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sexta-feira, 12 de julho de 2013

[De que outro amor então, amor, me falas], de Vergílio Alberto Vieira

De que outro amor então, amor, me falas
Quando tanto querer me desobriga
De querer-te, de querer-te, e tu te calas
Nesse jeito de outra vez ser rapariga?

Com que luz calma, amor, assim me embalas
E me cegas de paixão, amante, amiga,
De paixão, tal a escusa de esfolhá-las,
Rosas de inverno, ou só canção antiga?

Que o não saiba a noite que aí vem,
Pé ante pé como a sombra do caminho,
À hora em que ninguém vai a passar.

Que o não saiba eu, amor que a morte tem
Pressa, e arte de matar, devagarinho,
Quem ao partir, à noite, quer ficar.

(in Crescente Branco; ed. Campo das Letras, 2004)

sábado, 6 de julho de 2013

[Ainda não é noite, e já pelas ruas], de Vergílio Alberto Vieira

Ainda não é noite, e já pelas ruas
Descobre, o casario, um céu de águas paradas.
Pelos estendais de lassas cordas nuas
Batem peças de roupa nas fachadas.

No interior dos pátios, vozes cruas
Agitam sombras mortas, assustadas,
De velhos, cães, crianças, gatos, luas,
Mal dormidos por saguões, desvãos, escadas.

Com o passar das horas, os mais decididos
Escalam a cidade, procuram, perdidos,
Que por benfeitoria não lhes falte sorte.

Queira Deus que a vida, ao balcão de um bar,
Num golpe de mestre os leve a escapar
À navalha de aço e, por engano, à morte.

(in Crescente Branco; ed. Campo das Letras, 2004)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

[O sol he grande, caem co a calma as aves], de Vergílio Alberto Vieira

O sol he grande, caem co a calma as aves*
Pelo espaço, lentas, vagas sobre a hora,
Vão na acalmia branca da demora,
Ao fim do dia, calmas, ternas, graves.

No vento passam, leves, e suaves,
Brancas como o tempo, pela tarde fora,
Caem co a calma as aves, logo agora
Ao fim do dia, calmas, ternas, graves.

Ainda à distância, esquece-as o céu
Pelo horizonte onde esperam ir ter
Levadas como sonhos brancos, breves.

Quando da noite cair o negro véu,
Hão-de saber então que vão morrer
No fim do dia, calmas, brancas, leves.

* Verso de Francisco Sá de Miranda.

(in Crescente Branco; ed. Campo das Letras, 2004)