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domingo, 16 de fevereiro de 2014

[A vastidão do mundo], de José Tolentino Mendonça

A vastidão do mundo
para o peregrino
não é mais do que um quarto vazio

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

[Todo o inverno], de José Tolentino Mendonça

Todo o inverno
o solitário bambu
mediu forças com o vento

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

[Tudo é efémero], de José Tolentino Mendonça

Tudo é efémero:
ontem escutava a tua voz
hoje só o vento

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

(Um par de haikus, de José Tolentino Mendonça)

Quando se extinguiu
o vermelho da papoila
o jardim ficou vazio

* * *

No ramo do marmeleiro
descubro nuvens
que não havia visto

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

[Em Deus tudo se assemelha], de José Tolentino Mendonça

Em Deus tudo se assemelha:
a tua prece e o canto
da rã

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

[Depois de uma tarde a tratar do jardim], de José Tolentino Mendonça

Depois de uma tarde a tratar do jardim
a nossa vida
importa menos

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

(Mais dois haikus de José Tolentino Mendonça)

Os que se assemelham a nada
assemelham-se
a Deus

* * *

Nas mãos do oleiro
o universo descobre-se
inacabado

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

(Dois haikus de José Tolentino Mendonça)

Podes interrogar a papoila
mas a papoila
nada responde

* * *

O silêncio
não é o oposto
mas o avesso

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

[Silêncio], José Tolentino Mendonça

Silêncio:
contemplar a neve
até confundir-se com ela

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

[O silêncio só raramente é vazio], de José Tolentino Mendonça

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

domingo, 4 de novembro de 2012

(Objetos [utópicos] de desejo)

(E além destes três exemplos - os Diários, de Al Berto, Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade, de José Tolentino Mendonça, e A Civilização do Espetáculo, de Mário Vargas Llosa -, ainda vimos por aí (e desejamos, infelizmente sem a possibilidade de os trazer para casa) a poesia reunida de Vasco Graça Moura (dois volumes), de Maria do Rosário Pedreira (com inéditos) e de João Luís Barreto Guimarães. Houvesse possibilidade, trataria de arranjar um bom lugar para os acolher e o tempo necessário para os desfrutar...)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

"Do poema como contrato social", de José Tolentino Mendonça

Comércio bilingue, o poema precisa da troca,
sobretudo se inútil,
da espontaneidade de poucos, dessa ideia de passagem,
de derrocadas e do silêncio que lhes sucede,
precisa de descendências particularmente radicais
do relâmpago ou de um absurdo ainda maior
para se tornar próximo

O poema é conversa humana
palavra que recuperamos
ao abandonar

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

"O mapa", de José Tolentino Mendonça

aprendido num salmo sufi

Para os teus discípulos não há heresia
nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
a verdade que vem de ti

Insista o herético na sua heresia
e o ortodoxo na sua ortodoxia

O teu fiel é mercador de perfumes
em busca da essência de rosas
do amor divino
eu deambulo

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"A ciência do amor", de José Tolentino Mendonça


O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam

(in Estação Central; ed. Assírio &; Alvim, 2012)

sábado, 20 de outubro de 2012

"Os justos", de José Tolentino Mendonça

Começam o dia louvando o imperfeito:
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho

Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio

Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"Isto é o meu corpo", de José Tolentino Mendonça

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

terça-feira, 17 de março de 2009

"O poema", de José Tolentino Mendonça

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

(in A Noite Abre Meus Olhos)

quinta-feira, 12 de março de 2009

"A estrada branca", de José Tolentino Mendonça

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

(in A Noite Abre Meus Olhos)