Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Filipe Castro Mendes (1950-). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Filipe Castro Mendes (1950-). Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de julho de 2014

"A misericórdia dos mercados", de Luís Filipe Castro Mendes

Nós vivemos da misericórdia dos mercados.
Não fazemos falta.
O capital regula-se a si próprio e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os mercados são simultaneamente o criador e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

"Os dias seguem-se aos dias", de Luís Filipe Castro Mendes

Cada dia contém uma nova ameaça,
por isso a nossa vida nunca está imóvel.
Mexes os braços durante a noite, quase acordas,
mas deixo-te respirar, sossega agora.
O dia vai trazer a sua carga de penas,
de culpas, de indefinidas faltas
por saldar.
Dorme, por enquanto. Amanhã é um novo dia.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

"Nocturno", de Luís Filipe Castro Mendes

Cada poema tece a sua noite
e nessa noite ele irá ser escrito,
posto em palavras, face
à perdida música.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

"O encontro", de Luís Filipe Castro Mendes

Há um encontro que julgas ter perdido,
mas ninguém te esperava e tu não sabias!

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

domingo, 4 de maio de 2014

"Ensaio sobre o quotidiano", de Luís Filipe Castro Mendes

O quotidiano não cega:
nós é que estamos distraídos.
Não pensamos, ouvimos falar na televisão
pessoas que pensam que estão a pensar
e assim ganham a sua vida.
Dói-nos a vida, mas dizem-nos que merecemos,
porque pensámos em viver do mesmo modo
que as pessoas que pensam que estão a pensar
e falam na televisão.
Agora as pessoas que pensam que estão a pensar
e ganham a vida na televisão
dizem-nos que perdemos a nossa
e é bem feito
e ainda devia doer mais!

O quotidiano não cega: nós
é que estamos distraídos.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

terça-feira, 29 de abril de 2014

"Balanço e contas", de Luís Filipe Castro Mendes

Para acabar o dia
o poema perfila-se, como um auditor de contas,
e obriga-nos a olhar o (pouco) que hoje fomos.

Nada representamos. Não damos lucro.
Os mercados ignoram a poesia
e os editores toleram-nos por enquanto,
como um luxo secreto ou fantasia.

Mas que fomos nós hoje, na verdade?
Que vimos, que experiências transformámos
em dura consciência, que coisas do dia-a-dia
convertemos no ouro puro da poesia?

(Nenhum deus nos poderá salvar, é certo,
mas também
ninguém nos liga nos mercados...)

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

sábado, 26 de abril de 2014

"Jornal da noite", de Luís Filipe Castro Mendes

Já a cinza em chuva figurada
me veio encher o verso e a nostalgia
de olhar pelas janelas desta casa
e abarcar ainda menos nossa vida.

O tempo fez de chumbo a cinza fria.
Mas a esperança estará nalgum lugar.
As notícias não dão margens de alegria,
mas a vida resiste sem pensar.

Olhemo-nos por dentro na certeza
que teu olhar vai perto da beleza.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

"Je rentre à la maison", de Luís Filipe Castro Mendes

Todos os lugares me são ausência,
por isso nunca posso regressar.

Queria só escutar essa cadência
que as palavras nos tecem ao falar.

E talvez alguém tenha paciência
para ler o que escrevo se voltar.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

"Para quê poetas em tempo de indigência?", de Luís Filipe Castro Mendes

Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe mais as flores do mal nem a luz  radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.
(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

sábado, 5 de abril de 2014

"Anunciação", de Luís Filipe Castro Mendes

Não fujo ao poema.
Espero-o com a alegria de quem caminha
sobre brasas e destroços
e dele espero a música, toda a música
que não sei dar nem receber.

Antes de fechar as contas, digo eu,
espero o poema
como um riso atrás da cortina
da vida.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)

segunda-feira, 31 de março de 2014

"Regresso", de Luís Filipe Castro Mendes

Voltar à poesia, esse caminho estreito
entre a solidão e a vida,
esse jardim onde as flores
crescem para dentro de si próprias,
esse destino sem lugar no mapa.

Voltar à poesia, porque mais nada
cresceu entretanto,
nem palavras nem coisas.

Adivinhávamos promessas no terror dos tempos
e continuámos a andar como se houvesse caminho.
Voltar à poesia, a esta distância sem rumo nem projecto,
voltar à poesia para estar mais longe
do que sou.

(in A Misericórdia dos Mercados; ed. Assírio & Alvim, 2014)