quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"Arte de amar", de José Saramago

Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

domingo, 23 de setembro de 2012

"No silêncio dos olhos", de José Saramago

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Outro poema de Filipa Leal

Antes de vir para o Vale Formoso,
convidaste-me para almoçar.
Eu já tinha almoçado, mas era tanta a vontade
de te ver que lá fui contigo comer chocos
com tinta.

À mesa no Vale Formoso, e sem fome, às vezes
punha-me a pensar que poderia não ser amor,
mas era certamente alguma coisa séria
o que me fazia almoçar duas vezes
no mesmo dia.

(in Vale Formoso; ed. Deriva, 2012)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Poema de Filipa Leal

No Vale Formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.

No Vale Formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.

No Vale Formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais feliz conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.

(in Vale Formoso; ed. Deriva, 2012)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ainda dois poemas de Albano Martins

Nenhuma orquestra
estreou ainda a sinfonia
concertante das estrelas.

* * *

O chão que pisas agradece
que sejas leve, para que ele um dia
o seja também para ti.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

sábado, 8 de setembro de 2012

Poema de Albano Martins

Para voar,
o vento não precisa
de ter asas.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"Os noivos", de Octavio Paz


Deitados na erva
uma rapariga e um rapaz.
Comem laranjas, tocam beijos
como as ondas trocam suas espumas.

Deitados na praia
uma rapariga e um rapaz.
Comem limões, tocam beijos
como as nuvens trocam suas espumas.

Deitados sob a terra
uma rapariga e um rapaz.
Não dizem nada, não se beijam,
trocam silêncio por silêncio.

(in Antologia Poética; ed. Dom Quixote, 1998)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mais alguns versos de Albano Martins

Dizem às vezes: amanhã
é outro dia. Mas, para alguns,
o outro dia foi ontem.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

De novo, Albano Martins

Também admirável
é o sol: para ele
é sempre dia.

* * *

As estrelas
dormem
de luz acesa.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Albano Martins, mais uns versos

À noite o dia
só pede
algumas horas de repouso.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Romeu a Julieta", de José Saramago

Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

domingo, 12 de agosto de 2012

"Julieta a Romeu", de José Saramago

É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um poema mais de Dinarte Vasconcelos

uma aranha teceu a sua teia
numa agave à janela do meu quarto

eu brincava com ela
deitando-lhe na teia cinzas

dos meus cigarros
mas no fundo queria-lhe bem

[assim como acontece
entre nós humanos]

hoje uma tribo de jardineiros
destruiu-lhe a casa

e pensei que não estava ali
para a proteger

[como acontece
entre nós os humanos]

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Versos de Albano Martins

Do casamento da noite
com o dia é que nasceram
as estrelas.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

domingo, 5 de agosto de 2012

Dois poemas de Albano Martins

(O poemapossivel ficou encantado com o último livro do poeta Albano Martins. Nos próximos dias publicar-se-ão alguns poemas dessa obra.)

A manhã
é um pássaro: não tem asas,
mas voa.

* * *

Os galos cantam. A noite
acorda e diz:
- Bom dia!

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)