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segunda-feira, 3 de junho de 2013

[o que não tenho tenho], de Pedro Tamen

o que não tenho tenho
a escuridão é luz
donde não chego venho
o que rasga seduz

tudo é páscoa de morte
tudo é páscoa de vida
tudo é fraco e é forte
a entrada é saída

tudo é contradição
de medo e destemor
tudo me é coração
meu amor meu amor

(in Rua de Nenhures; ed. D. Quixote, 2013)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

[Ardes-me no peito onde a custo], de Pedro Tamen

Ardes-me no peito onde a custo
o meu amor perpassa, e vai até
às loucuras do corpo
e às agruras da alma.
Ardes-me no minuto, no segundo,
na hora amaciada por olhos entrevistos,
ardes-me no sangue obstruído
e na certeza muda que me diz
que o coração existe.

(in Rua de Nenhures; ed. D. Quixote, 2013)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

[Guardarás numa caixinha virtual], de Pedro Tamen

Guardarás numa caixinha virtual
o que não fiz por ti,
a mão que não chegou à sobrancelha
que nem aflorou,
o beijo repetido nas palavras
sem que o tacto
o multiplicasse qual se desejava.

Nessa caixa de nada não tardará depois
a não estares só tu,
a não estar só eu,
a estarmos só os dois.

(in Rua de Nenhures; ed. D. Quixote, 2013)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

[Como se estende a minha mão], de Pedro Tamen

Como se estende a minha mão
ao longe do cabelo
e à boca resoluta?
Os ares brilham de fogo
e o fogo aquece
esta pele que te dou
na pele que tu me dás.

Nem se pergunta mais:

no minuto milagre
é vasta a geografia
e a pele é uma.

(in Rua de Nenhures; ed. D. Quixote, 2013)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Poema de Pedro Tamen

Cantas. Não sei bem onde,
mas atravessas as paredes da casa
e do coração. O amor indetectado
lança notas da música da terra
– não a das estrelas, que não há.

Cantas. E o universo é uno,
é uno neste verso.

(in Rua de Nenhures; ed. D. Quixote, 2013)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Mais um poema de Pedro Tamen

Se a história se repete
que história se repete?
Que fungo se intromete
em quem a lê ou sente?

Será a mesma gente
ou outra, mas doente?
Hoje, tantos do tal,
terá nascido o mal?

Assim, nada é fatal
mais que a fatalidade:
a negra tempestade
é tempo e tempo, idade.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

sábado, 30 de julho de 2011

"Um fado: palavras minhas", de Pedro Tamen

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos louco de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

domingo, 24 de julho de 2011

"Fontes", de Pedro Tamen

Na fonte, a terra
dá-se à terra.
A água é um abraço
que se dá a beber
e que nos cerra.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

terça-feira, 19 de julho de 2011

"Verdes Anos", de Pedro Tamen

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

terça-feira, 17 de maio de 2011

"Azimuto a minha barca", de Pedro Tamen

Azimuto a minha barca
e o porto é onde já estou.
Esta chuva que me encharca
é a que nunca pingou.

Olho pra trás desasado
das asas que nunca tive.
Não há mudança de estado
na descida do declive.

Pedro que sou, reduzo
o sapato em que me meto
a moído parafuso
e a desgosto secreto.

Desalimento a certeza,
aperto a chave ao sorriso,
lavo a loiça, ponho a mesa,
falo faceto, agonizo.

(in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

"Nesta cadeira me sento", de Pedro Tamen

Nesta cadeira me sento,
é nela que me apresento,
mas menos do que me ausento,
tento, lamento, avelhento,
aqui me invento e rebento;
passo cordura de unguento
e alimento o alento
da vida de sono e pão.

Desta cadeira prossigo
para um outro nó pascigo,
já sem perigo nem abrigo,
amigo como inimigo,
com meu já perdido umbigo
de só nascer por castigo:
ali de vez eu te irrigo,
cintilante coração.

(in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

sábado, 27 de novembro de 2010

Poema de Pedro Tamen

Agora, se pode dizer-se agora, ou pôr-do-sol,
ou nascer da manhã, seja o que for: agora
podes ressonhar o que talvez sonhaste
quando o sol se punha realmente, e a manhã
de verdade nascia quando mal o sonhavas.

Mas, nesta operação de refazer sonhado
o que sonhado foi, o que não podes
é fazer real de qualquer jeito, sequer regar
a pequena planta que espera ser de ti.

(in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

HOJE HÁ CARACÓIS: excertos de poema de Pedro Tamen

O caracol conhece pouco mundo,
mas é colado a ele
que o conhece.

* * *

Só é lento quem vai mais devagar
que aquilo que deseja.

(excertos do poema "Caracóis", in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

(Novamente sobre mãos - lembrando-me da tua)

Sei bastante de mãos: falange, falanginha e falangeta,
e o resto estudado.
O rosado das unhas com um brilho
igual ao dos olhos normais.
(Ah, do que as mãos vêem falaremos de outra vez.
E também dos olhos teus, e teus.)
Linhas que não interessam, ou apenas
como à saída de uma grande estação: desconhecidas
quanto ao que prometem.
Carne quanto baste no melhor dos casos.
Veias discretas. Sangue adivinhado.
E os nós: nos promontórios altos
respiram como geysers,
aquecem, lançam setas,
roçam, magoam, contradizem.

Mas é na força que as fecha em concha
e as abre jurando até ao fim do tempo
ou as faz dançarinas pelo ar,
flébeis ou hirtas, aguçadas,
lassas - é no silêncio em que resumem corpos
que gritam ou ciciam o que delas sei.

Pedro Tamen
(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

De Pedro Tamen

Que é isto de silêncio?
Não ouve o marinheiro o mar
e ele ruge. Nem o mar
ouvirá jamais o marinheiro.

Que é isto de silêncio?
O cavador não ouve a cegarrega
nem pressentem ralos e cigarras
o aço da enxada.

Eis o ruído que não é connosco
por de nós ser parte:
- silêncio, pétala arriscada
da flor em tumulto.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))