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quarta-feira, 25 de março de 2009

"Para vivenciar nadas", de Ondjaki

borboleta é um ser irrequieto.
para vestes usa pólen.
tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
descola por ventos
e facilmente aterriza em sonhos.
borboleta tem correspondência directa
com a palavra alma.
para existir usa liberdades.
desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
usa com afinidades
o palco da natureza.
nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. como digo:
pó-de-lua, lápis solar
castanho-raiz, cinzento-nuvem.
borboleta dispõe de intimidades
com arcos íris
a ponto de cócegas mútuas.
para beijar amigos e vidas ela usa olhos.
borboleta é um ser
de misteriosos nadas.

(in Há Prendisajens com o Xão)

terça-feira, 24 de março de 2009

"Para pisar um chão com estrelas", de Ondjaki

(De novo, um poema com estrelas. Pura coincidência. O anterior, de Pessoa, repousava no meu caderno há pelo menos dois meses - reli-o, quase por acaso, e reencontrei-me com a sua beleza; o que agora se publica, resulta de uma leitura feita minutos antes de partir do lugar - deste xão - onde me encontro... mas não para pisar um chão com estrelas).

imitando-me ao morcego
intimidei o dia a ser mais vertical.
assim o céu ganhou pés
a terra experimentou alturas.
apressas, pedi:
uma noite se antecipasse.
transfigurando conceitos
o palco do mundo vincava-se
de novas encenações.
estrelas chegaram.
lua teve dúvidas para posicionar-se.
encaminhando
andei sobre o céu sob meus pés.
assim revelei-me:
nunca é impossível
pisar um chão de estrelas.
...
logo-logo:
um grilo atirou-se a sorrisos.

(in Há Prendisajens com o Xão)