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sábado, 12 de janeiro de 2013

Mais um poema de D. Dinis

Pesar mi fez meu amigo,
amiga, mais sei eu que nom
cuidou el no seu coraçom
de mi pesar, ca vos digo
que ant'el querria morrer
ca mil sol um pesar fazer.


Nom cuidou que me pesasse
do que fez, ca sei eu mui bem
que do que foi nom fora rem;
por em sei, se eu cuidasse,
que ant'el querria morrer
ca mil sol um pesar fazer.


Faze-o por encoberta,
ca sei qee se fora matar
ante que a mim fazer pesar,
e por esto sõo certa
que ant'el querria morrer
ca mil sol um pesar fazer.


Ca de morrer ou de viver
sab'el ca x'é no meu poder.

(in Cancioneiro; ed. Teorema, 1997, edição e notas de Núno Júdice)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Cantiga de amigo, de D. Dinis

Quem trist'hoj'é meu amigo,
amiga, no seu coraçom,
ca nom pôde falar migo
nem veer-m', e faz gram razom
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

Trist'anda, se Deus mi valha,
ca nom me viu, e dereit'é;
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

D'andar triste faz guisado,
ca o nom vi, nem viu el mi,
nem ar oíu meu mandado;
e por em faz gram dereit'i
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

Mais, Deus, como pode durar,
que já nom morreu com pesar?

v.1 que triste está hoje; v. 4 "e faz gram razom": e tem razão; v. 6 "nembrar": lembrar; v. 8 "e dereit'é": e é justo; vv. 13-16 é próprio que ande triste / porque não o vi, nem ele me viu a mim / nem além disso ouviu o meu recado; / e por isso procede muito bem.

(in Cancioneiro; ed. Teorema, 1997, notas de Núno Júdice)

domingo, 23 de dezembro de 2012

(Uma recomendação)

(Este livro, comprado há já algum tempo e renovadamente adiado até ontem (ou, mais precisamente, até às duas da manhã de hoje), tem constituído uma muito agradável surpresa. Ler poesia galaico-portuguesa acarreta algumas dificuldades, é certo; o meu receio de ficar além da compreensão - talvez herdado dos tempos em que tive de enfrentar tal poesia nas certeiras da escola básica e secundária - fez-me preterir este livro em função de outro. Porém, chego agora à conclusão que o receio era injustificado. Esta edição da poesia de D. Dinis, da responsabilidade de Nuno Júdice, procura colocá-la "ao alcance de um público vasto", através de notas que facilitam a interpretação e de um glossário com alguns termos eventualmente mais obscuros. É, portanto, a sugestão que deixo aos leitores do poemapossivel).