domingo, 20 de janeiro de 2013

(5 anos de poemas)

O poemapossivel completa hoje cinco anos de existência. Pese embora a passagem do tempo, mantém-se - como na mensagem inicial do blogue se escreveu - o prazer do poema possível.
Muitos foram os livros lidos nestes cinco anos, vários os autores descobertos, alguns os poetas que simpaticamente me ajudaram a alimentar este espaço; por tudo isto, posso dizer que é um projeto pessoal e coletivamente ganho. Digo coletivamente porque, sendo este um espaço público, conseguiu tocar e alcançar algumas dezenas de pessoas (pudesse eu atrever-me a dizer centenas!). Com a criação da página no facebook, o poemapossivel tornou-se acessível a novas pessoas, tendo vindo a crescer (embora muito lentamente) o número de interessados. Fico feliz por haver quem goste tanto de poesia como eu, e se reveja nas minhas escolhas.
Claro que tempos houve (e haverá) em que pouca poesia foi publicada - nem sempre há a mesma disposição para as leituras, e nem sempre o acesso a novos livros é fácil (nos últimos meses não me tem sido possível comprar novos livros, o que limita sobremaneira as minhas leituras); porém, quem se interessa por livros, tende a procurá-los nas fontes possíveis - e é esse o caminho que possivelmente sustentará este espaço nos tempos que se seguem.
Em todo o caso, espero que me acompanhem nesta minha jornada. Bem hajam.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

"Eco", de Fernando Guimarães

Que lábios lhe pertencem
se a palavra que chega
vem de nenhum lugar?

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

"Voo", de Maria Teresa Horta

Ela sonha
Ela corre
Ela parte

Ela inventa
E escreve
A madrugada

Ela sai de si mesma
E vai voando
Ele exige o paraíso

Até à alma

(in Poemas para Leonor; D. Quixote, 2012)

domingo, 13 de janeiro de 2013

(Uma fotografia)

 Fotografia de Nuno Ramos (http://www.facebook.com/nunoramosfotografia)

sábado, 12 de janeiro de 2013

Mais um poema de D. Dinis

Pesar mi fez meu amigo,
amiga, mais sei eu que nom
cuidou el no seu coraçom
de mi pesar, ca vos digo
que ant'el querria morrer
ca mil sol um pesar fazer.


Nom cuidou que me pesasse
do que fez, ca sei eu mui bem
que do que foi nom fora rem;
por em sei, se eu cuidasse,
que ant'el querria morrer
ca mil sol um pesar fazer.


Faze-o por encoberta,
ca sei qee se fora matar
ante que a mim fazer pesar,
e por esto sõo certa
que ant'el querria morrer
ca mil sol um pesar fazer.


Ca de morrer ou de viver
sab'el ca x'é no meu poder.

(in Cancioneiro; ed. Teorema, 1997, edição e notas de Núno Júdice)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Morte", de Fernando Guimarães

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

sábado, 5 de janeiro de 2013

"Lã", de Fernando Guimarães

O rebanho, a aspereza da lã. Recebemo-la nos teares
para a tornar ali macia. Sentimo-la como se envolvesse
o nosso corpo, sem rugas, transparente. Assim
é que traz o calor há muito esperado, contido
nas pregas, no modo como descai e vem tocar
o chão. Mas a sua aspereza existe ainda e com ela
regressa o que desse rebanho era apenas o caminho
que seguimos de longe até crescer mais este tecido.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

"Dois cimbalinos escaldados", de Inês Lourenço

Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 28; 2011)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

"Se te pareço ausente", de Lya Luft

Se te pareço ausente, não creias:
Hora a Hora a minha dor agarra-se a teus braços,
Hora a Hora o meu desejo revolve os teus escombros,
E escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
Não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
Teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
Palavras
São meu jeito mais secreto de calar.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Cantiga de amigo, de D. Dinis

Quem trist'hoj'é meu amigo,
amiga, no seu coraçom,
ca nom pôde falar migo
nem veer-m', e faz gram razom
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

Trist'anda, se Deus mi valha,
ca nom me viu, e dereit'é;
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

D'andar triste faz guisado,
ca o nom vi, nem viu el mi,
nem ar oíu meu mandado;
e por em faz gram dereit'i
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

Mais, Deus, como pode durar,
que já nom morreu com pesar?

v.1 que triste está hoje; v. 4 "e faz gram razom": e tem razão; v. 6 "nembrar": lembrar; v. 8 "e dereit'é": e é justo; vv. 13-16 é próprio que ande triste / porque não o vi, nem ele me viu a mim / nem além disso ouviu o meu recado; / e por isso procede muito bem.

(in Cancioneiro; ed. Teorema, 1997, notas de Núno Júdice)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Vã procura", de Péricles Prade

Em vão procurei a Tabacaria
do Esteves sem metafísica.
Queria, como Álvaro de Campos, dizer-lhe adeus.
Por toda a parte procurei
a Tabacaria & seu dono
olhando tabuletas diurnas e noturnas
em várias direções.
Mas nas tabacarias de hoje
(nas que entrei ou vi de relance)
não há Esteves, ainda que defronte
haja metafísica de todo gênero, sor-
risos, máscaras mouras, jogadores
de dominó, trovadores convencidos, fumadores,
marqueses, mendigos, lagartos decadentes,
línguas, temores, Amálias,
pombas, mistérios e contradições.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

domingo, 23 de dezembro de 2012

"Livro", de Fernando Guimarães

É diante de ti que se encontra; está aberto
sobre a mesa. Há muito que foi ali deixado para ficar
mais perto de nós. Sabes que nele pode existir
o vento, a cor indecisa das nuvens, o voo

das aves, aquilo por que esperas. À sua volta
vês a luz que tinhas acendido: há-de ser límpido
o sentido que chega em cada um das páginas
que leste. Sem que o possas saber, talvez haja

alguém cuja proximidade se torna mais tranquila
ao iniciar o seu caminho para que as palavras
se unam umas às outras e seja maior

o sentido que têm. Isto faz com que as compreendas
melhor. Depois ergues os olhos e um novo livro
principia.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

(Uma recomendação)

(Este livro, comprado há já algum tempo e renovadamente adiado até ontem (ou, mais precisamente, até às duas da manhã de hoje), tem constituído uma muito agradável surpresa. Ler poesia galaico-portuguesa acarreta algumas dificuldades, é certo; o meu receio de ficar além da compreensão - talvez herdado dos tempos em que tive de enfrentar tal poesia nas certeiras da escola básica e secundária - fez-me preterir este livro em função de outro. Porém, chego agora à conclusão que o receio era injustificado. Esta edição da poesia de D. Dinis, da responsabilidade de Nuno Júdice, procura colocá-la "ao alcance de um público vasto", através de notas que facilitam a interpretação e de um glossário com alguns termos eventualmente mais obscuros. É, portanto, a sugestão que deixo aos leitores do poemapossivel).

sábado, 22 de dezembro de 2012

"Atira para o mar", de Renata Pallottini

Atira para o mar as tuas coisas
abandona os teus pais
muda de nome

esquece a pátria
parte sem bagagem
fica mudo e ensurdece
abre os teus olhos.

Se o teu amor não vale tudo isso
então fica onde estás
gelado e quieto.

O amor só sabe ir de mãos vazias
e só vale se for
o único projeto.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)