Nenúfares
Um nenúfar flutua
na mesma água
que a lua
terça-feira, 13 de maio de 2008
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Poema de Carlos Edmundo de Ory (mudado para português por Herberto Helder)
A minha boca é uma chaga
O meu trabalho é silêncio
Eu e a noite dormimos juntos
e nunca dormimos
O meu trabalho é silêncio
Eu e a noite dormimos juntos
e nunca dormimos
(in Doze Nós numa Corda)
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Discos Pedidos
O poema do José Luís Peixoto, anteriormente publicado sob outra forma.
Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.
Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.
Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.
Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.
E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?
Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.
* * *
Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.
Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.
Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.
Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.
E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?
Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.
(in Gaveta de Papéis)
"Se isto é um homem", de Primo Levi
Lembro muitas vezes o Holocausto, e aquelas imagens brutais de corpos nus amontoados, mortos ou semi-vivos. Lembrei hoje na viagem de regresso a casa, enquanto pensava no que o homem pode fazer ao homem... Aqui publico o poema do escritor Primo Levi, sobrevivente do Holocausto - se é que é possível sobreviver-se aos genocídios...
* * *
Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.
(in Se isto é um homem, tradução de Simonetta Cabrita Neto)
quarta-feira, 7 de maio de 2008
"Zeitgeist", de Fernando Pinto do Amaral

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.
Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.
Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa - ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.
Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.
Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa - ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.
(in Poesia Reunida, 1990-2000)
segunda-feira, 5 de maio de 2008
"Peregrino e Hóspede sobre a Terra", de Ruy Belo
Meu único país é sempre onde estou bem
é onde pago o bem com sofrimento
é onde num momento tudo tenho
O meu país agora são os mesmos campos verdes
que no outono vi tristes e desolados
e onde nem me pedem passaporte
pois neles nasci e morro a cada instante
que a paz não é palavra para mim
O malmequer a erva o pessegueiro em flor
asseguram o mínimo de dor indispensável
a quem na felicidade que tivesse
veria uma reforma e um insulto
A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstracta quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez
é onde pago o bem com sofrimento
é onde num momento tudo tenho
O meu país agora são os mesmos campos verdes
que no outono vi tristes e desolados
e onde nem me pedem passaporte
pois neles nasci e morro a cada instante
que a paz não é palavra para mim
O malmequer a erva o pessegueiro em flor
asseguram o mínimo de dor indispensável
a quem na felicidade que tivesse
veria uma reforma e um insulto
A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstracta quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez
(in Todos os Poemas, vol. II)
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Excerto de "A Passagem das Horas", de Álvaro de Campos
(...)
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
(...)
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
(...)
quarta-feira, 30 de abril de 2008
"Não há motivo para te importunar a meio da noite", de José Luís Peixoto
Vídeo de Daniela Gigante sobre poema de José Luís Peitoxo
(da obra Gaveta de Papéis, 2008)
terça-feira, 29 de abril de 2008
"A Verdade História", de Ana Luísa Amaral

A minha filha partiu uma tigela
na cozinha.
E eu que me apetecia escrever
sobre o evento,
tive que pôr de lado inspiração e lápis,
pegar numa vassoura e varrer
a cozinha.
A cozinha varrida de tigela
ficou diferente da cozinha
de tigela intacta:
local propício a escavação e estudo,
curto mapa arqueológico
num futuro remoto.
Uma tigela de louça branca
com flores,
restos de cereais tratados
em embalagem estanque
espalhados pelo chão.
Não eram grãos de trigo de Pompeia,
mas eram respeitosos cereais
de qualquer forma.
E a tigela, mesmo não sendo da dinastia Ming,
mas das Caldas,
daqui a cinco ou dez mil anos
devia ter estatuto admirativo.
Mas a hecatombe
deu-se.
E escorregada de pequeninas mãos,
ficou esquecida de famas e proveitos,
varrida de vassouras e memorias.
