quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

[Depois de uma tarde a tratar do jardim], de José Tolentino Mendonça

Depois de uma tarde a tratar do jardim
a nossa vida
importa menos

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"Nenhuma coisa", de Manuel António Pina

Estou sempre a falar de mim ou não. O meu trabalho
é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.

Desta maneira (e doutras -
a carne é triste, hélas!, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?

Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)

(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

(Mais dois haikus de José Tolentino Mendonça)

Os que se assemelham a nada
assemelham-se
a Deus

* * *

Nas mãos do oleiro
o universo descobre-se
inacabado

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

"Palavras não", de Manuel António Pina

Palavras não me faltam (quem diria o quê?),
faltas-me tu poesia cheia de truques.
De modo que te amo em prosa, eis o
lugar onde guardarei a vida e a morte.

De que outra maneira poderei
assim te percorrer até à perdição?
Porque te perderei para sempre como
o viajante perde o caminho de casa.

E tendo-te perdido, te perderei para sempre.
Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este.

(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

(Dois haikus de José Tolentino Mendonça)

Podes interrogar a papoila
mas a papoila
nada responde

* * *

O silêncio
não é o oposto
mas o avesso

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

"Os tempos não", de Manuel António Pina

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

(Lendo em voz alta, ou um verso de Herberto Helder)

Somente o meu silêncio pensa

(verso do poema "Lugar", I, in Ou o Poema Contínuo; ed. Assírio & Alvim)

[Silêncio], José Tolentino Mendonça

Silêncio:
contemplar a neve
até confundir-se com ela

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

[O silêncio só raramente é vazio], de José Tolentino Mendonça

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

"Este fresco jardim", de Mário Cesariny

(Depois de alguns meses em que as leituras poéticas escassearam, será que o poema voltará a ser possível?)

Este fresco jardim era teu
Com suas terraças para o mundo.
Eram tuas as cores deste céu
E o pequeno pastor, ao fundo.

(in Pena Capital; ed. Assírio & Alvim)

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

"Poema", de Mário Cesariny

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos

(in Pena Capital; ed. Assírio & Alvim)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

"shafftsbury avenue", de Mário Cesariny

Vi um anão inglês e fiquei perturbado
desceu-me a chávena ao peito como quem sofre
julgava ter olhos para tudo e não os tive para isto
um anão inglês a atravessar uma rua inglesa
com um fato à inglesa muito curto
e a mãozinha inglesa a dar a dar

Eu que ainda ontem escrevi um poema
sobre os tamanhos fantasmas dos ingleses
as pernas de oceano dos ingleses
os braços florestais dos ingleses
dei um salto para o chão e entornei a bebida sobre o pedinte
que afinal também há nas casas de chá barato

«Dwarf! Dwarf! burning bright»
«In the forest of the night»

Que nome lhe darão na intimidade?
Vic? Jimmy? Christian Dwarf Road?
Deixá-lo-ão sair para o estrangeiro sem ser de circo?
Quem já viu um anão inglês em Sintra?
Mérida?
Ferrara?
Quem apertou o sexo aos ingleses
e lhes pôs estas caras de infinito langor
apertou também a ti?

«Did He smile His worke to see?»
«Did He who made the Lamb make thee?»


Claro que isto são maneiras

Não vivo como o outro, preso pela espinha
aos caudais da verdade.
De um lado Buckingham Palace
do outro o caso do
profundamente humano.
E seria inglês, este anão?

Não seria italiano?

(in Pena Capital; ed. Assírio & Alvim)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

"you are welcome to elsinore", de Mário Cesariny



Poema dito por Adolfo Luxúria Canibal, com música de António Rafael


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte    violar-nos    tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas    portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

(in Pena Capital; ed. Assírio & Alvim)

domingo, 8 de setembro de 2013

(Regressando à poesia: um verso apenas)

Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar


Herberto Helder
(verso de "Poemacto", I, in Ou o poema contínuo; ed. Assírio & Alvim, 2004)