sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

(Último poema de 2010)

Hora após hora, dia após dia
entre o céu e a terra que perduram,
vigilantes eternas,
como torrentes que se despenham,
assim passam as vidas.

Devolvei à flor o seu perfume
depois de ter secado;
das ondas que beijam a praia
e que, uma após outra, ao beijá-la expiram,
guardai os rumores, as queixas,
e em placas de blonze gravai a sua harmonia.

Tempos que passaram, prantos e risos,
negros tormentos, doces mentiras,
ai, onde estarão as suas marcas,
ai, onde estará, alma minha?

Rosalía de Castro
(in Nas Margens do Sar)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Quadra de Rosalía de Castro

Embora o meu coração gele
sinto que me estou queimando;
pois o gelo, algumas vezes,
é como o fogo: arde tanto!

(in Nas Margens do Sar)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Haikus de Casimiro de Brito

O mundo não posso mudar -
deixa-me sacudir a areia
das tuas sandálias

* * *

Não te esqueças de mim,
dizem os homens uns aos outros,
afastando-se

(in Através do Ar)

domingo, 26 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Poema de Paula Tavares

Havia tantos pássaros
na boca das árvores
que se podia começar o dia
dizendo apenas pássaro
folha manhã

(in Como veias finas na terra)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

(Na via de Casimiro de Brito)

"Trabalho na Arte Pobre, reunião de poemas cada vez mais limpos e nus em que procuro concentrar o "todo" no mínimo. Pobre é de facto a arte do homem, mas não tão pobre como ele próprio - nem tão nefasta. Uma arte, essa busco, onde escavar seja mais relevante que desenvolver, reproduzir. Mais umas noites brancas e o livro, ofício de oleiro, ficará reduzido ao osso. Como convém".

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração)

["Beijo-a no sono"], de Casimiro de Brito

Beijo-a no sono - beijo-a
mentalmente não vá eu acordar
a luz dos meus dias.

(in Arte Pobre)

(Merry Christmas, Mr. Lawrence)


Ryuichi Sakamoto Trio interpreta o tema "Merry Christmas Mr. Lawrence", da banda sonora do filme com o mesmo nome.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Dois haikus - Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi


Uma cidade! Um grão
de areia! Fragmentos
da Via Láctea

Casimiro de Brito

* * *

Também a Terra, um grão -
e dele germinou, solar,
um haiku

Ban'ya Natsuishi

(in Através do Ar)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Soneto de Shakespeare

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração; trad. Carlos de Oliveira)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

(Pas de Deux)

Para ti

Bailarinos do Ballet West (Escócia) interpretam "Pas de Deux", do bailado "Quebra-Nozes". A música é de Tchaikovsky.

domingo, 12 de dezembro de 2010

(Poesia low cost - ou: uma justificação)

(Neste blogue - como felizmente em muito outros - é possível encontrar poesia low cost. Claro está que, para quem continua ainda a depender do livro-papel (dá para ler na esplanada, no comboio, na sala de espera do médico), nem sempre são muito acessíveis os livros de poesia. São quase um luxo - serão talvez um remédio caro para a crise, ou até mesmo para certas formas de pobreza...)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Versos de Casimiro de Brito

Quando livros já não tiver
lerei as estrelas -
quando elas se cansarem
da minha solidão
lerei a palma
da mão.

(in Arte Pobre)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Versos de Rosalía de Castro


Belas são todas as estações
para o mortal quando é feliz;
mas para a alma desolada e órfã
não há estação risonha nem propícia.

(versos do poema "Cálida está a atmosfera", in Nas Margens do Sar; trad. José Carlos González)

domingo, 5 de dezembro de 2010

"Assim eu fosse o seu espelho", de Anacreonte

à AJ

Assim eu fosse o seu espelho
para poder captar o branco do seu olhar!

Assim eu fosse o seu vestido,
envolvendo-a sempre!

Assim eu fosse a água que lava o seu corpo
e o bálsamo perfumado que vai ungi-la!

Assim eu fosse a faixa de linho
que cinge os seus seios
ou o colar que acaricia o seu colo!

Assim eu fosse a sandália
que ela pisa!

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração)

sábado, 4 de dezembro de 2010

"Ao meu maior amigo", de Alexander Search

Quando eu morrer, eu sei, tu escreverás
Triste soneto à morte prematura;
Dirás que a vida cansa em amargura
E, pálido e frio, tu me cantarás.

Nas quadras, reflectido se lerá
De como, vã e breve, a vida expira
E como em terra funda, dura e fria,
A vida, má ou boa, acabará.

A seguir, nos tercetos, tu dirás
Que a morte é mistério, tudo fugaz,
Verdadeira, talvez, a vida além.

