quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mais alguns versos de Albano Martins

Dizem às vezes: amanhã
é outro dia. Mas, para alguns,
o outro dia foi ontem.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

De novo, Albano Martins

Também admirável
é o sol: para ele
é sempre dia.

* * *

As estrelas
dormem
de luz acesa.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Albano Martins, mais uns versos

À noite o dia
só pede
algumas horas de repouso.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Romeu a Julieta", de José Saramago

Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

domingo, 12 de agosto de 2012

"Julieta a Romeu", de José Saramago

É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um poema mais de Dinarte Vasconcelos

uma aranha teceu a sua teia
numa agave à janela do meu quarto

eu brincava com ela
deitando-lhe na teia cinzas

dos meus cigarros
mas no fundo queria-lhe bem

[assim como acontece
entre nós humanos]

hoje uma tribo de jardineiros
destruiu-lhe a casa

e pensei que não estava ali
para a proteger

[como acontece
entre nós os humanos]

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Versos de Albano Martins

Do casamento da noite
com o dia é que nasceram
as estrelas.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

domingo, 5 de agosto de 2012

Dois poemas de Albano Martins

(O poemapossivel ficou encantado com o último livro do poeta Albano Martins. Nos próximos dias publicar-se-ão alguns poemas dessa obra.)

A manhã
é um pássaro: não tem asas,
mas voa.

* * *

Os galos cantam. A noite
acorda e diz:
- Bom dia!

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

sábado, 4 de agosto de 2012

(Outras leituras)


(No outro dia falava com alguém sobre o prazer de percorrer as estantes de uma livraria e trazer um livro novo para casa. Nestes últimos tempos, não tenho acolhido muitos livros novos na minha biblioteca - fruto dos tempos difíceis, poder-se-ia acrescentar. Porém, hoje, aproveitando um vale e uma promoção, trouxe comigo a edição integral das Novelas Exemplares, de Cervantes. É um livro que conheço parcialmente - uma vez já li algumas das ditas novelas noutras traduções - e que, desde que vi esta edição, queria ter. Feliz oportunidade... e o livro até já tem, além daquele que estas linhas escreve, outro leitor interessado!)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Poema de Rui Tinoco

tanto sou leitor como
escritor. gosto de brincar
em frente ao espelho, rasgar
o branco com a caneta
para me descobrir do outro
lado, sentado num cadeirão,
a ler atentamente o texto.
como será esse texto?

(in DiVersos. Poesia e tradução, n.º17; ed. Sempre-em-Pé, 2012)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

"patinho feio", de Manuel Silva-Terra

enjeitado
o cisne cantou
dentro do ovo
até morrer

não chegou a ter
marca própria
não deu penas
para adorno

não foi trinchado
na noite de natal

(in DiVersos. Poesia e tradução, n.º17; ed. Sempre-em-Pé, 2012)

sábado, 28 de julho de 2012

"Sobre a areia", de Gastão Cruz

Sair do mar deitar
na areia o corpo como se chamasse
o sonho desta noite tão exacto

na reconstituição do que era
oh alucinação da juventude
aproximar os corpos

(in Observação do Verão; ed. Assírio & Alvim, 2011)

domingo, 15 de julho de 2012

Poema de Vasco Gato

Quantas vezes ouvi o meu pai dizer:
não escolhas muito a roupa com que sais.
A bala que contorna a esquina
não se intimida com a beleza.

(in Resumo - a poesia em 2011; ed. Documenta, 2012)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Poema de Rosa Alice Branco

Atrasei-me ou foste tu
que saíste antes da hora?
A chave é um relógio
eternamente certo.

As dúvidas não cabem na fechadura

(in Concerto ao Vivo; ed. & Etc, 2012)

domingo, 8 de julho de 2012

"Partes de um todo", de Luís Filipe Parrado

Esta tarde, sentado num banco do jardim,
tentava ler um livro difícil
enquanto esperava por ti.
O livro tornava mais dura, mais penosa, a espera.
Então levantei os olhos das páginas,
pousei o livro, vi um homem novo
aproximar-se e passar à minha frente
com um saco de plástico
com maçãs vermelhas numa das mãos
e uma caixa de cartão, com ovos, na outra.
O saco de plástico era transparente
e revelava nitidamente o esplendor e a forma
perfeita das maçãs, todas muito juntas
como partes de um todo.
Não consegui deixar de as olhar,
e tu chegaste logo de seguida.
Só agora, depois do jantar
e da loiça lavada, me lembrei do livro
que ficou no banco do jardim.

(in Resumo - a poesia em 2011; ed. Documenta, 2012)