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terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Porta", de Pedro Mexia

Quando deixamos ir atrás de nós a porta
puxada por molas e dobradiças,
pode haver alguém que venha depois
e com um gesto queira entrar ou sair
e ampare a porta
e sobre esse gesto sabemos muito pouco.

(in Duplo Império)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Há nomes que ficam", de Pedro Mexia

Há nomes que ficam, sem préstimo, nas agendas,
transitam de ano para ano por inerência
ou desleixo, por vezes o nome próprio
é uma referência obscura, e nunca houve apelido.
Os números, em poucos anos,
passam de mnemónicas a criptogramas,
indicam sem dúvida que nos cruzámos
com gente que se cruza connosco,
que trocámos telefones como se
trocássemos alguma coisa,
mas tudo muda, os conhecidos
tornam-se amigos e depois desconhecidos.
Estes nomes, posso riscá-los
como se fosse velho e eles mortos,
mas os números, como uma praga,
acumulam-se, escritos
com tintas diferentes
e por vezes nas letras erradas.
Não posso desfazer-me das agendas
nem começar uma todos os anos,
mas já não sou o mesmo:
os números observaram as minhas idades
e talvez pudesse agora marcar este
que não me diz nada
e contar tudo
a alguém que não se lembra de mim.

(in Duplo Império)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

"As gavetas", de Pedro Mexia

Com gratidão e admiração, ao Pedro Mexia, por este seu primeiro livro.
Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

(in Duplo Império)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"Paráfrase", de Pedro Mexia

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

"Save", de Pedro Mexia

Nada fica, a própria memória
é uma mitologia, tenho-me
como testemunha mas nada
garante que um dia não negue
tudo, então haverá este processo
verbal, museu portátil que com
um gesto, dizem, está salvo.
(in Em Memória)

domingo, 18 de maio de 2008

Never give all the heart / Nunca entregues o coração

Never give all the heart

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that's lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
O never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.

W. B. Yeats

* * *

Nunca entregues o coração

Nunca entregues o coração todo, porque o amor
Nem será digno de consideração
Para as mulheres apaixonadas se lhes parecer
Certo, e elas nunca imaginam
Como se esvai de beijo em beijo;
Porque tudo o que é aprazível é
Apenas um breve deleite, gentil e sonhador.
Oh, nunca entregues o coração sem volta,
Pois elas, apesar do que dizem com lábios suaves,
Entregaram ao jogo seus corações.
E quem saberia ainda jogar bem
Se estivesse surdo e mudo e cego de amor?
Este que isto escreve fala do que é seu
Porque entregou o coração todo e perdeu.

Versão de Pedro Mexia (in Avalanche)