

Eu, quando sou eu,
é apenas por distracção.

E apenas
para ser ninguém
me sobeja vocação.

(in idades cidades divindades)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"O dito pelo dito", de Mia Couto

Antes, eu dizia:
não me apetece nada.
E mentia.

Agora, digo:
apetece-me o nada.
E me desminto
para não dizer a verdade.

(in idades cidades divindades)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

"Génese", de Sebastião Alba

Foi assim
Todo o mar que eu via
se precipitou logo no meu coração
Que é de sal

E os peixes cristalizaram
com os olhos mortos
para as suas manhãs refractadas

Escutando bem
ouve-se como ao pé das estátuas
música de uma fanada melancolia.

(in A Noite Dividida)

domingo, 7 de setembro de 2008

(Poema certeiro)

O que se diz nunca é exacto
nenhuma voz nos dita
o que se passa
Por isso a palavra é uma procura
do que nunca se lhe entrega
e é essa separação que a alimenta
e nela se abre o horizonte
do impronunciável


António Ramos Rosa
(in A Intacta Ferida)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Abalo

(Poemas há que, apanhando-nos desprevenidos, nos fulminam, como que nos revelando aquilo que conservamos - quase inacessível - no recanto mais profundo de nós... Isto aconteceu ao autor destas linhas com os versos que se agora publicam: ao início desta madrugada, sussurrando as palavras, um tremendo abalo...)

* * *

Está tão próxima
a nascente
que os nossos lábios a perdem

Tão imediata é a luz
da sua água perene
que os nossos olhos se ofuscam

tão vazia e transparente
tão cúmplice do nosso espaço
que nela somos sem ver
que nela estamos sem estar

António Ramos Rosa
(in A Intacta Ferida)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

«Não desistas, P...»

«(...) a cultura adquirida deve ser partilhada porque foi graças aos outros que a adquirimos. Espalhá-la, sem esperar recompensa, é uma ordem. Sabendo, ainda, que isso pouco ou nada adiantará. Ensina aos teus colegas a "ver", a "ouvir", mas como quem se apaga».

Sebastião Alba
(in Albas)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

(Dias sem poesia: a música que, recuperada do passado, tenho ouvido vezes sem conta)

Nouvelle Vague interpreta "In a manner of speaking" (tema dos Tuxedomoon) em concerto realizado em Malmö em Fevereiro de 2007

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Em espiral

(Por muito que me pretenda anular nas linhas deste blogue, reconheço que tal é utópico – como utópico é buscar objectividade na emotividade. Cada poema publicado, cada autor escolhido, entre os muitos possíveis, revela a subjectividade de um gosto pessoal – o meu, com todas as suas limitações –, a quase aleatoriedade do acesso a uns livros e a outros não, e do conhecimento de uns autores e de outros não.
Partindo desta assumpção, hoje decidi publicar um dos poemas que me marcou a juventude – quando ainda não descobrira o prazer de ler poesia. O autor é um velho conhecido, mas não me parece excessivo revisitá-lo – e, mesmo que o seja, hoje é o poema que me apetece
).

* * *

Ali não havia electricidade.
Por isso foi à luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler –
A Bíblia, em português, porque (coisa curiosa!) eram protestantes.
E reli a Primeira Epístola aos Coríntios.
Em torno de mim o sossego excessivo das noites de província
Fazia um grande barulho ao contrário,
Dava-me uma tendência do choro para a desolação.
A Primeira Epístola aos Coríntios…
Reli-a à luz duma vela subitamente antiquíssima,
E um grande mar de emoção ouviu-se dentro de mim…

Sou nada…
Sou uma ficção…
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
«Se eu não tivesse a caridade»...
E a soberana voz manda, do alto dos séculos,
A grande mensagem em que a alma é livre…
«Se eu não tivesse a caridade»…
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!…

Álvaro de Campos
(in Poesia, vol. II, ed. Teresa Rita Lopes)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

"Canção Excêntrica", de Cecília Meireles

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projecto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
É já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço,
– do que faço, arrependida.

