(O poemapossivel não pode deixar de agradecer a amiga oferta deste livro pelo seu autor. Em breve, neste espaço, partilhar-se-ão alguns poemas.)
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
"O que me vale", de Manuel António Pina
O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições
(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)
domingo, 16 de fevereiro de 2014
[A vastidão do mundo], de José Tolentino Mendonça
A vastidão do mundo
para o peregrino
não é mais do que um quarto vazio
para o peregrino
não é mais do que um quarto vazio
(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
"Amor como em casa", de Manuel António Pina
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
(O sol que apetecia...)
![]() |
| Ilustração (alterada) de Cristina Valadas, do livro Pó de Estrelas, de Jorge Sousa Braga |
(Este inverno, repete a televisão, é o mais chuvoso dos últimos oitenta anos. Seja. Hoje, para não variar, chove; talvez por isso me tenha encantado de um modo especial este belo sol de Cristina Valadas, que coloquei num céu azul, quando percorria as folhas de um livro que aprecio bastante...)
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
"Erosão", de A. M. Pires Cabral
Montes arredondados, de tão velhos,
que já destes pão e hoje dais cardos,
dizei qual erosão mais vos magoa:
se a que vos vem do alto
no uivo dos ventos e nas cordas de chuva
– se a do desuso agrário.
que já destes pão e hoje dais cardos,
dizei qual erosão mais vos magoa:
se a que vos vem do alto
no uivo dos ventos e nas cordas de chuva
– se a do desuso agrário.
(in Gaveta do Fundo; ed. Tinta da China, 2013)
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
[Todo o inverno], de José Tolentino Mendonça
Todo o inverno
o solitário bambu
mediu forças com o vento
o solitário bambu
mediu forças com o vento
(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)
domingo, 9 de fevereiro de 2014
[Tudo é efémero], de José Tolentino Mendonça
Tudo é efémero:
ontem escutava a tua voz
hoje só o vento
ontem escutava a tua voz
hoje só o vento
(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
"A poesia vai", de Manuel António Pina
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
[Dos caniçais em repouso], de José Tolentino Mendonça
Dos caniçais em repouso
súbita revoada
de gansos
súbita revoada
de gansos
(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
"Arte de gritar", de A. M. Pires Cabral
Quisera dizer coisas
que ninguém tivesse dito antes de mim.
Deixar uma pegada sobre a areia intacta,
não sobre outras pegadas que já houvesse lá.
Mas cheguei tarde; os que me precederam
no exercício desta dura arte de gritar
amavam a minúcia, a completude,
nunca deixavam uma tarefa a meio.
Disseram tudo. Deixaram só migalhas susceptíveis
de glosas rasteiras, para eu me entreter
como uma criança pobre brinca com destroços
de brinquedos recuperados do lixo.
E eu digo essas migalhas como quem
escreve a terra em laudas rasuradas.
E escrevê-las-ei mesmo quando
não tenha língua já para as dizer.
(Os poetas entendem-me estes mansos
trocadilhos. Os outros, não importa.)
que ninguém tivesse dito antes de mim.
Deixar uma pegada sobre a areia intacta,
não sobre outras pegadas que já houvesse lá.
Mas cheguei tarde; os que me precederam
no exercício desta dura arte de gritar
amavam a minúcia, a completude,
nunca deixavam uma tarefa a meio.
Disseram tudo. Deixaram só migalhas susceptíveis
de glosas rasteiras, para eu me entreter
como uma criança pobre brinca com destroços
de brinquedos recuperados do lixo.
E eu digo essas migalhas como quem
escreve a terra em laudas rasuradas.
E escrevê-las-ei mesmo quando
não tenha língua já para as dizer.
(Os poetas entendem-me estes mansos
trocadilhos. Os outros, não importa.)
(in Gaveta do Fundo; ed. Tinta da China, 2013)
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
"Aos meus óculos", de A. M. Pires Cabral
Se um dia vos partirdes, ficarei
mais à mercê do escuro.
Provavelmente não poderei então
nem ler nem escrever nem cortejar
as flores silvestres, as nuvens em castelo,
os pardais disputando uma migalha
— esses frustes amores de fim de tempo.
Deixarei de poder distinguir
um abismo dum simples degrau.
Por isso, vós que sois de vidro quebradiço
como o meu próprio barro,
cuidai-vos em nome de mim.
Paguei-vos, sois meus, deveis-me utilidade.
Faça-se em vós segundo
a minha vontade.
mais à mercê do escuro.
Provavelmente não poderei então
nem ler nem escrever nem cortejar
as flores silvestres, as nuvens em castelo,
os pardais disputando uma migalha
— esses frustes amores de fim de tempo.
Deixarei de poder distinguir
um abismo dum simples degrau.
Por isso, vós que sois de vidro quebradiço
como o meu próprio barro,
cuidai-vos em nome de mim.
Paguei-vos, sois meus, deveis-me utilidade.
Faça-se em vós segundo
a minha vontade.
(in Gaveta do Fundo; ed. Tinta da China, 2013)
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
(Um par de haikus, de José Tolentino Mendonça)
Quando se extinguiu
o vermelho da papoila
o jardim ficou vazio
No ramo do marmeleiro
descubro nuvens
que não havia visto
o vermelho da papoila
o jardim ficou vazio
* * *
No ramo do marmeleiro
descubro nuvens
que não havia visto
(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
"Desta maneira falou Ulisses", de Manuel António Pina
Falo por mim, e por ti me calo.
De modo que fica tudo entre nós.
Literatura que faço, me fazes.
(Ó palavras!) Mas eu onde estou ou quem?
É isso falar, caminhar? (Desta maneira falou) - Volto
para casa para a pátria pura página
interior onde a voz dorme o
seu sono que as lavras povoam.
Aí, no fundo da morte, se celebram
as chamadas núpcias literárias, o encontro do
escritor com o seu silêncio. Escrevo para casa.
Conto estas aventuras extraordinárias.
De modo que fica tudo entre nós.
Literatura que faço, me fazes.
(Ó palavras!) Mas eu onde estou ou quem?
É isso falar, caminhar? (Desta maneira falou) - Volto
para casa para a pátria pura página
interior onde a voz dorme o
seu sono que as lavras povoam.
Aí, no fundo da morte, se celebram
as chamadas núpcias literárias, o encontro do
escritor com o seu silêncio. Escrevo para casa.
Conto estas aventuras extraordinárias.
(in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012)
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
[Em Deus tudo se assemelha], de José Tolentino Mendonça
Em Deus tudo se assemelha:
a tua prece e o canto
da rã
a tua prece e o canto
da rã
(in A Papoila e o Monge; ed. Assírio & Alvim, 2013)
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