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terça-feira, 4 de março de 2014

"é, no mínimo, estranho", de Rui Tinoco

é, no mínimo, estranho:
depois de horas e horas
no meio das palavras, desci
ao café para comer qualquer coisa
mas a personagem principal já
estava sentada na mesa ao lado
a comer um gelado
com uma pessoa que me era
inteiramente desconhecida.
a narração não é ofício
isento de surpresas.

(in Era Uma Vez O Branco; ed. volta d'água, 2013)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

"o escritor estava a ter", de Rui Tinoco

o escritor estava a ter
uma conversa bastante
agradável. era verão.
a sombra crescia debaixo
do calor. para tornar
tudo mais prazenteiro, a brisa
veio fazer companhia. a dado
momento, o escritor
concedeu-se uma pausa: estendeu
a mão distraidamente
sobre a chávena morna. a conversa
estava a terminar e nem sequer
se tinha apresentado. que cabeça
a minha: escritor este é o leitor
leitor este é o escritor.

(in Era Uma Vez O Branco; ed. volta d'água, 2013)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

"«ponto final parágrafo»", de Rui Tinoco

«ponto final parágrafo»
quanto a mim, só consegui
responder: «re-ti-cên-ci-a», mas
muito baixinho. agora, que recordo
esta conversa, penso que nem
me ouviste. voltaste a insistir:
«exclamação»
«exclamação»
«exclamação».
não aguentei mais
tive de sair dali, titubeando:
«vírgula». por isso mesmo
acho que a nossa história
ainda não terminou.

(in Era Uma Vez O Branco; ed. volta d'mar, 2013)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

(Um novo livro)

(O poemapossivel não pode deixar de agradecer a amiga oferta deste livro pelo seu autor. Em breve, neste espaço, partilhar-se-ão alguns poemas.)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Poema de Rui Tinoco

tanto sou leitor como
escritor. gosto de brincar
em frente ao espelho, rasgar
o branco com a caneta
para me descobrir do outro
lado, sentado num cadeirão,
a ler atentamente o texto.
como será esse texto?

(in DiVersos. Poesia e tradução, n.º17; ed. Sempre-em-Pé, 2012)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Poema de Rui Tinoco (inédito)

o escritor foi apanhado totalmente
de surpresa: os seus personagens
sentaram-se num largo, lá
para o quinto capítulo, e todos
eles começaram a ler diferentes
livros. foi um enorme desafio
descrever tudo isso: reabriu
então o caderno, escreveu uma ou duas
frases, mas a obra parecia maior
do que ele...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

E ainda mais uns versos de Rui Tinoco

é triste, o leitor entra na casa
do poema e eu estou
debruçado sobre a secretária,
às voltas com as frases.
não lhe falo.
e isto para sempre.

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Uns versos mais de Rui Tinoco

às vezes olhas para mim,
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Outro poema de Rui Tinoco

à medida que envelheceu
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Poema de Rui Tinoco

devia ter-me levantado para escrever
aquele verso. a manhã ofereceu-me
apenas uma página em branco.
é verdade que o autor traz consigo
dois ou três temas para a vida
toda? que alimento tão escasso...
levanto-me e vou à janela:
se conseguir tocar um desses temas
com a minha alma, talvez
alcance um lugar qualquer para
observar o mundo...

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)