(E além destes três exemplos - os Diários, de Al Berto, Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade, de José Tolentino Mendonça, e A Civilização do Espetáculo, de Mário Vargas Llosa -, ainda vimos por aí (e desejamos, infelizmente sem a possibilidade de os trazer para casa) a poesia reunida de Vasco Graça Moura (dois volumes), de Maria do Rosário Pedreira (com inéditos) e de João Luís Barreto Guimarães. Houvesse possibilidade, trataria de arranjar um bom lugar para os acolher e o tempo necessário para os desfrutar...)
domingo, 4 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
"Café do Molhe", de Manuel António Pina
Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)
porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia
que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe
(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse
de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito
sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa
que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)
porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia
que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe
(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse
de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito
sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa
que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Dois versos de Fernando Echevarría
Que ler é umbral de entrarmos no esquecido
que o gesto lento de folhear acorda.
que o gesto lento de folhear acorda.
(versos do poema "Livro", in Obra Inacabada; ed. Afrontamento, 2006)
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Poema de Nuno Moura
é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delirias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.
seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.
somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.
só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.
portugal é um país de poetas ricos.
a poesia dá dinheiro a portugal.
e teve mais de noventa mil pessoas delirias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.
seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.
somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.
só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.
portugal é um país de poetas ricos.
a poesia dá dinheiro a portugal.
(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)
sábado, 27 de outubro de 2012
"A ponte", de Octavio Paz
Entre instante e instante,
entre eu sou e tu és,
a palavra ponte.
Entras em ti mesma
ao entrar nela:
como um anel
o mundo fecha-se.
De uma margem à outra
há sempre um corpo que se estende,
um arco-íris.
Eu dormirei sob os seus arcos.
entre eu sou e tu és,
a palavra ponte.
Entras em ti mesma
ao entrar nela:
como um anel
o mundo fecha-se.
De uma margem à outra
há sempre um corpo que se estende,
um arco-íris.
Eu dormirei sob os seus arcos.
(in Antologia Poética; ed. Dom Quixote, 1998)
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
"Do poema como contrato social", de José Tolentino Mendonça
Comércio bilingue, o poema precisa da troca,
sobretudo se inútil,
da espontaneidade de poucos, dessa ideia de passagem,
de derrocadas e do silêncio que lhes sucede,
precisa de descendências particularmente radicais
do relâmpago ou de um absurdo ainda maior
para se tornar próximo
O poema é conversa humana
palavra que recuperamos
ao abandonar
sobretudo se inútil,
da espontaneidade de poucos, dessa ideia de passagem,
de derrocadas e do silêncio que lhes sucede,
precisa de descendências particularmente radicais
do relâmpago ou de um absurdo ainda maior
para se tornar próximo
O poema é conversa humana
palavra que recuperamos
ao abandonar
(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
"O mapa", de José Tolentino Mendonça
aprendido num salmo sufi
Para os teus discípulos não há heresia
nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
a verdade que vem de ti
Insista o herético na sua heresia
e o ortodoxo na sua ortodoxia
O teu fiel é mercador de perfumes
em busca da essência de rosas
do amor divino
eu deambulo
(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)
terça-feira, 23 de outubro de 2012
"Certeza", de Octavio Paz
Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?
Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?
Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.
(in Antologia Poética; ed. Dom Quixote, 1998)
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
"A ciência do amor", de José Tolentino Mendonça
O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria
Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam
Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam
(in Estação Central; ed. Assírio &; Alvim, 2012)
sábado, 20 de outubro de 2012
"Os justos", de José Tolentino Mendonça
Começam o dia louvando o imperfeito:
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho
Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado
Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio
Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho
Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado
Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio
Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas
(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
(Adeus, Manuel...)
Manuel António Pina (18/11/1943 - 19/10/2012)
TODAS AS PALAVRAS
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
(Poema retirado do blogue da Assírio & Alvim)
"Isto é o meu corpo", de José Tolentino Mendonça
O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar
(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
"Arte de amar", de José Saramago
Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)
domingo, 23 de setembro de 2012
"No silêncio dos olhos", de José Saramago
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Outro poema de Filipa Leal
Antes de vir para o Vale Formoso,
convidaste-me para almoçar.
Eu já tinha almoçado, mas era tanta a vontade
de te ver que lá fui contigo comer chocos
com tinta.
À mesa no Vale Formoso, e sem fome, às vezes
punha-me a pensar que poderia não ser amor,
mas era certamente alguma coisa séria
o que me fazia almoçar duas vezes
no mesmo dia.
convidaste-me para almoçar.
Eu já tinha almoçado, mas era tanta a vontade
de te ver que lá fui contigo comer chocos
com tinta.
À mesa no Vale Formoso, e sem fome, às vezes
punha-me a pensar que poderia não ser amor,
mas era certamente alguma coisa séria
o que me fazia almoçar duas vezes
no mesmo dia.
(in Vale Formoso; ed. Deriva, 2012)
Subscrever:
Mensagens (Atom)