Por fim porás a data, assinarás.
E, relido o soneto, ficarás
Contente por tê-lo escrito bem.

(in Poesia de Alexander Search; trad. Luísa Freire)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

(Através do Ar)

"To my dearest friend", de Alexander Search

When I am dead you'll write - I know you will -
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.

This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.

After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.

Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.

(in Poesia de Alexander Search)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

(A gente não lê)


Isabel Silvetre interpreta "A Gente Não Lê" (letra de Carlos Tê; música de Rui Veloso)

Um poema mais de Casimiro de Brito

Apresso-me. O dia
está no fim
mas vou fazer ainda
isto e aquilo. A noite
breve
como a sombra de uma ave
que passa. Apresso-me.
Porquê,
se tudo é nada?

(in Arte Pobre)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Versos de Casimiro de Brito


Como sou frágil - penso,
olhando o rio.

Volátil o meu sangue,
um fio.

E regresso ao corpo (apenas
sangue) do rio.

(in Arte Pobre)

sábado, 27 de novembro de 2010

Poema de Pedro Tamen

Agora, se pode dizer-se agora, ou pôr-do-sol,
ou nascer da manhã, seja o que for: agora
podes ressonhar o que talvez sonhaste
quando o sol se punha realmente, e a manhã
de verdade nascia quando mal o sonhavas.

Mas, nesta operação de refazer sonhado
o que sonhado foi, o que não podes
é fazer real de qualquer jeito, sequer regar
a pequena planta que espera ser de ti.

(in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"O vento na ilha", de Pablo Neruda

O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como percorre o mundo
para levar-me para longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite apenas,
enquanto a chuva abre
contra o mar e contra a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me para longe.

Com tua fronte na minha
e na minha a tua boca,
atados os nossos corpos
ao amor que nos abrasa,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e procure
galopando na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
por esta noite apenas
descansarei, meu amor.

(in Os Versos do Capitão; trad. Albano Martins)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Haiku de Issa Kobayashi

Caracol,
lento, lento, lento - sobe
o Fuji.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudados para português por Herberto Helder)

sábado, 20 de novembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"Os teus pés", de Pablo Neruda


Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

(in Os Versos do Capitão; trad. Albano Martins)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

(Stabat Mater)


Nathalie Stutzmann interpreta, com o emsemble ORFEO 55, um extrato da obra "Stabat Mater", de Antonio Vivaldi, em concerto realizado em 2010 na Sala Gaveau (Paris)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Porta", de Pedro Mexia

Quando deixamos ir atrás de nós a porta
puxada por molas e dobradiças,
pode haver alguém que venha depois
e com um gesto queira entrar ou sair
e ampare a porta
e sobre esse gesto sabemos muito pouco.

(in Duplo Império)

domingo, 14 de novembro de 2010

Poema Zen

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudado para português por Herberto Helder)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

"Portugal", de Jorge Sousa Braga (em tempos de crise)

Poema de Jorge Sousa Braga dito por Miguel Borges (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Há nomes que ficam", de Pedro Mexia

Há nomes que ficam, sem préstimo, nas agendas,
transitam de ano para ano por inerência
ou desleixo, por vezes o nome próprio
é uma referência obscura, e nunca houve apelido.
Os números, em poucos anos,
passam de mnemónicas a criptogramas,
indicam sem dúvida que nos cruzámos
com gente que se cruza connosco,
que trocámos telefones como se
trocássemos alguma coisa,
mas tudo muda, os conhecidos
tornam-se amigos e depois desconhecidos.
Estes nomes, posso riscá-los
como se fosse velho e eles mortos,
mas os números, como uma praga,
acumulam-se, escritos
com tintas diferentes
e por vezes nas letras erradas.
Não posso desfazer-me das agendas
nem começar uma todos os anos,
mas já não sou o mesmo:
os números observaram as minhas idades
e talvez pudesse agora marcar este
que não me diz nada
e contar tudo
a alguém que não se lembra de mim.

(in Duplo Império)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

"As gavetas", de Pedro Mexia

Com gratidão e admiração, ao Pedro Mexia, por este seu primeiro livro.
Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

(in Duplo Império)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Nascemos para o sono"

Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.

(Poesia mexicana do ciclo Nauatle, in O Bebedor Nocturno; poema mudado para português por Herberto Helder)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dois versos do "Cântico dos Cânticos"

Beije-me ele com os beijos da sua boca.
Amor melhor do que o vinho.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudados para português por Herberto Helder)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"Epigrama", de Bocage

Levando um velho avarento
Uma pedrada n'um olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo doutor, não das dúzias,
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

"Dez moedas! (Diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso."

