quarta-feira, 16 de Abril de 2014

"Je rentre à la maison", de Luís Filipe Castro Mendes

Todos os lugares me são ausência,
por isso nunca posso regressar.

Queria só escutar essa cadência
que as palavras nos tecem ao falar.

E talvez alguém tenha paciência
para ler o que escrevo se voltar.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

"Para quê poetas em tempo de indigência?", de Luís Filipe Castro Mendes

Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe mais as flores do mal nem a luz  radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.
(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

[Insiro o rosto], de António Ramos Rosa

Insiro o rosto
entre os ramos de um arbusto
e bebo a delicada fábula
dos fulgores solares

Consumi toda a minha fragilidade verde

Dormi como uma folha
de braços abertos
e passo a passo
subi ao cimo do dia

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

sábado, 5 de Abril de 2014

"Anunciação", de Luís Filipe Castro Mendes

Não fujo ao poema.
Espero-o com a alegria de quem caminha
sobre brasas e destroços
e dele espero a música, toda a música
que não sei dar nem receber.

Antes de fechar as contas, digo eu,
espero o poema
como um riso atrás da cortina
da vida.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

quinta-feira, 3 de Abril de 2014

"Algumas coisas", de Manuel António Pina

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)

terça-feira, 1 de Abril de 2014

[Olhe, preciso de dinheiro], de Golgona Anghel

Olhe, preciso de dinheiro.
Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio.
Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões.
Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.
A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas.
Já não tenho paciência.
Com esta idade, já viu o que é.
Sujeitar-se a todos os labregos.
Já tentei noutros bancos, sim.
Pedi também aos meus pais, é verdade;
disse-lhes que era para me casar.
Não, não tenho casa, nem automóvel.
Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo.
O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado.
É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal,
mas anda a mil.
E adiantado, não pode pagar nada como entrada?
Entrada, não sei.
Só se for o coração.

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

segunda-feira, 31 de Março de 2014

"Regresso", de Luís Filipe Castro Mendes

Voltar à poesia, esse caminho estreito
entre a solidão e a vida,
esse jardim onde as flores
crescem para dentro de si próprias,
esse destino sem lugar no mapa.

Voltar à poesia, porque mais nada
cresceu entretanto,
nem palavras nem coisas.

Adivinhávamos promessas no terror dos tempos
e continuámos a andar como se houvesse caminho.
Voltar à poesia, a esta distância sem rumo nem projecto,
voltar à poesia para estar mais longe
do que sou.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

sábado, 29 de Março de 2014

[Escolhi a terra para dormir], de António Ramos Rosa

Escolhi a terra para dormir
húmida vermelha dura
nunca formei uma palavra
nunca encontrei a saída

Estou vivo ou estarei morto
ou estarei mais além aberto
entre as constelações salubres
de uma gruta de veias vivas

Já sem andaimes o poema
dilacerado como um nervo
há-se acolher ao rés do solo
um ramo quebrado um formiga
a baba de um caracol

A palavra que nunca foi dita
não será flecha mas ferida feliz
entre os dois pólos do arco
que une o desejo ao silêncio da lua

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

sexta-feira, 28 de Março de 2014

"Auto-retrato", de António Barahona

Apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos.

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

terça-feira, 25 de Março de 2014

(Um livro indispensável)

(É sempre com alguma expetativa que aguardo a edição anual, disponibilizada pontualmente no Dia Mundial da Poesia, da coletânea poética Resumo, apoiada por uma cadeia de lojas. Este ano, o volume reúne poemas selecionados por José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas. Uma ausência de vulto, porém, existe - por falta de autorização do autor -: não estão incluídos quaisquer poemas do último, muito aclamado e esgotadíssimo livro de Herberto Hélder...)

sexta-feira, 21 de Março de 2014

[O meu olhar é nítido como um girassol], de Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que teria uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a grande novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a inocência,
E toda a inocência é não pensar...

(in Poesia dos Outros Eus; ed. Assírio & Alvim)

terça-feira, 18 de Março de 2014

"Pensando melhor", de A. M. Pires Cabral

Mesmo em tardes muito quentes de Verão,
há sempre uma ave aventureira
que sobrevoa a terra.

(Pensando melhor, o que de facto há
é terra, apenas terra - que a seu tempo
há-se sobrevoar o voo das aves.)
 
(in Gaveta do Fundo; ed. Tinta da China, 2013)

quinta-feira, 6 de Março de 2014

"Vento", de A. M. Pires Cabral

I

Toda a noite fez vento sobre os campos.

Rodopiaram folhas mortas nos caminhos,
em busca de refúgio
onde o vento não viesse perturbar
a sua propensão para a inércia.

II

Também eu - folha morta ou em vias disso
que aspira às delícias da imobilidade -
busco algures abrigo contra essa
outra classe de vento que me abrasa,
desinquieta e toca a rebate
sinos sonoros no vazio sem limites
do meu interior.

(in Gaveta do Fundo; ed. Tinta da China, 2013)

terça-feira, 4 de Março de 2014

"é, no mínimo, estranho", de Rui Tinoco

é, no mínimo, estranho:
depois de horas e horas
no meio das palavras, desci
ao café para comer qualquer coisa
mas a personagem principal já
estava sentada na mesa ao lado
a comer um gelado
com uma pessoa que me era
inteiramente desconhecida.
a narração não é ofício
isento de surpresas.

(in Era Uma Vez O Branco; ed. volta d'água, 2013)

sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

"o escritor estava a ter", de Rui Tinoco

o escritor estava a ter
uma conversa bastante
agradável. era verão.
a sombra crescia debaixo
do calor. para tornar
tudo mais prazenteiro, a brisa
veio fazer companhia. a dado
momento, o escritor
concedeu-se uma pausa: estendeu
a mão distraidamente
sobre a chávena morna. a conversa
estava a terminar e nem sequer
se tinha apresentado. que cabeça
a minha: escritor este é o leitor
leitor este é o escritor.

(in Era Uma Vez O Branco; ed. volta d'água, 2013)