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segunda-feira, 29 de junho de 2015

[estes poemas que chegam], de Herberto Helder

estes poemas que chegam
do meio da escuridão
de que ficamos incertos
se têem autor ou não
poemas às vezes perto
da nossa própria razão
que nos podem fazer ver
o dentro da nossa morte
as forças fora de nós
e a matéria da voz
fabricada no mais fundo
de outro silêncio do mundo
que serão eles senão
uma imensidão de voz
que vem na terra calada
do lado da solidão
estes poemas que avançam
no meio da escuridão
até não serem mais nada
que lápis papel e mão
e esta tremenda atenção
este nada
uma cegueira que apaga
a luz por trás de outra mão
tudo o que acende e me apaga
alumiação de mais nada
que a mão parada
alumiação então
de que esta mão me conduz
por descaminhos de luz
ao centro da escuridão
que é fácil a rima em ão
difícil é ver se a luz
rima ou não rima com a mão

(in Poemas Canhotos; ed. Porto Editora, 2015)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

[os que dizem como deve ser], de Herberto Helder

os que dizem como deve ser:
e forçosamente não se aclara nada,
se é que alguma vez houve alguma coisa
ouvida ou entendida ou revelada
¡e o que eles devoraram de alfarroba,
e o desperdício de água clara!

(in Poemas Canhotos; ed. Porto editora, 2015)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

[em boa verdade houve um tempo em que tive uma ou duas artes], de Herberto Helder

em boa verdade houve um tempo em que tive uma ou duas artes
[poéticas
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia
[dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher
[umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse sob as
[minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevi, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a sua própria
[profundidade

(in Poemas Canhotos; ed. Porto Editora, 2015)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

[¿que interessa fazer a barba se é tudo para cremar], de Herberto Helder

¿que interessa fazer a barba se é tudo para cremar,
desde as unhas dos pés aos espelhos soberanos -
Leonardo, Camões, Newton, Amadeus Mozart,
et coetera
que interessa?
uma mulher bem temperada - disse o cozinheiro antropófago,
mãos de assasino sobre as teclas, e algo de muito
puro se criava
- ó mundo, deixa-te entender um pouco
desde nascer a morrer que não entendo nada,
só a música que me embebeda,
mas quero ir mais depressa,
nada de estelas de pedra aproveitadas de um pequeno meteoro
[áspero como o teu nome,
forte como o teu emprego na morte,
e súbito como esse mesmo nome:
ou então nome que nasce:
poalha cega que lentamente assenta no chão raso,
nome contrário

(in Poemas Canhotos; ed. Porto Editora, 2015)

terça-feira, 29 de julho de 2014

[a última bilha de gás durou dois meses e três dias], de Herberto Helder

a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra
[bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse
[nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a
[habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

[lá está o cabrão do velho no deserto, último piso esquerdo], Herberto Helder

lá está o cabrão do velho no deserto, último piso esquerdo,
que nem o Diabo ousa
ouvi-lo
quanto mais os anjos do Senhor, os pintainhos!

(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)

domingo, 29 de junho de 2014

[queria fechar-se inteiro num poema], de Herberto Helder

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima

(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)

quarta-feira, 25 de junho de 2014

[tão fortes eram que sobreviveram à língua morta], de Herberto Helder

tão fortes eram que sobreviveram à língua morta,
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, séculos, milénios,
e eles vibram,
e entre os objectos técnicos no apartamento,
rádio, tv, telemóvel,
relógios de pulso,
esmagam-me por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego,
mas que talvez respire um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura em mim pelos milénios fora,
disso, oh sim, é que eu estou vivo e estremeço ainda

(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)

terça-feira, 24 de junho de 2014

[que um nó de sangue na garganta], de Herberto Helder

que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno, o inverno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro

(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

(Lendo em voz alta, ou um verso de Herberto Helder)

Somente o meu silêncio pensa

(verso do poema "Lugar", I, in Ou o Poema Contínuo; ed. Assírio & Alvim)

domingo, 8 de setembro de 2013

(Regressando à poesia: um verso apenas)

Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar


Herberto Helder
(verso de "Poemacto", I, in Ou o poema contínuo; ed. Assírio & Alvim, 2004)

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

[a morte está tão atenta à tua força contra ela], de Herberto Helder

a morte está tão atenta à tua força contra ela,
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
¿acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias a dor, desequilíbrio e medo,
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água

(in A faca não corta o fogo; ed. Assírio & Alvim, 2008)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

[bic cristal preta doendo nas falangetas], de Herberto Helder

bic cristal preta doendo nas falangetas,
papel sobre a mesa,
a luz que vibra por cima, por baixo
a cadeira eléctrica que vibra,
e é isto:
electrocutado, luz sacudida no cabelo,
a beleza do corpo no centro da beleza do mundo:
pontos de ouro nas frutas,
frutas na luz escarpada,
clarões florais atrás de paredões de água,
água guardada no meio das fornalhas
- isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica,
entra a corrente por mim adentro e abala-me,
e com perícia artífice deixa no papel
o nexo estilístico entre
o terso, vívido, caótico e doce:
e o escrito, o carbonífero, o extinto,
o corpo

(in A faca não corta o fogo; ed. Assírio & Alvim, 2008)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

[do mundo que malmolha ou desolha não me defendo], de Herberto Helder

do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento

(in A faca não corta o fogo; ed. Assírio & Alvim, 2008)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

[no mundo há poucos fenómenos do fogo], de Herberto Helder

no mundo há poucos fenómenos do fogo,
ar há pouco,
mas quem não queria criar uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
o tempo doendo, a mente doendo, a mão doendo,
o modo esplendor do verbo,
dentro, fundo, lento, essa língua
errada, soprada, atenta,
mas agora já nada me embebeda,
já não sinto nos dedos a pulsação da caneta,
a idade tornou-me louco,
sou múltiplo,
os grandes lençóis de ar sacudidos pelo fogo,
noutro tempo eu cobria-me com todo o ar desdobrado,
havia tanto fogo movido pelo ar dentro,
agora não tenho nada defronte,
não sinto o ritmo,
estou separado, inexpugnável, incógnito, pouco,
ninguém me toca,
não toco

(in A faca não corta o fogo; ed. Assírio & Alvim, 2008)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

[retira-se alguém um pouco atrás na noite], de Herberto Helder

retira-se alguém um pouco atrás na noite
para fazer uma escola da leveza,
sentar-se sobre si mesmo devorando uma laranja,
pronta,
colhida ao caos, que ela sim ilumina quem a usa,
e é isto: a laranja faz rodar os dedos, torna
leve, pelos dedos,
aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua,
tão transbordante,
dói no fino do frio açúcar,
e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa
com ferida na boca, o gosto
magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma,
golpe a golpe,
como em estrangeiro brutal,
ou inexpugnável,
que faz ele? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau virgem e folha de
                                                                                          [ouro,
mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-
                                                                                             [se,
que escola de laranja terrestre não se pode mais que esta leveza


(in A faca não corta o fogo; ed. Assírio & Alvim, 2008)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

[sou eu que te abro pela boca], de Herberto Helder

sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria

(in A faca não corta o fogo; ed. Assírio & Alvim, 2008)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

[os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras], de Herberto Helder

os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,
esqueci-os todos:
octogenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

[traças devoram as linhas linha a linha dos livros], de Herberto Helder

traças devoram as linhas linha a linha dos livros,
o medo devora os dias dia a dia das vidas,
a idade exasperada é ir investindo nela:
a morte no gerúndio

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)

terça-feira, 2 de julho de 2013

[irmãos humanos que depois de mim vivereis], de Herberto Helder

irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no
                                                         futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e
                                                             das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é
                                                         insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como
                                                                         era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda - trepai por ela acima até à
                                                           vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que há-de medrar melhor na memória do mundo

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)