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segunda-feira, 13 de abril de 2015

[nada do que te disser], de Dinarte Vasconcelos

nada do que te disser
abalará o matadouro ou a fornalha

o silêncio seria uma hipótese administrativa
mas suspendo-o porque quero viver

o meu epitáfio esteve sempre escrito
nas linhas que suturam a tua ferida

nos bafos que levam
e fazem pousar as cinzas

é bom que o saibamos
antes e depois dos holocaustos

se desprezarmos as palavras
tudo é transmissível – tudo se assemelha

emergem némesis siamesas
e oposições forjam-se do mesmo veio

por isso calo o silêncio
dos rituais e da burocracia higiénica

– cicatriz à tua ilharga
é chaga minha

– o que te faz arder
é o que me fará recordar

(in 70 poemas para Adorno; ed. Nova Delphi, 2015)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um poema mais de Dinarte Vasconcelos

uma aranha teceu a sua teia
numa agave à janela do meu quarto

eu brincava com ela
deitando-lhe na teia cinzas

dos meus cigarros
mas no fundo queria-lhe bem

[assim como acontece
entre nós humanos]

hoje uma tribo de jardineiros
destruiu-lhe a casa

e pensei que não estava ali
para a proteger

[como acontece
entre nós os humanos]

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

De novo, um poema de Dinarte Vasconcelos

há dias salvei um poema
do fundo do meu realismo gélido

alinhado e resgatado o eco
mato destarte a estupidez
que a idade traz

um poema há dias pois
e a idade igual
antes e amanhã

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

terça-feira, 26 de junho de 2012

Regressando do silêncio com Dinarte Vasconcelos

a horda lânguida
não se apercebe da melodia
que eclode das linhas do teu colo

dos teus eflúvios procedem
a morfologia dos dias

- entre as minhas mãos
uma gramática suja

que não permite dizer-te

[se pudesse dizer-te
que diria eu]

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Um segundo poema de Dinarte Vasconcelos

lembrei-me que dois grãos de areia
são o mínimo para um poema

dois grãos de areia e o imenso atlântico
e o calado de um barco imerso

uma proa e eu o capitão
dois grãos de areia que caem

o galo que canta na manhã a bordo
e o vento cortado pelo mastro

lembrei-me que duas mãos
são o mínimo para um poema

e lembrei-me que um poema
- dois grãos de areia - é o mínimo

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poema de Dinarte Vasconcelos

a melhor poesia é a da tristeza

fica pelo menos assim o intróito
redime-nos de resto a intenção
de sermos tristes a bem da arte

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)