segunda-feira, 18 de maio de 2015

[A mim que me afogo], de Paul Celan

A mim que me afogo
atiras-me com ouro:
talvez um peixe
se deixe subornar.

(in Sete Rosas Mais Tarde. Antologia poética; trad. João Barrento, ed. Cotovia, 1993)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

[Como tu vais morrendo em mim], de Paul Celan

Como tu vais morrendo em mim:

no último
nó de respiração
desfeito
estás ainda tu com um
estilhaço
de vida

(in Sete Rosas Mais Tarde. Antologia poética; trad. João Barrento, ed. Cotovia, 1993)

quarta-feira, 13 de maio de 2015

"Fuga da morte", de Paul Celan

Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro
[Margarete
escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro
[Margarete
Os teus cabelos de cinza Sulamith cavamos um túmulo nos ares aí
[não ficamos apertados

Ele grita cavem mais fundo no reino da terra vocês aí e vocês outros
[cantem e toquem
leva a mão ao ferro que traz à cintura balança-o azuis são os seus
[olhos
enterrem as pás mais fundo vocês aí e vocês outros continuem a
[tocar para a dança

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith ele brinca com as serpentes

E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre
[que veio da Alemanha
grita arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo
[subireis aos céus
e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre que que veio da
[Alemanha
bebemos-te ao entardecer e pela manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre que veio da Alemanha azuis são os teus olhos
atinge-te com bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
atiça contra nós os seus cães oferece-nos um túmulo nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um mestre que veio da
[Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith

(in Sete Rosas Mais Tarde. Antologia poética; trad. João Barrento, ed. Cotovia, 1993)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

"Elogio da distância", de Paul Celan

Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.

(in Sete Rosas Mais Tarde. Antologia poética; trad. João Barrento, ed. Cotovia, 1993)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

"Semáforos da Constituição", de Jorge de Sousa Braga

Verde amarelo vermelho...
Para quando um semáforo
com as cores todas do arco-íris?

(in Fogo sobre Fogo; ed. Fenda, 1998)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

"Magnólias", de Jorge de Sousa Braga

Esqueceram-se das folhas
tão grande era a pressa
de florirem

(in Fogo sobre Fogo; ed. Fenda, 1998)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

"Mimosas", de Jorge de Sousa Braga

Todos os anos na mesma altura
a montanha veste o mesmo vestido amarelo
para ver se ainda lhe serve na cintura

(in Fogo sobre Fogo; ed. Fenda, 1998)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Dois haikus de Jorge de Sousa Braga

Nem todos os frutos vermelhos
merecem o céu
da tua boca

* * *

Mais do que uma vez
atravessei a primavera
com os olhos fechados

(in Fogo sobre Fogo; ed. Fenda, 1998)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

quarta-feira, 15 de abril de 2015

segunda-feira, 13 de abril de 2015

[nada do que te disser], de Dinarte Vasconcelos

nada do que te disser
abalará o matadouro ou a fornalha

o silêncio seria uma hipótese administrativa
mas suspendo-o porque quero viver

o meu epitáfio esteve sempre escrito
nas linhas que suturam a tua ferida

nos bafos que levam
e fazem pousar as cinzas

é bom que o saibamos
antes e depois dos holocaustos

se desprezarmos as palavras
tudo é transmissível – tudo se assemelha

emergem némesis siamesas
e oposições forjam-se do mesmo veio

por isso calo o silêncio
dos rituais e da burocracia higiénica

– cicatriz à tua ilharga
é chaga minha

– o que te faz arder
é o que me fará recordar

(in 70 poemas para Adorno; ed. Nova Delphi, 2015)

sábado, 28 de março de 2015

[Sem vitória, vives comigo], de Paul Celan

Sem vitória, vives comigo
pequena
e carregada.

Só lá fora, onde
as nossas almas ainda estão, na terra de ninguém,
é que se canta. Canta-se
no brilho
daquilo que passou ao nosso lado.

Nem nuvem, nem estrela – nós
não olhamos para cima.

Chega-te mais, anda:
para que não sopre duas vezes o vento
através da nossa
casa aberta.

(in A Morte É Uma Flor. Poemas do Espólio; trad. João Barrento, ed. Cotovia, 1998)

quarta-feira, 25 de março de 2015

[Oiço tanta coisa de vós], de Paul Celan

Oiço tanta coisa de vós
que não oiço mais
do que ouvir,

vejo tanta coisa de vós
que não vejo mais
do que ver,

tanta coisa me assedia
com desconversa
que dou por mim a falar
com quem conversa,
que dou por mim
a falar como quem
fica em silêncio.

Eu vivo, forte.

(in A Morte É Uma Flor. Poemas do Espólio; trad. João Barrento, ed. Cotovia, 1998)

domingo, 22 de março de 2015

(Dois versos apenas, de Pablo Nerura)

Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeira.
 
(in Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada; trad. Fernando Assis Pacheco, ed. Dom Quixote, 12ª ed., 2003)