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domingo, 29 de maio de 2011

"Dormes", de Mia Couto

Dormes.
Não há no mundo senão teu rosto.

O céu sob o tecto
espera comigo que despertes.

O meu único relógio
é a sombra imóvel no chão do quarto.

A curva da terra
em tua pálpebra desenhada:
no teu sono me embalas.

Dormes-me.

(in Tradutor de Chuvas)

domingo, 15 de maio de 2011

"Flores", de Mia Couto

Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.

(in Tradutor de Chuvas)

sábado, 7 de maio de 2011

"Deslição de Anatomia", de Mia Couto

Quase fui médico.
Cedo acreditei
ter inclinação.
Aconteceu, em menino,
frente aos compêndios escolares.
Fascinava-me,
no corpo humano,
o vocabulário em flor:
o suco gástrico,
o bolo alimentar,
o trânsito intestinal,
as papilas gustativas.

Ante o meu prematuro pasmo,
a professora vaticinou: vai ser médico!
Em casa, porém,
meu pai diagnosticou diverso:
não era a anatomia que me atraía.

Eu apenas amava as palavras.

Meu pai adivinhava.
E eu, de poesia, adoecia.

(in Tradutor de Chuvas)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

"Seios e anseios", de Mia Couto

As vezes que morri
boca derramada entre os teus seios,
todas essas vezes
não me deram luto
porque, de mim, eu em ti nascia.

Todos esses abismos,
meu amor,
não me deram regresso.

Depois de ti,
não há caminhos.

Porque eu nasci
antes de haver vida,
depois de tu chegares.

(in Tradutor de Chuvas)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Cores de parto", de Mia Couto

(O título do novo livro de Mia Couto apropria-se ao dia de hoje)


O que eu vi,
à nascença, foi o céu.

No rasgão da retina,
a desatada luz: o meu segundo oceano.

Aprendi a ser cego
antes de, em linha e cor,
o mundo se revelar.

O que depois vi,
ainda sem saber que via,
foram as mãos.

Parteiros gestos
me ensinaram quanto,
das mãos,
a vida inteira vamos nascendo.

As mãos foram,
assim, o meu segundo ventre.

Luz e mãos
moldaram a impossível fronteira
entre oceano e ventre.

Luz e mãos
me consolaram
da incurável solidão de ter nascido.

(in Tradutor de Chuvas)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Uns versos soltos + um poema de Mia Couto

(Gostei tanto deste livro, que é impossível deixá-lo passar em branco).

* * *

Estes quatro versos, se é permitido fazê-lo com
versos alheios, gostaria de os dedicar aos meus Amigos


(...)
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

(versos de "Poema da despedida", in Raiz do Orvalho e Outros Poemas)

* * *

Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousam a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltarei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
quem reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

(in Raiz do Orvalho e Outros Poemas)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Mia Couto: recomendo muito

(Este fim de semana li um livro de Mia Couto - «Raiz de Orvalho e Outros Poemas». Ainda que diferentes dos poemas de um outro livro (mais recente) que já lera do autor, vários foram os versos que me conseguiram encantar; muitos transcrevi, qual anacrónico copista, num dos meus inúteis cadernos (anacronicamente manuscritos). Às vezes, neste livro, o autor escreveu o que eu, há quanto tempo, quero dizer - ou, mais ainda, escreveu o que eu queria ter entendido dentro de mim para poder, se não dizer, ao menos calar (mas calar em consciência).
Ler um livro de poemas é quase sempre um passatempo sereno, mesmo que invariavelmente inútil. Aprende-se a nossa língua, certamente (depreende-se, com sorte, o que sentimos); mas não se aprende a beleza, os bons sentimentos ou qualquer coisa que se possa parecer com a vida... Na vida, somos só nós - face à beleza, aos (bons ou maus) sentimentos, à vida; e cada um com sua espingarda - e não vou ao encontro das metáforas já de todos conhecidas. Li Mia Couto. Agora, pela lógica deste blogue - mas que lógica?, meu Deus, que lógica? - devia publicar um poema, ou somente um verso. Não: hoje, escrevo este parágrafo para me poder sentir culpado com mais razão - não publiquei sequer um verso, apesar de haver versos (oh!, tantos!), não foi possível o poema, mesmo havendo muitos para ler...).

domingo, 14 de setembro de 2008

Dois versos de amor de um poema de Mia Couto

(Em dois versos apenas, quantos poemas de amor... Partilho-os com o meu auditório o que considero perfeito).

"E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer".

(versos do poema "O amor, meu amor", in idades cidades divindades)

"Ourogulho", de Mia Couto

Nunca pedi.
Sempre me perdi.
Na eminência do triunfo
eu me esqueci de vencer.

Onde havia escada
eu me furtei ao degrau
preferi o nada
a subir de grau.

Outros são donos,
donos de nomes, títulos
brilhos, proezas e luzes.

Eu, quando sou eu,
é apenas por distracção.

E apenas
para ser ninguém
me sobeja vocação.

(in idades cidades divindades)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"O dito pelo dito", de Mia Couto

Antes, eu dizia:
não me apetece nada.
E mentia.

Agora, digo:
apetece-me o nada.
E me desminto
para não dizer a verdade.

(in idades cidades divindades)