sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

"Dois cimbalinos escaldados", de Inês Lourenço

Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 28; 2011)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

"Se te pareço ausente", de Lya Luft

Se te pareço ausente, não creias:
Hora a Hora a minha dor agarra-se a teus braços,
Hora a Hora o meu desejo revolve os teus escombros,
E escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
Não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
Teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
Palavras
São meu jeito mais secreto de calar.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Cantiga de amigo, de D. Dinis

Quem trist'hoj'é meu amigo,
amiga, no seu coraçom,
ca nom pôde falar migo
nem veer-m', e faz gram razom
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

Trist'anda, se Deus mi valha,
ca nom me viu, e dereit'é;
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

D'andar triste faz guisado,
ca o nom vi, nem viu el mi,
nem ar oíu meu mandado;
e por em faz gram dereit'i
meu amigo de trist'andar,
por m'el nom ver e lh'eu nembrar.

Mais, Deus, como pode durar,
que já nom morreu com pesar?

v.1 que triste está hoje; v. 4 "e faz gram razom": e tem razão; v. 6 "nembrar": lembrar; v. 8 "e dereit'é": e é justo; vv. 13-16 é próprio que ande triste / porque não o vi, nem ele me viu a mim / nem além disso ouviu o meu recado; / e por isso procede muito bem.

(in Cancioneiro; ed. Teorema, 1997, notas de Núno Júdice)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Vã procura", de Péricles Prade

Em vão procurei a Tabacaria
do Esteves sem metafísica.
Queria, como Álvaro de Campos, dizer-lhe adeus.
Por toda a parte procurei
a Tabacaria & seu dono
olhando tabuletas diurnas e noturnas
em várias direções.
Mas nas tabacarias de hoje
(nas que entrei ou vi de relance)
não há Esteves, ainda que defronte
haja metafísica de todo gênero, sor-
risos, máscaras mouras, jogadores
de dominó, trovadores convencidos, fumadores,
marqueses, mendigos, lagartos decadentes,
línguas, temores, Amálias,
pombas, mistérios e contradições.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

domingo, 23 de dezembro de 2012

"Livro", de Fernando Guimarães

É diante de ti que se encontra; está aberto
sobre a mesa. Há muito que foi ali deixado para ficar
mais perto de nós. Sabes que nele pode existir
o vento, a cor indecisa das nuvens, o voo

das aves, aquilo por que esperas. À sua volta
vês a luz que tinhas acendido: há-de ser límpido
o sentido que chega em cada um das páginas
que leste. Sem que o possas saber, talvez haja

alguém cuja proximidade se torna mais tranquila
ao iniciar o seu caminho para que as palavras
se unam umas às outras e seja maior

o sentido que têm. Isto faz com que as compreendas
melhor. Depois ergues os olhos e um novo livro
principia.

(in Relâmpago. Revista de Poesia, 29-30; 2012)

(Uma recomendação)

(Este livro, comprado há já algum tempo e renovadamente adiado até ontem (ou, mais precisamente, até às duas da manhã de hoje), tem constituído uma muito agradável surpresa. Ler poesia galaico-portuguesa acarreta algumas dificuldades, é certo; o meu receio de ficar além da compreensão - talvez herdado dos tempos em que tive de enfrentar tal poesia nas certeiras da escola básica e secundária - fez-me preterir este livro em função de outro. Porém, chego agora à conclusão que o receio era injustificado. Esta edição da poesia de D. Dinis, da responsabilidade de Nuno Júdice, procura colocá-la "ao alcance de um público vasto", através de notas que facilitam a interpretação e de um glossário com alguns termos eventualmente mais obscuros. É, portanto, a sugestão que deixo aos leitores do poemapossivel).

sábado, 22 de dezembro de 2012

"Atira para o mar", de Renata Pallottini

Atira para o mar as tuas coisas
abandona os teus pais
muda de nome

esquece a pátria
parte sem bagagem
fica mudo e ensurdece
abre os teus olhos.

Se o teu amor não vale tudo isso
então fica onde estás
gelado e quieto.

O amor só sabe ir de mãos vazias
e só vale se for
o único projeto.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"Gaiola de Vidro", de Jorge de Sena

(Nas últimas páginas desse romance que Jorge de Sena não reviu nem concluiu, mas que, ainda assim, é uma obra com bastante interesse)

Como paredes através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros,
quem vamos conhecendo nos rodeia,
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.

No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem nós somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos uma face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço
uma visão de espelhos transparentes.

Mas o que nos distingue não existe.

(in Sinais de Fogo)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

"A idade", de Carlos Nejar

Falou e disse um pássaro,
dois sóis, uma pequena estrela.
Falou para que calássemos
e disse amor, penúria, brevidade.
E disse disse disse
a idade da eternidade.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

"Celestial", de Álvaro Alves de Faria

Quando tentei ser santo,
queria apenas ser um santo
sem compromisso
de fazer milagres.

Seria uma espécie de santo avulso,
desses que permanecem
desconhecidos no céu
e que só vêem Deus
de muito longe,
sem direito a carro oficial.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

"A Ricardo Reis, no Mar da Galiléia", de Alberto da Costa e Silva

Só dizem os deuses o que logo esquecem,
mas o jogo do céu é amplo e reto,
e cada lance é um coração aberto:

nele não dorme o que se fez desperto,
o eterno é agora e em si mesmo morre,
nunca houve rumo e todo sempre é incerto.

- Não creio, e rezo.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Soneto XXXIII, dos "35 Sonnets", de Fernando Pessoa

He that goes back does, since he goes, advance,
Though he doth not advance who goeth back,
And he that seeks, though he on nothing chance,
May still by words be said to find a lack.
This paradox of having, that is nought
In the world's meaning of the things it screens,
Is yet true of the substance of pure thought
And there means something by the nought it means.
For thinking nought does on nought being confer,
As giving not is acting not to give,
And, to the same unbribed true thought, to err
Is to find truth, though by its negative.
So why call this world false, if false to be
Be to be aught, and being aught Being to be?

* * *

Quem para trás vai, só por isso avança,
Inda que não avance recuando,
E quem procura, o nada encontrando,
Dele se dirá que o vazio alcança.

Este nada é paradoxo do ter
No sentido em que o mundo o vem velar,
É a vera essência do puro pensar
E algo diz pelo nada dizer.

Se o não dar é o acto de não o dar,
E pensar o nada é reconhecê-lo,
Segundo o mesmo pensamento, errar

É descobrir verdade, não a tendo.
Porquê chamar falso o mundo se, por sê-lo,
É já algo do Ser, por isso sendo?

(in Poesia Inglesa, vol I; Assírio & Alvim, trad. Luísa Freire)

domingo, 4 de novembro de 2012

(Objetos [utópicos] de desejo)

(E além destes três exemplos - os Diários, de Al Berto, Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade, de José Tolentino Mendonça, e A Civilização do Espetáculo, de Mário Vargas Llosa -, ainda vimos por aí (e desejamos, infelizmente sem a possibilidade de os trazer para casa) a poesia reunida de Vasco Graça Moura (dois volumes), de Maria do Rosário Pedreira (com inéditos) e de João Luís Barreto Guimarães. Houvesse possibilidade, trataria de arranjar um bom lugar para os acolher e o tempo necessário para os desfrutar...)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"Café do Molhe", de Manuel António Pina

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)