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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"Gaiola de Vidro", de Jorge de Sena

(Nas últimas páginas desse romance que Jorge de Sena não reviu nem concluiu, mas que, ainda assim, é uma obra com bastante interesse)

Como paredes através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros,
quem vamos conhecendo nos rodeia,
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.

No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem nós somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos uma face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço
uma visão de espelhos transparentes.

Mas o que nos distingue não existe.

(in Sinais de Fogo)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

(Um poema mais de Emily Dickinson)

Surgeons must be very careful
When they take the knife!
Underneath their fine incisions
Stirs the Culprit — Life!

* * *

Cirurgiões, tende cuidado
Com essa faca tão fina!
Sob o golpe tão subtil
Treme o culpado - é a Vida!

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

(O poema apropriado - de Emily Dickinson)

Volcanoes be in Sicily
And South America
I judge from my Geography.
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb -
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.

* * *

Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia -
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir -
Cratera que eu possa ver -
Há um Vesúvio cá em casa.

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

domingo, 11 de setembro de 2011

Novamente, Emily Dickinson

I'm Nobody! Who are you?
Are you - Nobody - Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise - you know!

How dreary - to be - Somebody!
How public - like a Frog -
To tell one's name - the livelong June -
To an admiring Bog!

* * *

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também - tu não és - Ninguém?
Somos um par - nada digas!
Banir-nos-iam - não sabes?

Mas que horrível - ser-se - Alguém!
Uma Rã que o dia todo -
Coaxa em público o nome
Para quem a admira - o Lodo.

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dois poemas de Emily Dickinson (e duas traduções de Jorge de Sena)

I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me
Almost a loneliness.

* * *

Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures -
Quase uma solidão.

* * *

Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.

* * *

O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz -
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

domingo, 4 de setembro de 2011

Quatro versos de Emily Dickinson

Between My Country - and the Others -
There is a Sea -
But Flowers - negotiate between us -
As Ministry.

* * *

Entre o meu País - e os Outros -
Há um Mar -
Mas Flores - negoceiam entre nós -
Como embaixadas.

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Poema de Emily Dickinson

Afraid? Of whom am I afraid?
Not Death - for who is He?
The Porter of my Father's Lodge
As much abasheth me.

Of Life? 'Twere odd I fear [a] thing
That comprehendeth me
In one or more existences -
At Deity decree -

Of Resurrection? Is the East
Afraid to trust the Morn
With her fastidious forehead?
As soon impeach my Crown!

* * *

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte - quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências -
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil
Mais me valera abdicar!

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Evocando Jorge de Sena

Na minha insuficiente biblioteca de Poesia terei, no máximo, uns três ou quatro poemas do Jorge de Sena, dispersos em compilações várias. Um Poeta esquecido? Talvez não tanto, mas seguramente pouco lembrado quando considerada a dimensão (qualitativa, entenda-se) da sua obra.
Os poemas que já li (felizmente mais do que os três os quatro acima referidos) permitiram-me perceber que aprecio o poeta (bem mais que o ficcionista e o ensaísta - não considero o dramaturgo, porque nunca investi nessa faceta do autor). Neste dia - em que se assinalam trinta anos do seu desaparecimento - publico um poema de Jorge de Sena.

* * *

Fidelidade

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.