(in Antologia Poética)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

(Parênteses)

Talvez tivesse razão o poeta que ouvi há uns tempos: a poesia é um "ofício magoado" - é um nada com líricas aspirações a nobreza. Porquê ler poesia? Para quê? (E porque não?).
A verdade é que (e esta é a constatação a que chego a cada passo) não sei falar de poesia, por muito que a leia (e que com ela cresça – ou julgue crescer) e me esforce por transmiti-la (com dúbio sucesso) aos que me rodeiam... Se, como defendem alguns, a poesia é intransmissível, porquê insistir em disseminá-la?
É certo que manter este inofensivo blogue não é muito custoso – as leituras acontecem e aconteceriam independentemente dele (além disso, ainda retiro o secreto prazer de todos os gestos inglórios); mas fará sentido? Fará sentido a exteriorização desta fraqueza?

sábado, 23 de agosto de 2008

"Madrigal Melancólico", de Manuel Bandeira

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
– Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
(in Antologia)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

"O último poema", de Manuel Bandeira (o último poema possível?)

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

(in Antologia)

sábado, 16 de agosto de 2008

Versos de Ramos Rosa

Quando dizemos estrela esperamos
que a palavra brilhe como uma estrela
mas não como se a palavra a nomeasse
porque só o nome dela brilha
e na sua própria ausência ele é uma estrela

(in A Intacta Ferida)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

"Conserve este bilhete até ao final da viagem", de Rui Pires Cabral

Devo dizer que sempre preferi
os versos feridos pela prosa
da vida, os versos turvos
que tornam mais transparentes
os negros palcos do tempo, a dor
de sermos filhos das estações
e de andarmos por aí, hora após
hora, entre tudo o que declina
e piora. Em suma, os versos
que gritam: Temos as noites
contadas. E também
os que replicam:
Valha-nos isso.

(in Capitais da Solidão)

Summer music

Primeiro encore (o tema "Chameleon" do clássico álbum «Head Hunters», de 1973) do concerto de Herbie Hancock (piano e teclados) no Palácio de Cristal (Porto), ocorrido no dia 3 de Agosto deste ano. Hancock apresentou-se acompanhado por Dave Holland (contrabaixo), Vinnie Colaiuta (bateria), Chris Potter (saxofone), Lionel Loueke (guitarra)

domingo, 10 de agosto de 2008

Sobre o poeta

«No chamado consenso geral (ou público) uma das aparências que o alienado ainda reveste é a de poeta. (...)
Pode acontecer que o poeta se desacerte ao abotoar-se, diga «perdão!» quando é pisado por vocês, faça uma declaração de amor a um marco do correio, não saiba ganhar a (vossa) vida... Pode acontecer. Mas acautelai-vos: o poeta é um distraído terrivelmente atento. A sua distracção é pura economia. Apostado em caçar o essencial, o poeta resvala de olhos vagos pelo que já viu e reviu. Ele sabe que até morrer nunca mais terá tempo».

Alexandre O'Neill
(excerto de prefácio publicado in Coração Acordeão)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Ruy Belo, poeta desaparecido há 30 anos

27 Fev. 1933 - 08 Ago. 1978
Um dos meus poetas favoritos. Morreu há trinta anos.
* * *
(...)
Falareis de mim não posso impedir que faleis de mim
mas já nada disso me pesa como o simples facto de ter de ser vosso amigo
Estou só e só para sempre e só desde sempre
mas antes por direito de opção. Agora não
Deixaram-me aqui doutor em tantas e grandes tristezas portuguesas
e durmo o sono das coisas convivo com minerais preparo a minha juventude [definitiva
Era como eu esperava mas não posso dizer-vos nada
pois tendes ainda o problema e a cara da pessoa viva
(excerto de poema inédito dado a conhecer em 2003,
publicado in Todos os Poemas, vol. III)

De «A Intacta Ferida»

Não tenho lágrimas
estou mais baixo
junto à cal

Vejo o solo extinto
Não oiço ninguém
e não regresso

Adormecer talvez
junto a uma estaca
com uma pequena pedra
sobre as pálpebras

António Ramos Rosa
(in A Intacta Ferida)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

"Sopa", de Carl Sandburg

Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher.
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
com uma colher.

