segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"A ciência do amor", de José Tolentino Mendonça


O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam

(in Estação Central; ed. Assírio &; Alvim, 2012)

sábado, 20 de outubro de 2012

"Os justos", de José Tolentino Mendonça

Começam o dia louvando o imperfeito:
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho

Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio

Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

(Adeus, Manuel...)

Manuel António Pina (18/11/1943 - 19/10/2012)

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,

e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
(Poema retirado do blogue da Assírio & Alvim)

"Isto é o meu corpo", de José Tolentino Mendonça

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar

(in Estação Central; ed. Assírio & Alvim, 2012)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"Arte de amar", de José Saramago

Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

domingo, 23 de setembro de 2012

"No silêncio dos olhos", de José Saramago

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Outro poema de Filipa Leal

Antes de vir para o Vale Formoso,
convidaste-me para almoçar.
Eu já tinha almoçado, mas era tanta a vontade
de te ver que lá fui contigo comer chocos
com tinta.

À mesa no Vale Formoso, e sem fome, às vezes
punha-me a pensar que poderia não ser amor,
mas era certamente alguma coisa séria
o que me fazia almoçar duas vezes
no mesmo dia.

(in Vale Formoso; ed. Deriva, 2012)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Poema de Filipa Leal

No Vale Formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.

No Vale Formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.

No Vale Formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais feliz conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.

(in Vale Formoso; ed. Deriva, 2012)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ainda dois poemas de Albano Martins

Nenhuma orquestra
estreou ainda a sinfonia
concertante das estrelas.

* * *

O chão que pisas agradece
que sejas leve, para que ele um dia
o seja também para ti.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

sábado, 8 de setembro de 2012

Poema de Albano Martins

Para voar,
o vento não precisa
de ter asas.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"Os noivos", de Octavio Paz


Deitados na erva
uma rapariga e um rapaz.
Comem laranjas, tocam beijos
como as ondas trocam suas espumas.

Deitados na praia
uma rapariga e um rapaz.
Comem limões, tocam beijos
como as nuvens trocam suas espumas.

Deitados sob a terra
uma rapariga e um rapaz.
Não dizem nada, não se beijam,
trocam silêncio por silêncio.

(in Antologia Poética; ed. Dom Quixote, 1998)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mais alguns versos de Albano Martins

Dizem às vezes: amanhã
é outro dia. Mas, para alguns,
o outro dia foi ontem.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

De novo, Albano Martins

Também admirável
é o sol: para ele
é sempre dia.

* * *

As estrelas
dormem
de luz acesa.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Albano Martins, mais uns versos

À noite o dia
só pede
algumas horas de repouso.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Romeu a Julieta", de José Saramago

Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)