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sábado, 26 de abril de 2014

[Ver], de António Ramos Rosa

Ver
e já não ver
ao rés do solo
ao rés da página

O fulgurante espaço
de um instante
e o sulco que inscrevo e desaparece
e logo esqueço na brancura

Mas é preciso acabar a frase
saudando com as antenas de um insecto
o vento que na folha cintila
vindo do nada pontiagudo esparso
com todo o amor do ar vazio

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

[Insiro o rosto], de António Ramos Rosa

Insiro o rosto
entre os ramos de um arbusto
e bebo a delicada fábula
dos fulgores solares

Consumi toda a minha fragilidade verde

Dormi como uma folha
de braços abertos
e passo a passo
subi ao cimo do dia

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

sábado, 29 de março de 2014

[Escolhi a terra para dormir], de António Ramos Rosa

Escolhi a terra para dormir
húmida vermelha dura
nunca formei uma palavra
nunca encontrei a saída

Estou vivo ou estarei morto
ou estarei mais além aberto
entre as constelações salubres
de uma gruta de veias vivas

Já sem andaimes o poema
dilacerado como um nervo
há-se acolher ao rés do solo
um ramo quebrado um formiga
a baba de um caracol

A palavra que nunca foi dita
não será flecha mas ferida feliz
entre os dois pólos do arco
que une o desejo ao silêncio da lua

(in Resumo - a poesia em 2013; ed. Documenta, 2014)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Dois curtos poemas de António Ramos Rosa

O poema deve
aparecer
como um objecto supérfluo
e surpreendente

* * *


Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida

(in Resumo - a poesia em 2012; ed. Documenta, 2013)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"O funcionário cansado", de António Ramos Rosa


Adriano Luz - "O Funcionário Cansado" from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.

Poema dito por Adriano Luz (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

domingo, 7 de setembro de 2008

(Poema certeiro)

O que se diz nunca é exacto
nenhuma voz nos dita
o que se passa
Por isso a palavra é uma procura
do que nunca se lhe entrega
e é essa separação que a alimenta
e nela se abre o horizonte
do impronunciável


António Ramos Rosa
(in A Intacta Ferida)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Abalo

(Poemas há que, apanhando-nos desprevenidos, nos fulminam, como que nos revelando aquilo que conservamos - quase inacessível - no recanto mais profundo de nós... Isto aconteceu ao autor destas linhas com os versos que se agora publicam: ao início desta madrugada, sussurrando as palavras, um tremendo abalo...)

* * *

Está tão próxima
a nascente
que os nossos lábios a perdem

Tão imediata é a luz
da sua água perene
que os nossos olhos se ofuscam

tão vazia e transparente
tão cúmplice do nosso espaço
que nela somos sem ver
que nela estamos sem estar

António Ramos Rosa
(in A Intacta Ferida)

sábado, 16 de agosto de 2008

Versos de Ramos Rosa

Quando dizemos estrela esperamos
que a palavra brilhe como uma estrela
mas não como se a palavra a nomeasse
porque só o nome dela brilha
e na sua própria ausência ele é uma estrela

(in A Intacta Ferida)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

De «A Intacta Ferida»

Não tenho lágrimas
estou mais baixo
junto à cal

Vejo o solo extinto
Não oiço ninguém
e não regresso

Adormecer talvez
junto a uma estaca
com uma pequena pedra
sobre as pálpebras

António Ramos Rosa
(in A Intacta Ferida)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

"Não posso adiar o coração", de António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


(in Antologia Poética)