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terça-feira, 16 de abril de 2013

(Uma proposta cinematográfica)



(Transpor o "Livro do Desassossego" em filme é um exercício complicado. Especialmente se esse produto cinematográfico seguir de perto o texto de Bernando Soares (já assistira há uns anos a uma adaptação teatral mais ou menos feliz do mesmo texto, encenada por Ricardo Pais).
O "Filme de Desassossego", de João Botelho (um dos cineastas portugueses que sigo com interesse), constitui uma tentativa bastante interessante (e que comunica com a sua primeira película, "Conversa Acabada", sobre a relação entre Pessoa e Sá-Carneiro). Um fotografia sem mácula, uma realização muito boa que, a meu ver, apenas falha um pouco na montagem da segunda metade do filme (existem alguns saltos demasiado bruscos e sem articulação aparente; além disso, dispensava a dramatização da música do Eurico Carrapatoso, registo que me pareceu completamente descontextualizado). Os cenários não podiam ser melhor escolhidos (julgo que Lisboa ganha com este filme), e os múltiplos atores desta "história" (sem história) ajudaram ao resultado final.
)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Excerto do «Livro do Desassossego»

Em certos dias, em certas horas, trazidas até mim por não sei que brisa, abertas a mim por o abrir de não sei que porta, sinto de repente que o merceeiro da esquina é um ser espiritual, que o marçano, que neste momento se debruça à porta sobre o saco de batatas, é, verdadeiramente, uma alma capaz de sofrer.
Quando ontem me disseram que o empregado da tabacaria se tinha suicidado, tive uma impressão de mentira. Coitado, também existia! Tínhamos esquecido isso, nós todos, nós todos que o conhecíamos do mesmo modo que todos que o não conheceram. Amanhã esquecê-lo-emos melhor. Mas que havia alma, havia, para que se matasse. Paixões? Angústias? Sem dúvida… Mas a mim, como à humanidade inteira, há só a memória de um sorriso parvo por cima de um casaco de mescla, sujo, e desigual nos ombros. É quanto me resta, a mim, de quem tanto sentiu que se matou de sentir, porque, enfim, de outra coisa se não deve matar alguém… Pensei uma vez, ao comprar-lhe cigarros, que encalveceria cedo. Afinal não teve tempo para encalvecer. E uma das memórias que me restam dele. Que outra me haveria de restar se esta, afinal, não é dele mas de um pensamento meu?

(in Livro do Desassossego)