quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

"Chaucer", de Ted Hughes

«Quando Abril com suaves aguaceiros
sacia a sede de Março até às raízes...»
Com a tua voz no seu tom mais elevado, balançando no cimo de um [escadote,
braços erguidos - para te equilibrares e
segurares as rédeas da esforçada atenção
daquela tua audiência imaginária - declamaste Chaucer
para um campo com vacas. E o céu da Primavera fez o resto,
com a roupa lavada a esvoaçar, o verde-esmeralda
dos espinheiros, o espinheiro branco, o espinheiro negro,
tu com um daqueles copos de champanhe
a que tinhas deitado a mão na arrebatação do momento.
A tua voz voou pelos campos até Grantchester.
Deve ter soado a perdida. Mas as vacas
olharam, e aproximaram-se logo: elas apreciavam Chaucer.
E tu continuaste. Havia razões
para recitar Chaucer. Seguiu-se uma divertida Mulher de Bath,
a tua personagem favorita de toda a literatura.
Estavas arrebatada. E as vacas fascinadas.
Empurravam-se e roçavam-se, faziam um círculo
para contemplar o teu rosto, dando alguns bramidos ocasionais
de exclamação, para avivar a sua assombrosa capacidade de [atenção,
de ouvidos à escuta para apanhar todas as inflexões,
à respeitosa distância de dois metros.
Tu simplesmente não conseguias acreditar.
E também não consegues parar. Que podia acontecer
se resolvesses parar? Seriam capazes de te atacar,
assustadas com o choque do silêncio, ou só porque queriam mais? -
E por isso tiveste de continuar. E continuaste -
vinte vacas ficaram contigo, hipnotizadas.
Como é que conseguiste parar? Não me lembro
de teres parado. Imagino que se foram embora cambaleando -
a revirar os olhos, como que atraídas pelo cheiro da erva.
Imagino que as devo ter enxotado. Mas
a tua interpretação de Chaucer em sustenido
já era eterna. Aquilo que se seguiu
encontrou a minha atenção demasiado ocupada
e teve de regressar ao esquecimento.

(in Cartas de Aniversário; trad. Manuel Dias)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Excerto de "O Medo (II)", de Al Berto

saúde periclitante, pensamentos periclitantes, café periclitante, cigarros periclitantes, tempo periclitante, trabalho periclitante...
abismos, paisagens inacessíveis. insónia. ideias sinistras ocorrem-me. à minha volta tomam forma pequenos objectos cortantes. precária eternidade de quem já abandonou o corpo.
os deuses deveriam predestinar-me outras tarefas, outros percursos: a mendicidade, o nomadismo, a cegueira, a transumância ou o ascetismo.
gostaria de ter nascido ave, pequena ave, flutuante pássaro marinho ou bicho subterrâneo, míldio ou peste, sarna das glicínias, feridas das tâmaras, ferrugem das roseiras, nuvem, sujidade. ah! como tenho sede doutras vidas, como desejaria o silêncio magnífico das oceânicas profundidades!

(excertos de "O Medo (II)", in O Medo)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

(Dias sem poesia)


Branka Parlic interpreta "Metamorphosis 2", de Philip Glass (Sinagoga de Novi Sad, 27.10.2004)

(...sucedem-se os dias sem poesia...).

sábado, 20 de dezembro de 2008

Versos de Herberto Helder

Tocaram-me na cabeça com um dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
É assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas

(in A Faca não Corta o Fogo)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

domingo, 14 de dezembro de 2008

"Os dentes de leão", de Jorge Sousa Braga

O poemapossivel dedica estes versos a cinco amigos
com quem é sempre um prazer e um privilégio conviver.


Os dentes de leão
adoram trincar
minúsculos grãos de pólen

(in Fogo sobre Fogo)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"À memória de Ruy Belo", de Eugénio de Andrade

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis de um império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

1978
(in Epitáfios)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Poema de Maria do Rosário Pedreira

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste que o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste, mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
eu não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

(in revista Relâmpago, n.º 22)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Excerto de obra recente de Gonçalo M. Tavares

Os versos fortes não têm currículo nem, dirá vossa excelência, passado. Não deixam, pois, pegadas, como as que as crianças e homens pesados deixam na areia. O verso pisa-te, sim, o coração, como se fosse o inverso de um ataque cardíaco, o simétrico bom do peso mau. Um verso forte não tem história como os países. Não tem invasões, reis assassinados, resistências, traições; e quatro adultérios de uma rainha da Idade Média. Um verso, hoje, não tem Idade Média dentro dele. Mesmo que seja um verso com dois mil anos, hoje, esse verso é absolutamente contemporâneo. Porque é verso. Um verso do senhor Homero lido hoje, dia sete, tem esta data, e currículo nenhum. Não tem Idade Média nem nenhuma outra.

(in O Senhor Breton e a entrevista)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

(Life out of balance)


Imagens do filme Koyaanisqatsi, realizado por Godfrey Reggio (1983); banda sonora original de Philip Glass.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

"Passos", de Luís Quintais

Escutaste os passos
no quarto
semi-escurecido
pela tua derrota?

Não eram teus,
mas do que amaste:

os passos
do que esqueces.

(in Mais Espesso que a Água)