terça-feira, 29 de abril de 2014

"Balanço e contas", de Luís Filipe Castro Mendes

Para acabar o dia
o poema perfila-se, como um auditor de contas,
e obriga-nos a olhar o (pouco) que hoje fomos.

Nada representamos. Não damos lucro.
Os mercados ignoram a poesia
e os editores toleram-nos por enquanto,
como um luxo secreto ou fantasia.

Mas que fomos nós hoje, na verdade?
Que vimos, que experiências transformámos
em dura consciência, que coisas do dia-a-dia
convertemos no ouro puro da poesia?

(Nenhum deus nos poderá salvar, é certo,
mas também
ninguém nos liga nos mercados...)

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

sábado, 26 de abril de 2014

"Jornal da noite", de Luís Filipe Castro Mendes

Já a cinza em chuva figurada
me veio encher o verso e a nostalgia
de olhar pelas janelas desta casa
e abarcar ainda menos nossa vida.

O tempo fez de chumbo a cinza fria.
Mas a esperança estará nalgum lugar.
As notícias não dão margens de alegria,
mas a vida resiste sem pensar.

Olhemo-nos por dentro na certeza
que teu olhar vai perto da beleza.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

[Ver], de António Ramos Rosa

Ver
e já não ver
ao rés do solo
ao rés da página

O fulgurante espaço
de um instante
e o sulco que inscrevo e desaparece
e logo esqueço na brancura

Mas é preciso acabar a frase
saudando com as antenas de um insecto
o vento que na folha cintila
vindo do nada pontiagudo esparso
com todo o amor do ar vazio

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

terça-feira, 22 de abril de 2014

"A Recoleta", de Jorge Luis Borges

Convencidos da caducidade
por tantas nobres certezas do pó,
demoramo-nos e baixamos a voz
entre as lentas filas de panteões
cuja retórica de mármore e de sombra
promete ou antecipa a desejável
dignidade de ter morrido.
Belos são os sepulcros,
o despido latim e as firmes datas fatais,
a conjunção do mármore e da flor
e as pracetas com frescura de pátios
e os muitos ontens da história
hoje parada e única.
Enganamos essa paz com a morte,
cremos ansiar pelo nosso fim
e ansiamos pelo sonho, a indiferença.
Vibrante nas espadas, na paixão,
adormecida na hera,
somente a vida existe.
O espaço e o tempo são as suas formas,
são instrumentos mágicos da alma,
e quando ela se apagar,
vão consigo apagar-se o espaço, o tempo e a morte,
como ao cessar a luz
caduca o simulacro dos espelhos
que a tarde já foi apagando.
Sombra benigna das árvores,
vento com aves, que nos ramos ondeia,
alma que se dispersa noutras almas,
seria um milagre se deixassem de ser,
milagre incompreensível,
mesmo que a sua imaginária repetição
avilte com horror os nossos dias.
Tudo isto pensei na Recoleta,
lugar das minhas cinzas.

(in Obra Poética - Vol. 1; ed. Quetzal, 2012; trad. Fernando Pinto do Amaral)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

"Je rentre à la maison", de Luís Filipe Castro Mendes

Todos os lugares me são ausência,
por isso nunca posso regressar.

Queria só escutar essa cadência
que as palavras nos tecem ao falar.

E talvez alguém tenha paciência
para ler o que escrevo se voltar.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

"Para quê poetas em tempo de indigência?", de Luís Filipe Castro Mendes

Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe mais as flores do mal nem a luz  radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.
(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

[Insiro o rosto], de António Ramos Rosa

Insiro o rosto
entre os ramos de um arbusto
e bebo a delicada fábula
dos fulgores solares

Consumi toda a minha fragilidade verde

Dormi como uma folha
de braços abertos
e passo a passo
subi ao cimo do dia

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

sábado, 5 de abril de 2014

"Anunciação", de Luís Filipe Castro Mendes

Não fujo ao poema.
Espero-o com a alegria de quem caminha
sobre brasas e destroços
e dele espero a música, toda a música
que não sei dar nem receber.

Antes de fechar as contas, digo eu,
espero o poema
como um riso atrás da cortina
da vida.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

quinta-feira, 3 de abril de 2014

"Algumas coisas", de Manuel António Pina

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)

terça-feira, 1 de abril de 2014

[Olhe, preciso de dinheiro], de Golgona Anghel

Olhe, preciso de dinheiro.
Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio.
Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões.
Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.
A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas.
Já não tenho paciência.
Com esta idade, já viu o que é.
Sujeitar-se a todos os labregos.
Já tentei noutros bancos, sim.
Pedi também aos meus pais, é verdade;
disse-lhes que era para me casar.
Não, não tenho casa, nem automóvel.
Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo.
O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado.
É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal,
mas anda a mil.
E adiantado, não pode pagar nada como entrada?
Entrada, não sei.
Só se for o coração.

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

segunda-feira, 31 de março de 2014

"Regresso", de Luís Filipe Castro Mendes

Voltar à poesia, esse caminho estreito
entre a solidão e a vida,
esse jardim onde as flores
crescem para dentro de si próprias,
esse destino sem lugar no mapa.

Voltar à poesia, porque mais nada
cresceu entretanto,
nem palavras nem coisas.

Adivinhávamos promessas no terror dos tempos
e continuámos a andar como se houvesse caminho.
Voltar à poesia, a esta distância sem rumo nem projecto,
voltar à poesia para estar mais longe
do que sou.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

sábado, 29 de março de 2014

[Escolhi a terra para dormir], de António Ramos Rosa

Escolhi a terra para dormir
húmida vermelha dura
nunca formei uma palavra
nunca encontrei a saída

Estou vivo ou estarei morto
ou estarei mais além aberto
entre as constelações salubres
de uma gruta de veias vivas

Já sem andaimes o poema
dilacerado como um nervo
há-se acolher ao rés do solo
um ramo quebrado um formiga
a baba de um caracol

A palavra que nunca foi dita
não será flecha mas ferida feliz
entre os dois pólos do arco
que une o desejo ao silêncio da lua

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

sexta-feira, 28 de março de 2014

"Auto-retrato", de António Barahona

Apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos.

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

terça-feira, 25 de março de 2014

(Um livro indispensável)

(É sempre com alguma expetativa que aguardo a edição anual, disponibilizada pontualmente no Dia Mundial da Poesia, da coletânea poética Resumo, apoiada por uma cadeia de lojas. Este ano, o volume reúne poemas selecionados por José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas. Uma ausência de vulto, porém, existe - por falta de autorização do autor -: não estão incluídos quaisquer poemas do último, muito aclamado e esgotadíssimo livro de Herberto Hélder...)

sexta-feira, 21 de março de 2014

[O meu olhar é nítido como um girassol], de Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que teria uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a grande novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a inocência,
E toda a inocência é não pensar...

(in Poesia dos Outros Eus; ed. Assírio & Alvim)