(in Fábulas de Bocage)

Herberto Helder reeditado

Capa de livros de Herberto Helder (de poemas mudados para português) recentemente reeditado. A edição original data de 1968.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"O macaco declamando", de Bocage

Um mono, vendo-se um dia
Entre brutal multidão,
Dizem que lhe deu na cabeça
Fazer uma pregação.

Creio que seria o tema
Indigno de se tratar,
Mas isto pouco importava,
Porque o ponto era gritar.

Teve mil vivas, mil palmas,
Proferindo à boca cheia
Sentenças de quinze arrobas,
Palavras de légua e meia.

Isto acontece ao Poeta,
Orador e outros que tais:
Néscios o que entendem menos
É o que celebram mais.

(in Fábulas de Bocage)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"Vénus aérea", de Nuno Júdice

É um mistério esta claridade
que nasce de um corpo sem passado,
onde a leio numa língua sem idade,
adivinhando o seu futuro neste fado.

Caem pálpebras num cair de pano,
abrem-se dedos num florir de mão,
no seu jardim a primavera não é engano,
no seu rosal o amor está em botão.

Uma boca de pérola envolve-a de segredo,
e dela tiro um brilho de estrela.
Respiro o seu perfume sem ter medo,

acendo nos seus olhos a última vela.
Levo-a como deusa ao templo do mar,
e vejo-a despir-se como se fosse flutuar.

(in Guia de Conceitos Básicos)

domingo, 17 de outubro de 2010

"Acto de ler", de Teresa M. G. Jardim

O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

(in Jogos Radicais)

domingo, 10 de outubro de 2010

"Crime perfeito", de Teresa M. G. Jardim

O meu gato branco gosta de brincar
com os papéis amachucados
que deito no lixo. Tira-os do caixote
e esconde-os no odor dos ratos, nos vasos
de flores, pelo quintal. Já fiz desaparecer
muitos poemas que não gostava
assim, sem indícios.

(in Jogos Radicais)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

(Pensar é estar doente dos olhos)

David Fonseca from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.


Poema de Alberto Caeiro dito por David Fonseca (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Acalanto", de Paulo Henriques Britto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projectos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com urna ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

(in Macau)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

(Centenário da Republica)

(Tem - indiscutivelmente - os seus defeitos, mas reconheço-lhe várias virtudes. Sou republicano).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Lucidez", de António Manuel Couto Viana

Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E, se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)

(in Ainda Não)

"De vulgari eloquentia", de Paulo Henriques Britto

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.

(in Macau)

domingo, 3 de outubro de 2010

"O lugar do morto", de Tiago Araújo

ao teu lado, no lugar do morto, enquanto
conduzes a conversa a uma frase sem
preparação. chegámos tarde à praia,
como a quase tudo. o vento levanta o
pó do parque de estacionamento e não
saímos do carro. não sei a resposta certa
e por isso represento mal o meu papel secundário.
limito-me a ficar em silêncio, onde
sempre me senti mais confortável.
um lugar sombrio, discreto, abrigado
e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso.

(in Livre Arbítrio)

domingo, 19 de setembro de 2010

"Morada", de Margarida Ferra

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nosso gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

(in Curso Intensivo de Jardinagem)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Duas horas e cinquenta e cinco minutos", de Margarida Ferra

Cumprida a promessa do ano novo,
pousaram-me sobre a barriga
(quase vazia),

dois pés lilases,

grandes e pequeninos.

(in Curso Intensivo de Jardinagem)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

HOJE HÁ CARACÓIS: excertos de poema de Pedro Tamen

O caracol conhece pouco mundo,
mas é colado a ele
que o conhece.

* * *

Só é lento quem vai mais devagar
que aquilo que deseja.

(excertos do poema "Caracóis", in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"O funcionário cansado", de António Ramos Rosa


Adriano Luz - "O Funcionário Cansado" from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.

Poema dito por Adriano Luz (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

"Os livros", de Inês Lourenço

Este "post" é dedicado a Inês Lourenço, que teve a gentileza de nos oferecer o seu último livro e a quem o poemapossivel muito agradece.


Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também

morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância,
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêndios
os destruiram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes, amigos tão antigos e
tão novos.

(in Coisas que nunca)
(ver ainda o blogue da autora: http://logrosconsentidos.blogspot.com)

sábado, 4 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"Para um gato", de Inês Lourenço

Assassinei alguns pardais
mas depois lambia o pêlo
exaustivamente para ser
digno das carícias do dono.

