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quinta-feira, 5 de março de 2015

[Meu coração partiu-se em quatro partes], de Luís Adriano Carlos

Meu coração partiu-se em quatro partes,
de acordo com as regras da ciência,
ficou a dor comigo, fico assim,
tudo me falta agora, o doce tom
dessa paixão ardente, as queimaduras
da alma. E nem sequer se despediu,
a negra dor me condenou. Ainda
não deixei de chorar meu coração,
que em quatro partes se partiu inteiro,
e já não posso amar a minha dama.

(in Invenção do Problema; ed. Quasi, 2ª ed., 2006)

segunda-feira, 2 de março de 2015

[Escrever o problema com mestria], de Luís Adriano Carlos

Escrever o problema com mestria
de gran compositor, e em figura
de confluir o excesso na experiência.
Depois que ao ritmo se comova o gesto,
a falta de um lugar por harmonia
exígua nos pedaços da estrutura.
Deste saber se faz uma ciência
lírica em cada nó, em cada resto
do problema: figura analisável
ao centro da engrenagem no papel.

(in Invenção do Problema; ed. Quasi, 2ª ed., 2006)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

[A sabedoria é um dom de quem na tem], de Luís Adriano Carlos

A sabedoria é um dom de quem na tem.
Muitas maneiras há porém de a ter
e de a não ter: conforme os homens sejam
a ela dados ou furtados; con-
forme administrem o seu uso recto
entre os pares; conforme saber saibam,
e mais do que se aduz ainda. Tudo
se faz conforme para soluçar
o problema: de em nós haver o sábio
que outros deixam de ter, por nosso bem.

(in Invenção do Problema; ed. Quasi, 2ª ed., 2006)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

[Delimitados somos pelos deuses], de Luís Adriano Carlos

Delimitados somos pelos deuses,
nesta figura breve de escrever
o traço em que buscamos infinito.
Assim seremos tudo, apenas tudo,
e o quanto imaginarmos no poema,
lábio fendido que se cava em céu,
de coração aberto ao pensamento.
E ainda a confluência determina,
delimitada a forma da figura,
que tudo recomece até ao fim.

(in Invenção do Problema; ed. Quasi, 2ª ed., 2006)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

[No corpo esvoaçam as ideias], de Luís Adriano Carlos

No corpo esvoaçam as ideias,
como se fossem pássaros perdidos.
Não se vêem as asas nem os vultos
inumeráveis no trajecto, só
as formas que desenham, geométricas
aparições mentais, e a ilusão
das aves que, perdidas, se parecem
a conjuntos de ideias. Da miragem
em tensas conversões, o corpo emana
abstracta figura, erecta e fria.

(in Invenção do Problema; ed. Quasi, 2ª ed., 2006)

sábado, 22 de novembro de 2014

[No cerne do planeta brilha o nome], de Luís Adriano Carlos

No cerne do planeta brilha o nome
de antiga deusa e a mensagem, luz
para se olhar e ver em seus sinais
visíveis e invisíveis. A ciência
procura conhecê-la, e o problema
é esse mesmo. Quanto à arte, não
a desconhece, porque se a inventou,
antiga imagem, densa em sua luz
perene. Olhemos o planeta, a Obra
em seu puro limiar, as reentrâncias.

(in Invenção do Problema; ed. Quasi, 2ª ed., 2006)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

[Resolve-se a equação conforme o vento], de Luís Adriano Carlos

Resolve-se a equação conforme o vento,
na direcção que o conduzir. Resolve-se
apenas tudo deste modo simples,
sem sobressalto algum, por aparência.
Livre de fórmulas, o pesquisador
a si mesmo se faz a descoberta;
institui o problema, raciocina
em ritmos vários, por opção e dor:
atinge a conclusão em mortal centro,
evaporado código, repente.

(in Invenção do Problema; ed. Quasi, 2ª ed., 2006)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

[De invenção, de problemas e de afins], de Luís Adriano Carlos

De invenção, de problemas e de afins
vos dirá este livro em quanto seja
de seu alcance humano. Ilimitado
é o nobre tema que ao autor um dia
houve o azar de cair-lhe em pensamento.
Por isso menos do que mais dirá
sobre a matéria. Quem, por esperteza,
sorte, especialidade ou vocação,
chegar onde o autor não foi - chegou.
Nada revele até que a morte o leve.

(in Invenção do Problema; ed. Quasi, 2ª ed., 2006)