Tradução de Alexandre O'Neill
(in Maria Antónia Oliveira, Alexandre O'Neill. Uma biografia literária)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Mais versos de valter hugo mãe

Toutinegra-de-cabeça-preta
um pássaro pergunta-me se
existe o céu, para saber se
lhe responderei ou se
deve cair


(in Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Versos de valter hugo mãe

sobre os olhos que saio
a minha árvore despida plantada
na nuvem presa chora. sopro-lhe
o vento que possuo, mas
não se mexe. quebro as imagens
em lágrimas. suplico. abano os
braços e tento pôr-me de
pé. a minha árvore é
pequena, inventei-a
à pressa. cabe-me toda dentro
da cabeça. agora ouço menos surdo
o abanar das folhas, vejo menos
cego o que o meu grito
espanta

(in Estou Escondido na Cor Amarga do Fim de Tarde)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

(Dias sem poesia)


Antonio López Palacios interpretando a "Gnossienne" n.º 3, de Erik Satie

quinta-feira, 31 de julho de 2008

"À une passante", de C. Baudelaire. Duas propostas de tradução

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!

Charles Baudelaire
(As Flores do Mal)

* * *

A uma passante

A rua ia gritando e eu ensurdecia.
Alta, magra, de tudo, dor tão majestosa,
Passou uma mulher que, com mãos sumptuosas,
Erguia e agitava a orla do vestido;

Nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua.
Crispado com um excêntrico, eu bebia, então,
Nos seus olhos, céu plúmbeo onde nasce o tufão,
A doçura que encanta e o prazer que mata.

Um raio… e depois noite! – Efémera beldade
Cujo olhar me fez renascer tão de súbito,
Só te verei de novo na eternidade?

Noutro lugar, bem longe! é tarde! talvez nunca!
Porque não sabes onde vou, nem eu onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que bem sabias!

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

* * *
A uma transeunte

A rua ensurdecedora em meu redor berrava
Alta, esguia, de luto carregado, dor majestosa,
Um mulher passou, com sua mão faustosa
Erguendo, baloiçando o ramo e a bainha

Ágil e nobre, com sua perna de estátua,
Eu bebia, crispado como extravagante,
No seu olhar, céu lívido onde nasce o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata

Um raio… em seguida, a noite! __ Beleza fugitiva
Cujo olhar me fez repentinamente renascer,
Só voltarei a ver-te na eternidade?

Algures, bem longe daqui! Demasiado tarde! Nunca talvez!
Eu não sei para onde fugiste, tu não sabes para onde vou,
Tu que eu teria amado, tu que sabias que sim!

Tradução de Maria Gabriela Llansol

terça-feira, 29 de julho de 2008

"Mon Père", de Kajetan Kovič

Mon père,
não sei porque te chamo assim,
não falavas francês,
mas isto provavelmente terias
entendido,
talvez eu to diga numa língua
estrangeira
por causa da distância,
conseguiríamos amar-nos
apenas assim:
não muito de perto.
Estávamos sentados
em velhas tabernas,
bebíamos um riesling
ou um šipon
ou, mais frequentemente,
qualquer vinho ácido,
falávamos
das coisas mais comuns.
A vida parava
por trás das portas,
a uma distância segura.
Parecia impetuosa de mais
para lhe dar um nome.
Tínhamos medo,
mon père,
das palavras fortes de mais.
Agora és apenas
uma foto na parede
e um túmulo num bonito cemitério.
Acendo-te uma lamparina,
trago-te flores.
Não a ti,
aos teus ossos.
Conto-te
tantas coisas.
E tu calado.
Apenas a tua lápide.
Com as datas.
De – a.
Meu Deus,
que coisas os filhos não dizem
hoje aos pais.
Aos vivos e aos mortos.
Mon père,
nenhum era
como tu.
Tão só,
tão meu,
tão pai,
perdido neste mundocomo eu.

(in Treze Poetas Eslovenos)

domingo, 27 de julho de 2008

"O monstro", de Alexandre O'Neill

Meneia o monstro a cauda, sedutor.
Seu rosto podia até estar em flor.

Meneia o monstro a cauda como um gato.
Seus olhos suplicam: quer regaço.

O monstro é bom, o monstro realiza
que em família é outra coisa a vida!

Que é da ferocidade anunciada?
Que é do salto? Que é da garra disparada?

O monstro já me pede para ir à escola,
«como os outros meninos». Esta agora!

O monstro vai à escola, apanha boas notas
e volta, alvoroçado, nas suas oito botas.

O monstro aculturado já se deixa montar,
mas ainda não moro naquele seu olhar.

Naquele seu olhar, que é tão meigo, eu já via
algo assim como uma vaga nostalgia.

Que deseja o monstro que não possa ter,
o monstro que eu mostro a quem o quiser ver?

