terça-feira, 14 de agosto de 2012

Albano Martins, mais uns versos

À noite o dia
só pede
algumas horas de repouso.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Romeu a Julieta", de José Saramago

Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

domingo, 12 de agosto de 2012

"Julieta a Romeu", de José Saramago

É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um poema mais de Dinarte Vasconcelos

uma aranha teceu a sua teia
numa agave à janela do meu quarto

eu brincava com ela
deitando-lhe na teia cinzas

dos meus cigarros
mas no fundo queria-lhe bem

[assim como acontece
entre nós humanos]

hoje uma tribo de jardineiros
destruiu-lhe a casa

e pensei que não estava ali
para a proteger

[como acontece
entre nós os humanos]

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Versos de Albano Martins

Do casamento da noite
com o dia é que nasceram
as estrelas.

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

domingo, 5 de agosto de 2012

Dois poemas de Albano Martins

(O poemapossivel ficou encantado com o último livro do poeta Albano Martins. Nos próximos dias publicar-se-ão alguns poemas dessa obra.)

A manhã
é um pássaro: não tem asas,
mas voa.

* * *

Os galos cantam. A noite
acorda e diz:
- Bom dia!

(in Estão agora floridas as magnólias; ed. Afrontamento, 2012)

sábado, 4 de agosto de 2012

(Outras leituras)


(No outro dia falava com alguém sobre o prazer de percorrer as estantes de uma livraria e trazer um livro novo para casa. Nestes últimos tempos, não tenho acolhido muitos livros novos na minha biblioteca - fruto dos tempos difíceis, poder-se-ia acrescentar. Porém, hoje, aproveitando um vale e uma promoção, trouxe comigo a edição integral das Novelas Exemplares, de Cervantes. É um livro que conheço parcialmente - uma vez já li algumas das ditas novelas noutras traduções - e que, desde que vi esta edição, queria ter. Feliz oportunidade... e o livro até já tem, além daquele que estas linhas escreve, outro leitor interessado!)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Poema de Rui Tinoco

tanto sou leitor como
escritor. gosto de brincar
em frente ao espelho, rasgar
o branco com a caneta
para me descobrir do outro
lado, sentado num cadeirão,
a ler atentamente o texto.
como será esse texto?

(in DiVersos. Poesia e tradução, n.º17; ed. Sempre-em-Pé, 2012)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

"patinho feio", de Manuel Silva-Terra

enjeitado
o cisne cantou
dentro do ovo
até morrer

não chegou a ter
marca própria
não deu penas
para adorno

não foi trinchado
na noite de natal

(in DiVersos. Poesia e tradução, n.º17; ed. Sempre-em-Pé, 2012)

sábado, 28 de julho de 2012

"Sobre a areia", de Gastão Cruz

Sair do mar deitar
na areia o corpo como se chamasse
o sonho desta noite tão exacto

na reconstituição do que era
oh alucinação da juventude
aproximar os corpos

(in Observação do Verão; ed. Assírio & Alvim, 2011)

domingo, 15 de julho de 2012

Poema de Vasco Gato

Quantas vezes ouvi o meu pai dizer:
não escolhas muito a roupa com que sais.
A bala que contorna a esquina
não se intimida com a beleza.

(in Resumo - a poesia em 2011; ed. Documenta, 2012)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Poema de Rosa Alice Branco

Atrasei-me ou foste tu
que saíste antes da hora?
A chave é um relógio
eternamente certo.

As dúvidas não cabem na fechadura

(in Concerto ao Vivo; ed. & Etc, 2012)

domingo, 8 de julho de 2012

"Partes de um todo", de Luís Filipe Parrado

Esta tarde, sentado num banco do jardim,
tentava ler um livro difícil
enquanto esperava por ti.
O livro tornava mais dura, mais penosa, a espera.
Então levantei os olhos das páginas,
pousei o livro, vi um homem novo
aproximar-se e passar à minha frente
com um saco de plástico
com maçãs vermelhas numa das mãos
e uma caixa de cartão, com ovos, na outra.
O saco de plástico era transparente
e revelava nitidamente o esplendor e a forma
perfeita das maçãs, todas muito juntas
como partes de um todo.
Não consegui deixar de as olhar,
e tu chegaste logo de seguida.
Só agora, depois do jantar
e da loiça lavada, me lembrei do livro
que ficou no banco do jardim.

(in Resumo - a poesia em 2011; ed. Documenta, 2012)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

"Cantiga de amor", de José Miguel Silva

Quero agora fazer um cantar de amor
à maneira provençal, para contar
aos marcianos quanto valem os teus
dedos nas refregas do amor, quando
todas as províncias do meu corpo
se rebelam contra fomes ancestrais.

Mas sinto que se prepara já outro
levantamento popular nas partes
baixas do país. Preciso de acudir
depressa à cama com lençóis lavados,
pôr o banho a correr, preparar tudo
para mais esta insurreição da carne.
Antes que chegues a casa e me
censures por não ter tomado ainda
as providências necessárias.

É lamentável - assim se vê a lírica
ultrapassada, uma vez mais,
pelas ardentes circunstâncias
da realidade. Aceitem os leitores
o meu sincero pedido de desculpas.
Ficará o cantar de amor à maneira
provençal para mais sóbria ocasião.

(in Resumo - a poesia em 2011; ed. Documenta, 2012)

(Uma cúpula de camisas)

Pormenor de peça construída com roupa em segunda mão.