(in Coisas que nunca)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

(Novamente sobre mãos - lembrando-me da tua)

Sei bastante de mãos: falange, falanginha e falangeta,
e o resto estudado.
O rosado das unhas com um brilho
igual ao dos olhos normais.
(Ah, do que as mãos vêem falaremos de outra vez.
E também dos olhos teus, e teus.)
Linhas que não interessam, ou apenas
como à saída de uma grande estação: desconhecidas
quanto ao que prometem.
Carne quanto baste no melhor dos casos.
Veias discretas. Sangue adivinhado.
E os nós: nos promontórios altos
respiram como geysers,
aquecem, lançam setas,
roçam, magoam, contradizem.

Mas é na força que as fecha em concha
e as abre jurando até ao fim do tempo
ou as faz dançarinas pelo ar,
flébeis ou hirtas, aguçadas,
lassas - é no silêncio em que resumem corpos
que gritam ou ciciam o que delas sei.

Pedro Tamen
(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

De Pedro Tamen

Que é isto de silêncio?
Não ouve o marinheiro o mar
e ele ruge. Nem o mar
ouvirá jamais o marinheiro.

Que é isto de silêncio?
O cavador não ouve a cegarrega
nem pressentem ralos e cigarras
o aço da enxada.

Eis o ruído que não é connosco
por de nós ser parte:
- silêncio, pétala arriscada
da flor em tumulto.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"Felinus", de Inês Lourenço

A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.

(in Coisas que nunca)

domingo, 22 de agosto de 2010

(Love Theme)


"Ennio Morricone conduz "Love Theme", da banda sonora por ele composta para "Cinema Paraíso""

sábado, 21 de agosto de 2010

"Sala provisória", de Inês Lourenço

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

(in Coisas que nunca)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"Na noite de Madrid", de Ruy Belo

Na noite de Madrid eu vi um homem morto
Jazia ali como uma afronta para os vivos
que voltavam dos bares com música nos olhos
com estrelas na testa e festa nos ouvidos
e passavam de táxi a boa velocidade
Há quanto tempo o homem jazeria ali
à superfície escura do asfalto
já meio devolvido à terra nossa mãe?
Não o cobria o manto dos heróis
nenhum clarim tocara em sua honra
Como o confortaria a santa madre igreja?
Tombara apenas imolado ao dia-a-dia
Pagara com a vida a paz da consciência
de toda uma cidade que dormia
E ele crescia alastrava na estrada
e assumia inesperadas proporções
quando há bem pouco ainda se reduzia ao dia
Quem seria? Quem fora?
Que jornal conteria a imensidão do nome
de quem como um insulto ali jazia?
Que pensamentos próximos tivera?
E o que levaria ele nos bolsos?
Donde viria? Sorriria? Onde ia?
Fora criança? Sonharia ser feliz?
Mudaria de vida na manhã seguinte?
Brincara alguma vez naquela mesma rua?
Fora criança ali onde profundamente o vi?
Teria soluções para problemas que tivesse?
Seria porventura um bom chefe de família?
Disporia da consideração da vizinhança?
Era bom funcionário? Homem de futuro?
Mas já naquele momento o rosto lhe cobriam
pois não conseguiria ver nem as estrelas
nem ao menos a luz dos citadinos candeeiros
Havia curiosos e polícia havia uma ambulância inútil
para quem como cama só teria a pedra fria
«Aonde vai?» - perguntou-me o homem do táxi
«- Eu tenho cinco mil pesetas - respondi-lhe
Leve-me pelas ruas da cidade até nascer o sol
talvez ele possa dizer-me alguma coisa
daquelas muitas coisas que gostava de saber
(o sol é hoje uma das minhas poucas soluções)
Passe longe do corpo por favor»
Lembrei-me de leituras soterradas
de súbito subiram-me à memória cenas esquecidas
Samaritano eu? Mais um levita
que calmo procurava a promessa do dia
Inquietação ou pena? Sombra de metafísica?
Política? Moral? Lição? Comportamento?
Queria alguma coisa? Não sabia
Posso-vos garantir que não sabia
Só sabia que olhava e nenhum mar havia

(in Todos os Poemas, vol. III)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

(Pensando num epitáfio)

(Há uns dias atrás, pensava com os meus botões - eram principalmente os botões a pensar, devo admitir - num epitáfio adequado ao poemapossivel. Desenhei vários dentro do pensamento - uns curtos, outros algo mais que curtos, uns calorosos, e outros frios como mármore de cemitério - sei bem que a imagem é banal, mas não quero escamotear a minha própria banalidade. A morte do poemapossivel? Julgo que não é isso que pretendo - pelo menos para já. Mas, às vezes, por ser cada vez menos o vagar para o continuar, ou por sentir que este espaço é excessivamente inócuo, penso no seu fim. "O poema deixou de ser possível"? Ainda não, ao que parece.)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Soneto amoroso", de Francisco Quevedo

__Pássaro mais sozinho, à dor atreito,
onde se viu, nem fera em monte ou prado?
Deserto estou de mim, abandonado
por minha alma, em lástima desfeito.
__Chorarei sempre meu maior proveito;
mágoas serão e fel o pão tragado;
a noite anseio, o repouso cuidado,
e duro campo de batalha o leito.
__Face da morte, o sono me perverte
e vence em mim a morte em aspereza,
pois que me impede o sumo bem de ver-te.
__Que tanto é teu fulgor, tua beleza:
se a Natureza assim pôde fazer-te,
milagres fazer pode a Natureza.