O monstro protesta sua eterna amizade,
diz-se muito feliz, «se é que há felicidade!».

Mas a mim não me enganas. Dou com ele a chorar.
«Que tens tu, ó Castorim, que não queres confessar?».

«A bem dizer, padrinho, eu não tenho nada.
Sei agora que sou uma besta humanizada.

Mas que hei-de fazer com este meu aspecto?
Como hei-de viver com este mau aspecto?

Ó meu bom padrinho, eu só queria voltar
ao pedregal donde me foi tirar!».

Abraçados, chorámos, e eu, complacente,
deixo o monstro ir embora - e para sempre!

Vossa boa atenção não quero fatigar.
Com a moral costumeira vou aqui terminar.

Nunca façam de um monstro a vossa criação,
que tarde ou cedo vai dar complicação.

(in Coração Acordeão)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

"Não existes", de Dane Zajc

Não existes na voz do vento, nem na desordem dos montes,
não existes na flor, se os pássaros chamam, não é a ti que chamam,
não existes na nudez da terra, nem no cheiro pesado das ervas,
e se semeias flores para cheirarem a ti, elas só vão cheirar a elas próprias,
se constróis um caminho, o caminho falará dele próprio,
se constróis uma casa e a enches de coisas caras,
vai ver-te um dia como um estranho
e as coisas vão falar-te de si próprias com a sua língua trocista.

É mentira que exista uma fonte para matar a minha sede,
e que exista um rio para te banhares no seu regaço frio.
É mentira que as coisas te vão consolar com uma memória calma
porque um dia todo o teu mundo se vai revoltar.


Um dia as coisas vão mudar de nome.
Então, a pedra será o ódio e o vento será o terror,
a rua será o pó, os pássaros cravarão na tua fronte
os pregos ardentes das suas vozes, o rio será o desespero,
as tuas coisas serão a tua culpa e os teus acusadores.
O mundo será destruído, o mundo não terá nome.

Então, tudo vai ter de ser-te indiferente. Estarás sentado num canto

[abandonado.
Fecharás os olhos para não veres nada. Sobretudo para não veres
a tua perdição na perdição do mundo morto.
Para não pensares que deves
fazer qualquer coisa, não pôr os pés em lado nenhum,
os pés que serão finos, finos como patas de aranha.
Só a tua cabeça será grande. A tua cabeça que florirá,
branca como a magnólia. Longamente procurarás na branca gruta da boca um
[nome para ti,

mas então será melhor que encontres um nome para o fim,
do que para uma continuação.

(in Treze Poetas Eslovenos)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

"Save", de Pedro Mexia

Nada fica, a própria memória
é uma mitologia, tenho-me
como testemunha mas nada
garante que um dia não negue
tudo, então haverá este processo
verbal, museu portátil que com
um gesto, dizem, está salvo.
(in Em Memória)

domingo, 20 de julho de 2008

Criação

«Um autor está entregue a si mesmo, corre os seus (e apenas os seus) riscos. O fim da aventura criadora é sempre a derrota irrevogável, secreta. Mas é forçoso criar. Para morrer nisso e disso. Os outros podem acompanhar com atenção a nossa morte. Obrigado por acompanharem a minha morte».
Herberto Helder
(in Photomaton & Vox)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Visa para un Sueño

Como uma vulgar tarde de esplanada se pode transformar num concerto de música cubana - ainda que muito informal. O parzinho dançando ao som dos "Cubanitos" fez-me lembrar uma cena do filme "Querido Diário", do Nanni Moretti, em que, por breves momentos, a realidade de confunde com o sonho...

Excerto do filme "Querido Diário", realizado e protagonizado por Nanni Moretti (Itália, 1993)

"Extinção", de Régis Bonvicino

Antônio Abujamra lê o poema "Extinção", de Régis Bonvicino, no programa Provocações/TV Cultura

O lobo-guará é manso
foge diante de qualquer ameaça
é solitário
avesso ao dia, tímido

detesta as cidades
para fugir do ataque
cada vez mais inevitável
dos cachorros

atravessa estradas
onde quase sempre é atropelado
onívoro, com mandíbulas fracas
come pássaros, ratos, ovos, frutas

às vezes, quando está perdido,
vasculha latas de lixo nas ruas
engasga ao mastigar garrafas
de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder
lâmpadas fluorescentes
ou engolir fios elétricos
morre ao lamber inseticidas

ou restos de tinta
ou ao engolir remédios vencidos
ou seringas e agulhas
descartáveis

dócil, sem astúcia,
é facilmente capturado e morto
por traficantes de pele
quando então uiva

segunda-feira, 14 de julho de 2008

R. Juarroz: um "poeta-prestigitador"?

Escrever um texto
e deixá-lo abandonado na página.

