quarta-feira, 14 de novembro de 2012

"Celestial", de Álvaro Alves de Faria

Quando tentei ser santo,
queria apenas ser um santo
sem compromisso
de fazer milagres.

Seria uma espécie de santo avulso,
desses que permanecem
desconhecidos no céu
e que só vêem Deus
de muito longe,
sem direito a carro oficial.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

"A Ricardo Reis, no Mar da Galiléia", de Alberto da Costa e Silva

Só dizem os deuses o que logo esquecem,
mas o jogo do céu é amplo e reto,
e cada lance é um coração aberto:

nele não dorme o que se fez desperto,
o eterno é agora e em si mesmo morre,
nunca houve rumo e todo sempre é incerto.

- Não creio, e rezo.

(in Brasil 2000. Antologia de poesia contemporânea brasileira; ed. Alma Azul, 2000)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Soneto XXXIII, dos "35 Sonnets", de Fernando Pessoa

He that goes back does, since he goes, advance,
Though he doth not advance who goeth back,
And he that seeks, though he on nothing chance,
May still by words be said to find a lack.
This paradox of having, that is nought
In the world's meaning of the things it screens,
Is yet true of the substance of pure thought
And there means something by the nought it means.
For thinking nought does on nought being confer,
As giving not is acting not to give,
And, to the same unbribed true thought, to err
Is to find truth, though by its negative.
So why call this world false, if false to be
Be to be aught, and being aught Being to be?

* * *

Quem para trás vai, só por isso avança,
Inda que não avance recuando,
E quem procura, o nada encontrando,
Dele se dirá que o vazio alcança.

Este nada é paradoxo do ter
No sentido em que o mundo o vem velar,
É a vera essência do puro pensar
E algo diz pelo nada dizer.

Se o não dar é o acto de não o dar,
E pensar o nada é reconhecê-lo,
Segundo o mesmo pensamento, errar

É descobrir verdade, não a tendo.
Porquê chamar falso o mundo se, por sê-lo,
É já algo do Ser, por isso sendo?

(in Poesia Inglesa, vol I; Assírio & Alvim, trad. Luísa Freire)

domingo, 4 de novembro de 2012

(Objetos [utópicos] de desejo)

(E além destes três exemplos - os Diários, de Al Berto, Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade, de José Tolentino Mendonça, e A Civilização do Espetáculo, de Mário Vargas Llosa -, ainda vimos por aí (e desejamos, infelizmente sem a possibilidade de os trazer para casa) a poesia reunida de Vasco Graça Moura (dois volumes), de Maria do Rosário Pedreira (com inéditos) e de João Luís Barreto Guimarães. Houvesse possibilidade, trataria de arranjar um bom lugar para os acolher e o tempo necessário para os desfrutar...)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"Café do Molhe", de Manuel António Pina

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Dois versos de Fernando Echevarría

Que ler é umbral de entrarmos no esquecido
que o gesto lento de folhear acorda.

(versos do poema "Livro", in Obra Inacabada; ed. Afrontamento, 2006)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Poema de Nuno Moura

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delirias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)

sábado, 27 de outubro de 2012

"A ponte", de Octavio Paz

Entre instante e instante,
entre eu sou e tu és,
a palavra ponte.

Entras em ti mesma
ao entrar nela:
como um anel
o mundo fecha-se.

De uma margem à outra
há sempre um corpo que se estende,
um arco-íris.

Eu dormirei sob os seus arcos.

(in Antologia Poética; ed. Dom Quixote, 1998)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

"Do poema como contrato social", de José Tolentino Mendonça

Comércio bilingue, o poema precisa da troca,
sobretudo se inútil,
da espontaneidade de poucos, dessa ideia de passagem,
de derrocadas e do silêncio que lhes sucede,
precisa de descendências particularmente radicais
do relâmpago ou de um absurdo ainda maior
para se tornar próximo

O poema é conversa humana
palavra que recuperamos
ao abandonar

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

"O mapa", de José Tolentino Mendonça

aprendido num salmo sufi

Para os teus discípulos não há heresia
nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
a verdade que vem de ti

Insista o herético na sua heresia
e o ortodoxo na sua ortodoxia

O teu fiel é mercador de perfumes
em busca da essência de rosas
do amor divino
eu deambulo

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

"Certeza", de Octavio Paz

Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?

Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.

(in Antologia Poética; ed. Dom Quixote, 1998)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"A ciência do amor", de José Tolentino Mendonça


O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam

(in Estação Central; ed. Assírio &; Alvim, 2012)

sábado, 20 de outubro de 2012

"Os justos", de José Tolentino Mendonça

Começam o dia louvando o imperfeito:
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho

Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio

Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

(Adeus, Manuel...)

Manuel António Pina (18/11/1943 - 19/10/2012)

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,

e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
(Poema retirado do blogue da Assírio & Alvim)

"Isto é o meu corpo", de José Tolentino Mendonça

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)