(in Antologia Poética)

(Contrabaixo)


Dave Holland intepretando "Mr. PC", de John Coltrane

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"Verdes são os campos", de Luís de Camões

Para a AJ

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"Desenganado da aparência exterior com o exame interior e verdadeiro", de Francisco Quevedo

__Vês tu este gigante corpulento
que solene e soberbo se reclina?
Pois por dentro é farrapos e faxina,
e é um carregador seu fundamento.
__Com sua alma vive e é movimento,
e onde ele quer sua grandeza inclina;
mas quem seu modo rígido examina
despreza tal figura e ornamento.
__São assim as grandezas aparentes
da presunção vazia dos tiranos:
fantásticas escórias eminentes.
__vês que, em púrpura ardendo, são humanos?
As mãos com pedrarias são diferentes?
Pois dentro nojo são, terra e gusanos.

(in Antologia Poética; trad. José Bento)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Quatro versos de Ruy Belo

Eu nunca estive em roma e muito menos hoje
onde pressinto estar porque cá estou
mas donde nunca estive tão ausente
pois donde estou mais longe é sempre donde estou

(versos do poema "A sombra o sol", in Todos os Poemas, vol. III)

domingo, 1 de agosto de 2010

(Às vezes)

(Às vezes, tropeçamos; ou acordamos agitados com a suspeita de um sonho menos bom; temos sustos da manhã para a noite; receamos mil desfechos negativos; em suma, sentimos medo; e relembramos a nossa insignificância. Perguntamo-nos: ainda haverá poesia?)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Excerto de poema de Vinicius de Moraes

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

(versos do poema "A bomba atômica", II, in Antologia Poética)

"Ovelhas na névoa", de Sylvia Plath

As colinas penetram na brancura.
Homens ou estrelas
olham-me com tristeza, desiludo-os.

O comboio deixa um rastro do seu alento.
Oh vagaroso
cavalo da cor da ferrugem.

Cascos, dolorosos sinos...
Toda a manhã
a manhã obscureceu

uma flor abandonada.
Os meus ossos absorvem a quietude, longínquos
campos enternecem o meu coração.

Ameaçam
levar-me para um céu
sem estrelas e sem pai: uma água negra.

(in Pela Água; trad. Maria de Lourdes Guimarães)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Hoje, apenas um verso de Nuno Júdice

Um hálito de nuvens empurra-me para agosto.

(verso do poema "Estilo", in Poesia Reunida, 1967-2000)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

"Epitáfio", de Vinicius de Moraes

Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possui a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.

(in Antologia Poética)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dois poemas curtos de Adília Lopes

Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

* * *

Degrau a degrau
verso a verso
o poema
a escada

(in Dobra. Poesia Reunida)

sábado, 17 de julho de 2010

"Génese", de Nuno Júdice

Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

"Zoologia: o tigre", de Nuno Júdice

Há tigres doentes na melancolia dos poentes,
com furores cinzentos nos movimentos lentos;
breves brilhos na eternidade de dorsos leves
chamam chamas nas escamas do chão, nas lamas

profundas de olheiras vagabundas num rosto
de visão - o mosto de passos em pedaços, cansaços
de lamento no vento que resta de um floresta
em fogo: rogo que não dura de escura sepultura.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Versos de Adília Lopes

Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu

(in Dobra. Poesia Reunida)

domingo, 20 de junho de 2010

(Knives Out)


Brad Mehldau Trio interpretando "Knives Out" (dos Radiohead), no Festival de Jazz Vitoria-Gasteiz, em 2006 (Brad Mehldau - piano; Larry Grenadier - contrabaixo; Jeff Ballard - bateria)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

In memoriam


(Hoje faleceu o nosso Nobel, e o poemapossivel não quis deixar de lhe prestar homenagem. Ainda que não sendo o maior dos admiradores da obra poética deste autor, é impossível olvidar que o nome deste blogue repete o título de um dos seus livros.)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Poema de Adília Lopes

Mordiscas-me os lábios
cão pássaro rapaz
(não quero que te vás embora
e sei que vais ter que te ir embora)
quero dormir contigo
com a tua mão
sobre o meu coração
para que saibas
os meus segredos
beliscas-me ao de leve
eu sei que não é um sonho
mas é como um sonho
para mim

(in Dobra. Poesia Reunida)

terça-feira, 8 de junho de 2010

"Principio de certidumbre/Princípio de certeza", de José Manuel Díez

Llegaré con los versos, y no harán falta versos.
Llegaré con las rosas, y no harán falta rosas.
Llegaré con la música, y no hará falta música.