Não voltar a lê-lo,
não o mostrar a ninguém,
não o mandar a nenhum lado.
Que fique no seu repouso de texto.

E deixar que aí encontre o seu leitor,
como todos os textos o encontram.

Também o que levamos escrito dentro
e nos parece impossível que alguém possa ler.

Roberto Juarroz
(in Poesia Vertical, antologia organizada e traduzida por Arnaldo Saraiva)

domingo, 13 de julho de 2008

"Penélope", de Sophia de Mello Breyner Andresen

Desfaço durante a noite o meu caminho.
Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.

(in Coral)

terça-feira, 8 de julho de 2008

«Para quê falar?», pergunta Roberto Juarroz

Para quê falar?
Mas para quê calar?

Não há ouvido para a nossa palavra,
mas também não há ouvido para o nosso silêncio.
Ambos se alimentam unicamente entre si.

E às vezes permutam as suas zonas,
como se quisessem amparar-se mutuamente.

(in Poesia Vertical, antologia organizada e traduzida por Arnaldo Saraiva)

domingo, 6 de julho de 2008

De novo, Álvaro de Campos

Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem,
Tínhamos estado dezoito horas juntos.
A conversa agradável,
A fraternidade da viagem,
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas...
Toda despedida é uma morte...
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, o comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

Tudo que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem...

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

(in Poesia, vol II)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

EXIT

Brad Mehldau Trio (Brad Mehldau - piano, Larry Grenadier - contrabaixo, Jorge Rossy - bateria) interpreta "Exit Music (for a film)", dos Radiohead

quinta-feira, 3 de julho de 2008

"Vinheta", de Eucanaã Ferraz




Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa

e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.

Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.

(in Cinemateca)


(O poema possível agradece profundamente a Eucanaã Ferraz por nos ter proporcionado o conhecimento deste e de outros poemas).

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Poema para uma amiga

Para ti, M.

Dos pinhais

Ondulando, os pinhais
quiseram ser o mar.
Murmurando, quiseram ser
o vento. Mas somente
no meu ouvido eram vento,
nos meus olhos, mar.

E hoje, ali na encosta,
pinhais bordejam
o mar, sustêm o vento.

Fiama Hasse Pais Brandão
(in As Fábulas)

terça-feira, 1 de julho de 2008

"Retrato", de Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

(in Antologia Poética)

sábado, 28 de junho de 2008

(Dias sem poesia)

Glenn Gould interpretando a variação 25 das Variações Goldberg, de J. S. Bach
(Dias sem poesia: procurando na música um refúgio).

quarta-feira, 25 de junho de 2008

"Homens que são como lugares mal situados", de Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar

(in Poesia)

(O verso que me perseguiu durante parte do dia, sem que o conseguisse evocar correctamente: "Homens encarcerados abrindo-se com facas". Encontrado o verso, o homem por trás destas linhas sente não ter mais a acrescentar).

terça-feira, 24 de junho de 2008

"O Lobo das Estepes", de Hermann Hesse

Eu, lobo das estepes, corro, corro,
a neve cobre o mundo,
da bétula levanta voo o corvo,
mas nunca aparece uma lebre, nunca aparece um cervo.
E como eu amo os cervos!
Se acaso encontrasse algum,
prendia-o com garras e dentes:
é a coisa mais bela em que penso.
Com os sensíveis seria também sensível,
devorava-os todos de extremo a extremo,
bebia-lhes até ao fundo o sangue púrpura e espesso,
e solitariamente uivava pela noite dentro.
Contentava-me com uma lebre.
É tão doce à noite o sabor da sua carne quente.
Porventura foi-me negado tudo quanto possa, um pouco,
alegrar a vida, um pouco apenas?
A minha companheira, há muito que não a tenho,
o pêlo da minha cauda começa a ficar cor de cinza,
e só quando há bastante luz é que vejo.
Agora corro e sonho com cervos,
ouço o vento soprar nas grandes noites de inverno,
e a minha alma dolorosa, entrego-a eu ao demónio.

