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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

"Biblioteca", de Fernando Guimarães

Os livros invisíveis, a secreta
presença destas fontes onde a água
jorra para ninguém. A transparência
é como outro sentido a que se acresce

aquilo que o vazio nos entrega
ao tornar-se na dobra que marcava
o lugar onde há muito está suspensa
a leitura que fosse como um líquido

que nas mãos se derrame. Ali se vê
o texto que ficasse indecifrável
até que nele possam fixar-se

os nossos olhos que depois esperam
a vinda da palavra que procura
um rumor mais antigo, esta pronúncia.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

"Eco", de Fernando Guimarães

Que lábios lhe pertencem
se a palavra que chega
vem de nenhum lugar?

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Morte", de Fernando Guimarães

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

sábado, 5 de janeiro de 2013

"Lã", de Fernando Guimarães

O rebanho, a aspereza da lã. Recebemo-la nos teares
para a tornar ali macia. Sentimo-la como se envolvesse
o nosso corpo, sem rugas, transparente. Assim
é que traz o calor há muito esperado, contido
nas pregas, no modo como descai e vem tocar
o chão. Mas a sua aspereza existe ainda e com ela
regressa o que desse rebanho era apenas o caminho
que seguimos de longe até crescer mais este tecido.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

domingo, 23 de dezembro de 2012

"Livro", de Fernando Guimarães

É diante de ti que se encontra; está aberto
sobre a mesa. Há muito que foi ali deixado para ficar
mais perto de nós. Sabes que nele pode existir
o vento, a cor indecisa das nuvens, o voo

das aves, aquilo por que esperas. À sua volta
vês a luz que tinhas acendido: há-de ser límpido
o sentido que chega em cada um das páginas
que leste. Sem que o possas saber, talvez haja

alguém cuja proximidade se torna mais tranquila
ao iniciar o seu caminho para que as palavras
se unam umas às outras e seja maior

o sentido que têm. Isto faz com que as compreendas
melhor. Depois ergues os olhos e um novo livro
principia.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)