Poema dito por Rui Spranger ("Um Poema por Semana", RTP)
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quinta-feira, 24 de março de 2011
"Portugal", de Alexandre O'Neill
Poema dito por Rui Spranger ("Um Poema por Semana", RTP)
domingo, 10 de agosto de 2008
Sobre o poeta
«No chamado consenso geral (ou público) uma das aparências que o alienado ainda reveste é a de poeta. (...)
Pode acontecer que o poeta se desacerte ao abotoar-se, diga «perdão!» quando é pisado por vocês, faça uma declaração de amor a um marco do correio, não saiba ganhar a (vossa) vida... Pode acontecer. Mas acautelai-vos: o poeta é um distraído terrivelmente atento. A sua distracção é pura economia. Apostado em caçar o essencial, o poeta resvala de olhos vagos pelo que já viu e reviu. Ele sabe que até morrer nunca mais terá tempo».
Pode acontecer que o poeta se desacerte ao abotoar-se, diga «perdão!» quando é pisado por vocês, faça uma declaração de amor a um marco do correio, não saiba ganhar a (vossa) vida... Pode acontecer. Mas acautelai-vos: o poeta é um distraído terrivelmente atento. A sua distracção é pura economia. Apostado em caçar o essencial, o poeta resvala de olhos vagos pelo que já viu e reviu. Ele sabe que até morrer nunca mais terá tempo».
Alexandre O'Neill
(excerto de prefácio publicado in Coração Acordeão)
(excerto de prefácio publicado in Coração Acordeão)
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
"Sopa", de Carl Sandburg
Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher.
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
com uma colher.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher.
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
com uma colher.
Tradução de Alexandre O'Neill
(in Maria Antónia Oliveira, Alexandre O'Neill. Uma biografia literária)
(in Maria Antónia Oliveira, Alexandre O'Neill. Uma biografia literária)
domingo, 27 de julho de 2008
"O monstro", de Alexandre O'Neill
Meneia o monstro a cauda, sedutor.
Seu rosto podia até estar em flor.
Meneia o monstro a cauda como um gato.
Seus olhos suplicam: quer regaço.
O monstro é bom, o monstro realiza
que em família é outra coisa a vida!
Que é da ferocidade anunciada?
Que é do salto? Que é da garra disparada?
O monstro já me pede para ir à escola,
«como os outros meninos». Esta agora!
O monstro vai à escola, apanha boas notas
e volta, alvoroçado, nas suas oito botas.
O monstro aculturado já se deixa montar,
mas ainda não moro naquele seu olhar.
Naquele seu olhar, que é tão meigo, eu já via
algo assim como uma vaga nostalgia.
Que deseja o monstro que não possa ter,
o monstro que eu mostro a quem o quiser ver?
O monstro protesta sua eterna amizade,
diz-se muito feliz, «se é que há felicidade!».
Mas a mim não me enganas. Dou com ele a chorar.
«Que tens tu, ó Castorim, que não queres confessar?».
«A bem dizer, padrinho, eu não tenho nada.
Sei agora que sou uma besta humanizada.
Mas que hei-de fazer com este meu aspecto?
Como hei-de viver com este mau aspecto?
Ó meu bom padrinho, eu só queria voltar
ao pedregal donde me foi tirar!».
Abraçados, chorámos, e eu, complacente,
deixo o monstro ir embora - e para sempre!
Vossa boa atenção não quero fatigar.
Com a moral costumeira vou aqui terminar.
Nunca façam de um monstro a vossa criação,
que tarde ou cedo vai dar complicação.
Seu rosto podia até estar em flor.
Meneia o monstro a cauda como um gato.
Seus olhos suplicam: quer regaço.
O monstro é bom, o monstro realiza
que em família é outra coisa a vida!
Que é da ferocidade anunciada?
Que é do salto? Que é da garra disparada?
O monstro já me pede para ir à escola,
«como os outros meninos». Esta agora!
O monstro vai à escola, apanha boas notas
e volta, alvoroçado, nas suas oito botas.
O monstro aculturado já se deixa montar,
mas ainda não moro naquele seu olhar.
Naquele seu olhar, que é tão meigo, eu já via
algo assim como uma vaga nostalgia.
Que deseja o monstro que não possa ter,
o monstro que eu mostro a quem o quiser ver?
O monstro protesta sua eterna amizade,
diz-se muito feliz, «se é que há felicidade!».
Mas a mim não me enganas. Dou com ele a chorar.
«Que tens tu, ó Castorim, que não queres confessar?».
«A bem dizer, padrinho, eu não tenho nada.
Sei agora que sou uma besta humanizada.
Mas que hei-de fazer com este meu aspecto?
Como hei-de viver com este mau aspecto?
Ó meu bom padrinho, eu só queria voltar
ao pedregal donde me foi tirar!».
Abraçados, chorámos, e eu, complacente,
deixo o monstro ir embora - e para sempre!
Vossa boa atenção não quero fatigar.
Com a moral costumeira vou aqui terminar.
Nunca façam de um monstro a vossa criação,
que tarde ou cedo vai dar complicação.
(in Coração Acordeão)
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Auto-imagem
Curiosa, a auto-imagem: a mediocridade que se reconhece com desconforto, a mediania que se não vê ainda que óbvia, a originalidade mais ou menos presumida, and so on, and so on... O querer, afinal, que nos façam justiça...
* * *
Caixadòclos
- Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
- Que és o esticalarica que se vê.
- Público em geral, acaso o meu nome...
- Vai mas é vender banha de cobra!
- Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
- Este é um dos que fala sozinho na rua...
- Campdòrique, então, não dizes nada?
- Ai tão silvatávares que ele vem hoje!
- Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
- É o do terceiro, nunca tem dinheiro...
- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...
- Ah, agora sim, fazem-me justiça!
- Olha o caixadòclos todo satisfeito
a ler as notícias...
Alexandre O'Neill
(in Poesias Completas)
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
O'Neill e a modernidade na poesia
«(...) a nível do que poderemos considerar "adereços", não se esqueça de que a entrada da locomotiva na poesia se passou muitas décadas depois dos comboios andarem em circulação. Com o avião aconteceu o mesmo. A aclimatação da modernidade ou dos seus símbolos pela literatura é sempre mais lenta do que todos nós queríamos».
Alexandre O'Neill
(cit. Maria Antónia Oliveira, Alexandre O'Neill. Uma biografia literária, p. 267)
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
O'Neill na primeira pessoa

«Sou parecidíssimo com a minha poesia. Mesmo no dia-a-dia, no próprio trabalho. Entre a minha expressão coloquial e a minha expressão poética, não há distância. A diferença será de intensidade (...)».
Alexandre O'Neill
(cit. Maria Antónia Oliveira, Alexandre O'Neill. Uma biografia literária, p. 194)
(cit. Maria Antónia Oliveira, Alexandre O'Neill. Uma biografia literária, p. 194)
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