(in Doze Nós numa Corda.
Poemas mudados para português por Herberto Helder)

domingo, 22 de junho de 2008

"O Doido", de Eucanaã Ferraz


Diziam, verdade ou não, que fora rico e são
e que a despeito dos bens que possuíra

acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável, a cabeça

reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua

em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.

Absorvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação

de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos

encardidos a água das praias,
como se província sua,

como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,

até que desceu a noite
e uma pedra veio buscá-lo.

Sítio na Internet: http://eucanaaferraz.com.br/

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Auto-imagem

Curiosa, a auto-imagem: a mediocridade que se reconhece com desconforto, a mediania que se não vê ainda que óbvia, a originalidade mais ou menos presumida, and so on, and so on... O querer, afinal, que nos façam justiça...

* * *

Caixadòclos

- Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
- Que és o esticalarica que se vê.

- Público em geral, acaso o meu nome...
- Vai mas é vender banha de cobra!

- Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
- Este é um dos que fala sozinho na rua...

- Campdòrique, então, não dizes nada?
- Ai tão silvatávares que ele vem hoje!

- Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
- É o do terceiro, nunca tem dinheiro...

- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...

- Ah, agora sim, fazem-me justiça!

- Olha o caixadòclos todo satisfeito
a ler as notícias
...

Alexandre O'Neill
(in Poesias Completas)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

"Guardar", de António Cícero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Sítio na Internet: www2.uol.com.br/antoniocicero

sábado, 14 de junho de 2008

AJ, V

Sempre que penso uma cousa, traio-a.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela,
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma cousa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existe directamente para os olhos e não para o pensamento.

Olho, e as cousas existem.
Penso e existo só eu.
Alberto Caeiro
(in Poesia)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O inédito de Caeiro, no dia dos 120 anos do nascimento de Pessoa

Gosto do céu porque não creio que ele seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa algures e algures acaba
E que longe e atrás disso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e terá um fim,
E que antes e depois disso não havia tempo.
Porque há-de ser isto falso? Falso é falar de infinitos
Como se soubessemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.

(Leitura e transcrição de Richard Zenith,
publicada no jornal "Público", 13 de Junho de 2008)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

"Espera", de Sophia de Mello Breyner Andresen

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê passar o silêncio

Navegação antiquíssima e solene

(in Geografia)

(O poema possível dedica a publicação deste poema à R.)

terça-feira, 10 de junho de 2008

Excerto de "Portugal", de Jorge Sousa Braga, no Dia de Portugal e de Camões

(...)
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de
[Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha
[vontade
Portugal estás a ouvir-me?
(...)

(in O Poeta Nu)

domingo, 8 de junho de 2008

Arte de Amar

Da minha segunda visita à Feira do Livro trouxe, entre outros livros, a Arte de Amar, de Ovídio. Ainda que não tencionando lê-lo nas próximas semanas, transcrevo aqui os primeiros quatro versos do Livro I.

* * *

Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar,
leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria,
[ao amor.
É a arte e as velas e os remos que fazem mover as naus,
é a arte que faz mover, ligeira, a quadriga. É a arte que deve reger
[o Amor.
(in Arte de Amar, trad. Carlos Ascenso André)

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Discos pedidos

Obviamente: faltava ainda publicar algo do Drummond, poeta que muito aprecio. Depois de uns quantos minutos a folhear o primeiro livro publicado por este autor (Alguma Poesia, de 1930), reencontrei estes versos tão apropriados a um blogue de nome poema possível...

* * *
Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

(in Alguns Poemas)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Evocando Jorge de Sena

Na minha insuficiente biblioteca de Poesia terei, no máximo, uns três ou quatro poemas do Jorge de Sena, dispersos em compilações várias. Um Poeta esquecido? Talvez não tanto, mas seguramente pouco lembrado quando considerada a dimensão (qualitativa, entenda-se) da sua obra.
Os poemas que já li (felizmente mais do que os três os quatro acima referidos) permitiram-me perceber que aprecio o poeta (bem mais que o ficcionista e o ensaísta - não considero o dramaturgo, porque nunca investi nessa faceta do autor). Neste dia - em que se assinalam trinta anos do seu desaparecimento - publico um poema de Jorge de Sena.

* * *

Fidelidade

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.