Sin embargo sostengo la radiante certeza
de que alguien me espera.

Um día, llegaré.

* * *

Chegarei com os versos, e não farão falta versos.
Chegarei com as rosas, e não farão falta rosas.
Chegarei com a música, e não fará falta música.

No entanto sustento a radiante certeza
de que alguém me espera.

Um dia, chegarei.

(in "Baluerna - Cuadernos del Viajero", n.º 36; trad. Eduardo Fonseca dos Santos)

domingo, 6 de junho de 2010

"La alegría, la ausencia/A alegria, a ausência", de José Manuel Díez

Nunca fue la alegría
mayor que entre tus brazos.
Ni mayor fue la ausencia que sin ellos.

* * *

Nunca foi a alegria
maior que entre os teus braços.
Nem maior a ausência do que sem eles.

(in "Baluerna - Cuadernos del Viajero", n.º 36; trad. Eduardo Fonseca dos Santos)

domingo, 30 de maio de 2010

(Um pouco de prosa)

Os cavalos corriam agora para escapar à nuvem de moscas que cercava o acampamento, zumbindo em frenezi sobre as montanhas de excrementos.
- Ainda o esterco de muitos bravos cavaleiros continua espalhado pela terra - observou Curzio - e já as suas almas se encontram no céu...

Italo Calvino
(O Visconde Cortado ao Meio)

terça-feira, 18 de maio de 2010

(Álbum de fotografias)

(Percorri vezes sem conta as fotografias do nosso álbum. Já não o abria há algum tempo... Seca, entre as páginas, repousava a pétala de uma flor que colhi para te enfeitar os cabelos. Detive-me em cada imagem: naquela em que, sorrindo, olhas o fotógrafo ostentando essa flor, e na outra em que o castelo, as árvores e o relvado, dispostos atrás de ti, não parecem ser reais, mas antes parte de um cenário teatral. Nem o sol, lá fora, nem as tarefas pendentes, cá dentro, conseguiram desviar-me desta colecção de imagens; nas páginas que estão por preencher, parei - o que se segue?).

"Um outro tanto", de Maria Teresa Horta

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia

É amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia

Perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de tal jeito que desconhecia

Poder amar-te ainda
um outro tanto

(in Poesia Reunida)

terça-feira, 11 de maio de 2010

"Envenena-me", de Maria Teresa Horta

Aperta-me forte
ao coração
Abraça-me depressa sobre as asas

Debruça-te em mim
e porque não?
Envenena-me de ti porque me salvas

(in Poesia Reunida)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

(Queria ter palavras)

(Queria ter palavras para ti. Palavras que não parecessem fracas. Palavras que te abraçassem. Mas morrem-me na boca, insuficientes. Queria ter palavras. Sabe que tens o meu amor).

terça-feira, 4 de maio de 2010

"Morrer de amor", de Maria Teresa Horta

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

(in Poesia Reunida)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

"Fúrias", de Sophia de Mello Breyner Andresen

(Segundo a mitologia grega, as Fúrias eram três divindades vingadoras que viviam no Inferno, subindo à Terra para perseguir os malvados. Ainda que justas, as Fúrias não atendiam a circunstâncias atenuantes, punindo de forma impiedosa).

Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo

(in Ilhas)

domingo, 25 de abril de 2010

"Os Dias de Verão", de Sophia de Mello Breyner Andresen

(Ansiando pelos dias de Verão)

Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

(in Dual

sexta-feira, 23 de abril de 2010

"Arte Poética", de Adília Lopes

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

(in Dobra. Poesia Reunida)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Poema de José Bento

Abre esse livro, lê outra vez o poema
que tantas vezes leste:
como tu, não é o que foi ontem,
o que perdeste há meses.

A letra que gravou a pulsação
que sustenta essa página
pede que a humanes e ressurjas
com teu sangue a palavra.

(in Alguns Motetos)

"Death in life / Morte em vida", de Alexander Search

Another day is past, and while it past,
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.

I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.

Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?

Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!

* * *

Um dia mais passou e ao passar
Que pensei ou li, que foi criado?
Nada! Outro dia passou desperdiçado!
Cada hora já morta ao despontar!

Nada fiz. O tempo me fugiu
E à beleza nem uma estátua ergui!
Na mente firme nem credo ou sonho vi
E a alma inútil em vão se consumiu.

