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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

[Por muito que pense e pense], de Fernando Pessoa


Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.


(in Quadras e Canções de Beber; ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

[Teus olhos de quem não quer], de Fernando Pessoa

Teus olhos de quem não quer
Procuram quem eu não sei.
Se um dia o amor vier
Olharás como eu olhei.

(in Quadras e Canções de Beber; ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

[Se há uma nuvem que passa], de Fernando Pessoa

Se há uma nuvem que passa
Passa uma sombra também.
Ninguém diga que é desgraça
Não ter o que se não tem.

(in Quadras e Canções de Beber; ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

[Todos os dias que passam], de Fernando Pessoa

Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias em que só passa
O estar a esperar-te a ti.

(in Quadras e Canções de Beber; ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

[Todas as coisas que dizes], de Fernando Pessoa

Todas as coisas que dizes
Afinal não são verdade.
Mas, se nos fazem felizes,
Isso é a felicidade...

(in Quadras e Canções de Beber; ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

[As verdades são mentiras], de Fernando Pessoa

As verdades são mentiras
Porque é gente quem as diz
As tristezas - se m'as tiras,
Como é que hei-de ser feliz?

(in Quadras e Canções de Beber; ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

terça-feira, 25 de agosto de 2015

"Shadows cease low. Now the bright prentice Sun / As sombras cessam. Já o sol, empregado", de Fernando Pessoa

Shadows cease low. Now the bright prentice Sun
Takes down the shutters of the shop of Life,
And, counter wiped, the day's toil is begun
Of selling means no Hope, worker Joy's wife.

But what is this to me that, beggared deep,
No more than up and down the street repeat
My dream of what I'd buy, were not buying step
For the chilled walk of my loss-palsied feet?

I see the buyers enter and come out,
Stayed at the corner of occasions lost;
I hear the talk, the laugh, the casual bout
Of buying, and I half forget the post

Of mendicant exclusion, mine eyes being
Taken up more with looking that with seeing.

* * *

As sombras cessam. Já o sol, empregado,
Puxa as persianas da loja do Viver
E, limpo o balcão, começa o trabalho
De vendas à Esperança, esposa do Prazer.

Mas o que me resta, profundo mendigo,
Senão repetir, na rua a caminhar,
Meu sonho de compras, não fosse excessivo
P'ra meus pés gelados, tolhido o andar.

Vejo os compradores entrar e sair,
Parado à esquina da perdida ocasião;
Ouço a conversa, o riso, a casual crise
De compras e quase esqueço a minha condição

De mendiga exclusão, ficando a olhar,
Menos preso ao ver do que ao contemplar.

(in Poemas Ingleses. Vol. II; trad. Luísa Freire, ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"When slattern Time, worn out with toil of wearing / Quando o Tempo esquecido, gasto a lutar", de Fernando Pessoa

When slattern Time, worn out with toil of wearing,
With loose‑tied pack shall trudge upon my years,
And I shall feel that forced occasion nearing
That despair's self (that must live to be) fears,

I, being beggared of all wealth of hope -
So prodigal have I to wishes been -
Shall with known uselessness for the coin grope
To pay that the hour’s ending be serene.

I shall not enter the great silent cave
With curious ardour, or ease out of sun,
But all that with me I shall then still have
Will be a coward rage that all is done.

No hope the cave's a passage shall control
Fear of the immediate night of the shown hole.

* * *

Quando o Tempo esquecido, gasto a lutar,
Com seu fardo solto a custo vier,
E eu sentir a fatal hora chegar
E o temor (pois sem vida não é) de ser,

Eu, do bem da esp'rança sendo mendigo -
Embora tão pródigo no desejar -
Buscarei a moeda, inútil já digo,
Com que um fim sereno possa pagar.

Na funda cova silente entrarei
Sem estar curioso ou do sol cansado,
Mas tudo o que então comigo terei
É raiva cobarde por tudo acabado.

O crer que a cova é passagem não detém
O medo da noite que do fundo vem.

(in Poemas Ingleses. Vol. II; trad. Luísa Freire, ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Primeira estrofe do poema "Sorrow no more for the faded rose", de Fernando Pessoa

Sorrow no more for the faded rose,
Nor of the yellow lily despair.
These, as we see them, are but their shows.
They are elsewhere.

(...)

* * *

Não lamentes mais a rosa em decadência,
Nem do lírio amarelo a desolação.
Eles, como os vemos, são só aparência.
Noutro lugar estão.

(...)

(in Poemas Ingleses. Vol. II; trad. Luísa Freire, ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Excerto de poema "Now are no Janus' temple-doors thrown wide", de Fernando Pessoa

(...)
With cuirass and with pike we laid aside
All that made battle worth the death in it.
Our science‑made war‑gestures now deride
The great eternal things that war doth fit
With helm and armour.
With mortal pomp yet pomp. We are on death's side.
(...)

* * *

(...)
Com couraça e lança foi tudo arredado
O que digna tornava a morte pela luta.
O bélico gesto, em ciência transformado,
Desdenha do ideal eterno que se ajusta
À batalha com elmo e armadura.
Com pompa mortal, mas pompa. A morte ao lado.
(...)

(in Poemas Ingleses. Vol. II; trad. Luísa Freire, ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

"Alentejo seen from the train / Alentejo visto do comboio", de Fernando Pessoa

Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil is it?

* * *

Nada, tendo nada em seu redor
E, de permeio, algumas árvores somente
Nenhuma delas verde claramente,
Onde nada aparece, rio ou flor.
Se acaso há um inferno, ele aqui está,
Pois, se não aqui, onde o Diabo estará?

(in Poemas Ingleses. Vol. II; trad. Luísa Freire, ed. Planeta DeAgostini/Assírio & Alvim, 2006)

sexta-feira, 21 de março de 2014

[O meu olhar é nítido como um girassol], de Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que teria uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a grande novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a inocência,
E toda a inocência é não pensar...

(in Poesia dos Outros Eus; ed. Assírio & Alvim)

sexta-feira, 19 de julho de 2013

sexta-feira, 12 de julho de 2013

[Vivem em nós inúmeros], de Ricardo Reis

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.

(in Poesia; ed. Assírio & Alvim)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

[Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge], de Ricardo Reis

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
        Mas finge sem fingires.
Nada speres que em ti já não exista,
        Cada um consigo é tudo.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
        Sorte se a sorte é dada.

(in Poesia; ed. Assírio & Alvim)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

[Quero ignorado, e calmo], de Ricardo Reis

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada spera
Tudo que vem é grato.

(in Poesia; ed. Assírio & Alvim)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Dois poemas de Ricardo Reis, no dia do 125º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa


Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
        Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
        De penas.

* * *

Para ser grande, sê inteiro: nada
        Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
        No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
        Brilha, porque alta vive.

(in Poesia; ed. Assírio & Alvim)

domingo, 9 de junho de 2013

[O que sentimos, não o que é sentido], de Ricardo Reis

O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o inverno estreita.
        Como à sorte o acolhamos.
Haja inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
        Nossa lareira breve.

(in Poesia; ed. Assírio & Alvim)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

[No mundo, só comigo, me deixaram], de Ricardo Reis

No mundo, só comigo, me deixaram
        Os Deuses que dispõem.
Não posso contra eles: o que deram
        Aceito sem mais nada.
Assim o trigo baixa ao vento, e, quando
        O vento cessa, ergue-se.

(in Poesia; ed. Assírio & Alvim)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

[Tão cedo passa tudo quanto passa!], de Ricardo Reis

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
        Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
        E cala. O mais é nada.

(in Poesia; ed. Assírio & Alvim)