Por mísero e cruel balde de lixo
azul
em plástico moderno
(indestrutível)
(in Minha Senhora de Quê)
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Hoje, uma imagem. Desenho de um Poeta
sexta-feira, 25 de abril de 2008
25 de Abril
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Dia Mundial do Livro
A um livro medíocre, de Luís Quintais
Lê-o até ao fim.
No seu miolo,
círculo inaparente,
jaz sepulta
uma frase,
um milagre,
uma árvore.
Lê-o até ao fim.
No seu miolo,
círculo inaparente,
jaz sepulta
uma frase,
um milagre,
uma árvore.
(in Canto Onde)
terça-feira, 22 de abril de 2008
Comentários
Aproveito por agradecer os comentários simpáticos que dirigiram para a minha caixa de correio electrónico. Obrigado, caros amigos.
O silêncio que alguns referiram tem que ver com circunstâncias pouco poéticas da minha vida-vidinha, que me abstenho de explanar. A vida-vidinha fez, nos últimos meses, essa explanação por mim (notaram-no uns quantos pela minha ausência nas vossas mesas de café). Daí ter publicado pouco neste meu espaço.
Quanto à minha "urbanidade"... sinceramente, não me ocorrem as palavras adequadas. Digamos, pouco satisfatoriamente, que ser um "rapaz da cidade" (cit.) não será um dos maiores defeitos da espécie humana.
Termino com duas últimas ideias, ainda recorrendo aos vossos comentários:
1) Julgo que é dispensável, havendo a alternativa do correio electrónico, abrir à comunidade de infonautas (e há sempre o "perigo" de um desconhecido parar neste blogue e querer, levando por um impulso, comentar a má impressão causada pelo mesmo) a possibilidade da "janela de comentários" (com moderação ou sem, vai dar ao mesmo).
2) Se não há ligações neste blogue, é porque se pretende que este espaço tenha uma certa austeridade. Digamos: este blogue é assim como um beco sem saída - não vai dar a lado nenhum, o seu interesse é limitado aos seus poucos utilizadores.
O silêncio que alguns referiram tem que ver com circunstâncias pouco poéticas da minha vida-vidinha, que me abstenho de explanar. A vida-vidinha fez, nos últimos meses, essa explanação por mim (notaram-no uns quantos pela minha ausência nas vossas mesas de café). Daí ter publicado pouco neste meu espaço.
Quanto à minha "urbanidade"... sinceramente, não me ocorrem as palavras adequadas. Digamos, pouco satisfatoriamente, que ser um "rapaz da cidade" (cit.) não será um dos maiores defeitos da espécie humana.
Termino com duas últimas ideias, ainda recorrendo aos vossos comentários:
1) Julgo que é dispensável, havendo a alternativa do correio electrónico, abrir à comunidade de infonautas (e há sempre o "perigo" de um desconhecido parar neste blogue e querer, levando por um impulso, comentar a má impressão causada pelo mesmo) a possibilidade da "janela de comentários" (com moderação ou sem, vai dar ao mesmo).
2) Se não há ligações neste blogue, é porque se pretende que este espaço tenha uma certa austeridade. Digamos: este blogue é assim como um beco sem saída - não vai dar a lado nenhum, o seu interesse é limitado aos seus poucos utilizadores.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
"Andava sempre por aí", de Maria Marcelina
Andava sempre por aí
Nunca disse a ninguém onde morava
O nome da rua, do número, ou o do andar
Direito Esquerdo Frente
Nunca ninguém o viu entrar ou sair
Donde morava
Mas andava sempre por ali
Só veio a saber-se onde morava
Quando morreu
Morava por ali
E morreu ali
Nunca disse a ninguém onde morava
O nome da rua, do número, ou o do andar
Direito Esquerdo Frente
Nunca ninguém o viu entrar ou sair
Donde morava
Mas andava sempre por ali
Só veio a saber-se onde morava
Quando morreu
Morava por ali
E morreu ali
(in Poemas de "Ninguém" - Pinturas de Jaime Isidoro)
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