Então me caberá sempre ficar
Qual grão de areia na praia pousado,
Coisa sujeita ao vento, entregue ao mar?

Ah, esse algo a sofrer e a desejar,
Inda menos que um ser inanimado
Sempre aquém do que podia alcançar!

(in Poesia de Alexander Search)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

sábado, 27 de março de 2010

"Romance", de Pero de Andrade Caminha

Desque me parti de ver-vos
Tenho quanto mal mereço
Pois m'aventurei senhora
A quanto sem vós padeço,
Co que passo e co que sinto
A mi mesmo desconheço
Somente em tristezas vivo
Nenhum prazer já conheço,
Com cuidados sempre acordo
Com cuidados adormeço,
Sonhou cousas espantosas
Nunca quieto amanheço,
com mil medos passo o dia
Com mil medos anouteço,
Acho-me sempre entre tristes
Nunca entre alegres pareço,
Tudo o que me faz mais triste
É ante mim de mor preço,
As mágoas que mais me seguem
Contra mim as favoreço,
O que soía alegrar-me
De todo agora avorreço
Vou-me ò longo d'ũa praia
Porque ali mais m'entristeço
Coas ágoas que m'apartaram
Dos olhos a que odebeço
Em sofrer danos sem fim
A que eles deram começo,
Se quer alguém consolar-me
Logo lhe desapareço,
Quando a saudade mais segue
A mim me desfavoreço,
E o peito todo lhe entrego
Toda a vida lhe ofereço
Por ver se com sua força
De minhas forças faleço,
Mas a morte não me quer
De novo em meus danos creço,
E porque os sinto por vós
Nunca lhes desobedeço,
Ergo a vós os pensamentos
Mas logo deles me deço,
Que entre tantas maravilhas
De todo logo esvaeço,
Co que em mim sinto e em vós vejo
Cuido de mim que endoudeço,
Mas inda que este bem me falta
Inda mal que o desmereço.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

terça-feira, 23 de março de 2010

"«Nunca se sabe»", de Rui Pires Cabral

Papéis velhos com poemas: são o joio
das gavetas. Relê-los causa aversão
e uma espécie de tristeza arrependida -
são tão nossos como as más recordações
e ainda vemos a circunstância precisa,
a causa, a ferida, por detrás de cada um.

Mas na altura havia esperança: é isso
que representam. Não pelas coisas que
dizem - é só descrença e fastio - mas
pela simples razão de termos querido
guardá-los. Com um pouco mais de alento,
de inspiração e trabalho, ainda se endireita
isto. Ou seja, os versos. E até a vida.

(in Resumo - a poesia em 2009)

segunda-feira, 22 de março de 2010

(Para te dizer)

(Neste dia, queria ser original, dizer-te o que tu sabes com as palavras mais bonitas. Pensei deixar esquecida uma maçã nos degraus de tua casa - assim podias morder de novo a primavera como se fosse a primeira; e se depois te falasse em outonos, ou mesmo invernos, sentirias agigantar-se dentro de ti um "I do". Queria ser original; não estando ao meu alcance, procurei ser genuíno.)

sábado, 20 de março de 2010

"A andorinha ou Tudo é relativo", de A. M. Pires Cabral

Da andorinha dificilmente se dirá
que é um animal feroz. Pelo contrário,
convém-lhe adjectivos como grácil.

Mas a grácil andorinha abre
para o mosquito uma boca aterradora.

(in Resumo - a poesia em 2009)

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Quando pela noite chegas dissolvem-se as trevas", de Ana Marques Gastão

Quando pela noite chegas dissolvem-se as trevas
e eu partir não quero, porque esta é a noite
que ilumina o dia, canto do silêncio, eco subtil
no discurso do mundo. Quando pela noite chegas
é meu o teu amor, e a morte tarde doce como mel.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

quarta-feira, 10 de março de 2010

"Sono de Primavera", de Jorge Sousa Braga

(A Primavera chega no dia vinte e um - ou vinte e dois, depende da perspectiva).

Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

terça-feira, 9 de março de 2010

"Um caranguejo tinha a mania", de Helder Moura Pereira

Um caranguejo tinha a mania
que era escritor. Escreves porquê?
Para pôr um arco de oiro
na minha vida breve. Falava,
como se vê, a linguagem
dos caranguejos. Para passar o tempo
que falta até vir a maré alta, para
proteger do sal as trevas
e combinar as luzes do sol
com as luzes da água, para deixar
gravado no ar o ar apertado
entre duas tenazes, para iluminar
o canto do meu andar viciado.

(in Os Poemas do Coelho Ramon)

domingo, 7 de março de 2010

E ainda outro poema de Maria Ângela Alvim

Estar ser auxílio. Pensa
só estar sem movimento
de amor, de medo, querença.

