Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Echevarría (1929-). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Echevarría (1929-). Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Dois versos de Fernando Echevarría

Que ler é umbral de entrarmos no esquecido
que o gesto lento de folhear acorda.

(versos do poema "Livro", in Obra Inacabada; ed. Afrontamento, 2006)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Poema de Fernando Echevarría

Cada dia nos dê o nosso pão
e comê-lo nos abra aquela casa
de inteligência e coração
onde sentar-se é mesa rasa

de ver quantos não estão
sentados nessa casa.
E comer se ilumina, e abre-se portão,
ou qualquer coisa de brasa

entra no movimento e na palavra,
como se cada gesto e cada som
fosse uma leitura que se abra

dentro da história de não haver senão
a de estarmos à mesa da palavra,
transparentes, à luz de se partir o pão.

(in Obra Inacabada; Afrontamento, 2006)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

"No mesmo sítio, a pedra", de Fernando Echevarría

No mesmo sítio, a pedra
perde o lugar.
E fica
à brisa, devagar,
e ao desamparo.
Mas quando a sombra passa nos teus lábios
a ordem volta rigorosa. A pedra
regressa funda a si.
E um rio corre
o movimento e o rumor da terra.

(in Obra Inacabada)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Soneto "Descalça de viver, andava sempre", de Fernando Echevarría

Descalça de viver, andava sempre.
Enchia a rua quando não passava.
Mas, se passava, desfazia o tempo
e apagava a rua, os homens e as lágrimas.

Nem ela própria já vivia dentro
de si. A roupa que levava
tinha uma cor de triste e pensamento
que não se sente e não se vê. E nada

dela se via que não fosse um vento.
Nem um silvo ou perfume a denunciava.
Sabia-se, de certo, que vivia

porque o dia, a certas horas se quedava
pronto, parado, como não sendo dia.
Ela, descalça de viver, passava...

(in Obra Inacabada)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"Cisne", de Fernando Echevarría

Vem dos olhos de Deus. Espuma
e exemplo vivo de nave.
Só levemente o perfuma
a forma de neve e ave.
Devagar abre-lhe o lago
o coração. E ao afago
de tanta beleza pura,
ergue-se tanta alegria
que se ignora se o que dura
é a luz do cisne ou é dia.

(in Obra Inacabada)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Abraço", de Fernando Echevarría

A muitos mares de mim
estás tu. Estás a dois passos.
Muralhas. Ferros. Tem fim
a música dos meus braços?
Nó. A morte vem aí.
Entras por mim, eu por ti
à força do amor. Já só
o exemplo e a luz do espaço.
Apertámos tanto o nó
que fomos além do abraço.

(in Obra Inacabada)