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sábado, 7 de janeiro de 2012

Um poema mais de Amadeu Baptista

Eu era um ser delicado, mas a voz que tinha
estava impregnada de resquícios de profunda grosseria,
quem me ouvisse pensava que eu estava a morrer,
as minhas palavras enchias a jactância do teu peito
e amedrontavam o carinho dos simples que me acompanhavam.

As palavras fluíam da minha boca com o estampido do trovão,
eu praguejava contra tudo e todos,
e as minhas mãos brandiam sobre o ar
uma resoluta fortaleza que não me pertencia.

Eu era um ser delicado, a minha voz tonitruante
dava de mim apenas uma imagem enganadora,
as sílabas com que fulminava quem me ouvia
não eram mais que um último reduto de defesa,
um último pedido de socorro. Porque eu era
um ser delicado.

(in A Arte do Regresso; Campo das Letras, 1999)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Abrindo o ano com um poema de Amadeu Baptista (com os votos de um feliz ano)

Procuro um texto impossível,
um outro caminho para a salvação.

Procuro a palavra que nos una definitivamente, o poema
escrito no barro da alucinação, a palavra que cresce da terra
e atinge a noite com pancadas de luminosa alegria.

Procuro o teu rosto, a chave do segredo inviolável, a súbita
haste de uma flor com o teu nome, lírio, lume, lucerna, a pressão
sobre a página que vem reabilitar
a memória de que somos feitos.

Procuro os teus lábios, a cálida gruta
das tuas mãos, a árvore da vida, lágrima
e luz transgredindo o trajecto entre uma ausência e outra,
murmúrio e estremecimento.

Procuro os teus olhos, procuro a profundidade dos teus olhos,
a euforia que vive no fundo dos teus olhos, os íntimos
sinais de selvagem serenidade
com que recebes quem te olha nos olhos, a ternura,
a violenta ternura dos teus olhos.

Procuro o espaço onde prolongar o sonho para além da manhã,
o rio subterrâneo que exorciza o abismo, a ave
que grita entre as ravinas das trevas, o esplendor
da planície, a chuva
áugure.

Um barco ou uma pedra,
procuro.

(in Arte do Regresso; Campo das Letras, 1999)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Dez versos de Amadeu Baptista

Falo com as cabeças de mármore
que interrogam sobre o rumo da viagem.
Tenho poucas palavras para responder.
Hei-de dizer que alguém soberano
me ordenou com a espada e a prata
e que apenas respondo pela minha cabeça,
também ela de mármore imaculado.
As estátuas quedam-se no mais absoluto silêncio
e esperam ler o destino no fundo dos meus olhos,
pura reverberação de pedra despolida.

(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um poema mais de Amadeu Baptista

Preso ao encantamento das crisálidas
e à multiplicação dos girinos
vejo-te ainda onde pequenos barcos
sulcam a névoa e sobre a água pairam

com a suave delicadeza da brancura.
Estende-se a tarde sob a ameixoeira.
A luz é o verdor com guarnição lilás
que escorre dos muros. E as aves são

cintilações que habitam as roseiras
que o mistério invade enquanto os gatos
andam à caça de algum pardal esparso.

Ao cimo das escadas uma estátua grega brilha.
Os deuses que nos falam estão próximo
do odor a limão que nos inebria.

(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Poema de Amadeu Baptista

A pedra azul ou o ónix que encontro em Chapultepec
é um princípio de fogo sem princípio nem fim.
Entre as mãos voará como uma ave de prata
ou a bandeira de vento desta pátria de luz.

A luz na minha boca é uma pedra sagrada,
comove-me o coração em Chapultepec.
O coração é uma pedra em brasa
nas insígnias do sol e da serpente.

O olhar é o fogo neste encontro infinito,
o rosto foi tocado pela luz do início.
Caminho e ardo nesta pedra sagrada
quando encontro o teu rosto em Chapultepec.

(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Outro poema de Amadeu Baptista

Sou cúmplice porque viajo,
amo,
gravo o teu nome no coração da árvore,
as minhas raízes enlaçam-se nas tuas,
são a lua e o anjo
no êxtase do voo.

(in Arte do Regresso)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poema de Amadeu Baptista

O mundo dez anos depois de aqui estarmos
será todas as coisas que agora sonhamos
no inefável mistério do desespero da noite.
O mundo daqui a dez anos será redondo
e as árvores possuirão o infinito azul
que perdemos na despojada sombra do caminho
que nos persegue.
Em dez anos o mundo há-de ser continuamente o mesmo,
mas o sol e a lua aproximarão a terra
da íntima ressonância do mundo
e todos os enigmas serão perceptíveis
na fascinada viagem dos teus olhos
com destino às coisas inexoráveis
e avassaladoramente eternas.

(in Arte do Regresso)