E ficar, deixando o espaço
de lembrança, alheamento
de mim, entre idéia e passo.

E durar, quase num sonho
de si mesmo descoberto
conter-me no meu tamanho
de ser tudo e ser deserto.

Permanecer - e me oponho
no tempo, domínio incerto.
Espero? Não. Ah!, que estranho
estar sonhando tão perto.

(in Superfície, Toda Poesia)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Outro poema de Maria Ângela Alvim

Esta idéia que pretendo
me afirma, quando me vem,
na mentira de que sendo
serei mais de que ninguém.

Meu ser móbil, despiciendo,
não encontro em mal ou bem,
mas no que fui, sempre sendo,
mais do que sou, sendo alguém.

Assim o tempo me trai
as horas que vou colhendo
em passado subtrai.

Que resta da vida, ao fim,
de extinguir-se me perdendo
na ilusão que há de mim?

(in Superfície, Toda Poesia)

(Um pouco de Música Antiga)


Jordi Savall & Hespèrion XXI interpretando "Pavana & Gallarda", de Inozzenzo Alberti (1535-1615)

terça-feira, 2 de março de 2010

"As casas vieram de noite", de Luiza Neto Jorge

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

(in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância; org. José Fanha e José Jorge Letria)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"Paráfrase", de Pedro Mexia

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Corpos", de José Jorge Frade

Teu corpo é arco
na ponta dos meus dedos
três leves polpas
na flor da minha mão
com que inflamo a manhã
no teu ventre.

mergulhado
nos teus braços
envolto em lábios,
em perfume.

em beijos,
na água do teu pescoço
brando de rosas
nos picos doces
no peito leve.

Quando somos amor
nossos corpos são arcos

(in Efémeros Vestígios)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dois versos de Maria Ângela Alvim

("Um poema podem ser dois versos")

Beijaram-me o rosto asas de borboleta
e se tingiram das cores do ocaso.

(in Superfície, Toda Poesia)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quadra de Maria Ângela Alvim

Os finos dedos do vento
contaram os meus cabelos.
Meu corpo é o violino
nos leves dedos do vento.

(in Superfície, Toda Poesia)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Poema de Helder Moura Pereira

Triste como a arvore abandonada,
deixada ali numa praça, sem chuva
e sem resguardo, toda mijada
de cães magros e molhados.
Triste é o dia e triste é a tarde
e triste estava, pobre de si, coitado.
Não sabia porquê, eram dias
e tardes inteiras, noites.
Já se sonhara numa coluna
de soldados, já se vira um cobarde
num convento, ladrão - e louco.
Se lhe diziam a verdade fazia-se
mouco. Ou morto, árvore
que teve os seus dias e caiu.

(in Um Raio de Sol)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"Poema da oferta e da procura", de José Jorge Frade

(Num interstício do trabalho - que ameaça prolongar-se noite dentro -, a frágil claridade de um poema).

poesia
é inutilidade
imaterialidade pura

preciosa pedra
em todos os mercados perseguida

pontiaguda ou polida,
oferta sempre negada
a cada poeta que a procura

(in Efémeros Verstígios)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

(A little bit blue)


Chet Baker interpretando "Time after time"

"Amor como em casa", de Manuel António Pina

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo precorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Outro poema de Sandro Penna

Feliz quem é diferente
e é diferente.
Mas ai de quem é diferente
e é igual.

(in No Brando Rumor da Vida; trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Poema de Sandro Penna

O mar está todo azul.
O mar está todo calmo.
No coração há quase um grito
de alegria. E tudo está calmo.

(in No Brando Rumor da Vida; trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"Máscaras", Gerrit Komrij

O homem com a máscara brincando
Até chegar a hora em que o seu rosto
Partilhava com ela uma só vida:
Já miúdo a história me punha indisposto.

Negava-me a aceitar. Quando crescesse,
Ia mostrar que outra maneira havia:
Que cada máscara, sem dor ou risco,
Como um capuz tirar-se podia.

Fiz disso muito tempo um firme credo.
Escondi, confiante, a minha natureza.
Extinto o fulgor do jogo que eu fazia,
Teria ela a original pureza.

Hoje sou velho, só para admitir:
A história é real. A máscara agarrou-se´.
É como habituares-te ao inferno.
Como se olhar vazia cova fosse.

(in Contrabando, uma antologia poética; trad. Fernando Venâncio)

"Poema", de Gerrit Komrij

O primeiro verso é para começar,
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.

O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos mais de um terço.
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriíssimo. Ou o inverso.

O nono conta o mesmo por inteiro.
O décimo é, se calha, desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro.
O duodécimo é de nada a conclusão.

(in Contrabando, uma antologia poética; trad. Fernando Venâncio)