sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

"Quase", de Mário de Sá-Carneiro, dito por Mário Cesariny

Roberto Juarroz. Um poema

Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.

Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.

Só deus não me dói hoje.
Será porque hoje ele não existe?

(in Poesia Vertical, antologia organizada e traduzida por Arnaldo Saraiva)
Sítio na Internet: http://www.robertojuarroz.com/

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Porque gosto tanto de Ruy Belo: "O Valor do Vento"

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e

só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

(in Todos os Poemas, Vol. I)

Excerto da "Ode Marítima", Álvaro de Campos

(...)
Complexidade da vida! As facturas são feitas por gente
Que tem amores, ódios, paixões políticas, às vezes crimes -
E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão independentes de tudo isso!
Há quem olhe para uma factura e não sinta isto.
Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentias.
Eu é até às lágrimas que o sinto humanissimamente.
Venham dizer que não há poesia no comércio, nos escritórios!
(...)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Variação sobre dois versos de Ruy Belo

«O portugal futuro é um país/aonde o puro pássaro é possível».
Assim começa o poema de Ruy Belo (poema de antologia) que há dias se publicou neste blogue. O autor destas linhas insiste com tais versos porque - e não querendo transviar para outras águas - dias há, como o de hoje, em que não consegue crer na possibilidade de tal "puro pássaro" acontecer no Portugal (ou portugal) futuro...
Política, pensarão alguns. Esclarece-se: não exactamente, ainda que também um pouco. Em todo o caso, hoje - e sem querer reescrever o que Ruy Belo tão perfeitamente fechou - sentimos algo um pouco diferente: «O portugal futuro é um país/aonde o puro pássaro é urgente».

domingo, 27 de janeiro de 2008

Eu queria agradecer-te, Galileu...

Apontamentos sobre uma pública conversa informal com uma Poetiza

A Poetiza escreve à noite - ou melhor, procura a Poesia depois de levantar a mesa e arrumar os pratos lavados, de preparar a aula de literatura do dia seguinte. Prefere o lápis e a folha A4; o computador, confessa, é apenas uma ferramenta para o trabalho não-poético. Mas - adivinho - nem sempre que a procura a Poesia vem (assim acontecerá com todos os que não são meros arrumadores de palavras e decoradores de sonoridades e ritmos).
Não, a Poesia acontece naturalmente, e o primeiro acto de escrita pode acontecer no momento menos provável - no engarrafamento, numa conversa, numa aula. À noite, então, o apurar (se houver matéria para tanto), o destruir (se for esse o caso), o purificar (nas duas situações anteriores).
Sem muitas novidades - talvez -, ainda assim valeu a pena ouvir o que nos quis dizer a Poetiza.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

"Não posso adiar o coração", de António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


(in Antologia Poética)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Poetas "queixinhas"

O Poeta que se queixa da sua "malfadada sorte", por ter que expulsar para o papel a Poesia que explode dentro de si... constitui, para mim, uma violência, um atentado ao bom gosto, uma deselegância à Poesia.
O Poeta - o Poeta que é mesmo Poeta - não tem que se queixar. Se escreve poemas, muito bem - os leitores lerão esses versos e formarão a sua opinião (mais ou menos fundamentada ou culta); e ainda que me interesse muitíssimo o processo de criação, sempre me vai arreliando ler os "queixinhas"...

O'Neill e a modernidade na poesia

«(...) a nível do que poderemos considerar "adereços", não se esqueça de que a entrada da locomotiva na poesia se passou muitas décadas depois dos comboios andarem em circulação. Com o avião aconteceu o mesmo. A aclimatação da modernidade ou dos seus símbolos pela literatura é sempre mais lenta do que todos nós queríamos».
Alexandre O'Neill
(cit. Maria Antónia Oliveira, Alexandre O'Neill. Uma biografia literária, p. 267)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O'Neill na primeira pessoa


«Sou parecidíssimo com a minha poesia. Mesmo no dia-a-dia, no próprio trabalho. Entre a minha expressão coloquial e a minha expressão poética, não há distância. A diferença será de intensidade (...)».

Alexandre O'Neill
(cit. Maria Antónia Oliveira, Alexandre O'Neill. Uma biografia literária, p. 194)

domingo, 20 de janeiro de 2008

Portugal Futuro, de Ruy Belo

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

(in Todos os Poemas, vol. I)