Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Quevedo (1580-1645). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Quevedo (1580-1645). Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Soneto amoroso", de Francisco Quevedo

__Pássaro mais sozinho, à dor atreito,
onde se viu, nem fera em monte ou prado?
Deserto estou de mim, abandonado
por minha alma, em lástima desfeito.
__Chorarei sempre meu maior proveito;
mágoas serão e fel o pão tragado;
a noite anseio, o repouso cuidado,
e duro campo de batalha o leito.
__Face da morte, o sono me perverte
e vence em mim a morte em aspereza,
pois que me impede o sumo bem de ver-te.
__Que tanto é teu fulgor, tua beleza:
se a Natureza assim pôde fazer-te,
milagres fazer pode a Natureza.

(in Antologia Poética)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"Desenganado da aparência exterior com o exame interior e verdadeiro", de Francisco Quevedo

__Vês tu este gigante corpulento
que solene e soberbo se reclina?
Pois por dentro é farrapos e faxina,
e é um carregador seu fundamento.
__Com sua alma vive e é movimento,
e onde ele quer sua grandeza inclina;
mas quem seu modo rígido examina
despreza tal figura e ornamento.
__São assim as grandezas aparentes
da presunção vazia dos tiranos:
fantásticas escórias eminentes.
__vês que, em púrpura ardendo, são humanos?
As mãos com pedrarias são diferentes?
Pois dentro nojo são, terra e gusanos.

(in Antologia Poética; trad. José Bento)