sexta-feira, 29 de junho de 2012

De novo, um poema de Dinarte Vasconcelos

há dias salvei um poema
do fundo do meu realismo gélido

alinhado e resgatado o eco
mato destarte a estupidez
que a idade traz

um poema há dias pois
e a idade igual
antes e amanhã

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

(Um filme a todos os títulos recomendado)

Pina, filme realizado por Wim Wenders (2011)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

"Os poetas adoram massagens", de Carlos Mota de Oliveira

Os poetas adoram massagens
ficam de papo para o ar
ficam a ver passar navios
ficam à mercê de Deus
ficam em paz
e o resto da Obra
fica por fazer.
Também eu hoje
me fico por aqui
com a «Massagem»
do Fernando Pessoa.

(in Resumo - a poesia em 2011; ed. Documenta, 2012)

terça-feira, 26 de junho de 2012

"O que diz o rato", de A. M. Pires Cabral

Tenho um destino. Nasci
para roer o silêncio - e vou roê-lo
metodicamente

até que um dia se invertam os papéis
e seja o silêncio a roer-me a mim.

(in Resumo - a poesia em 2011; ed. Documenta, 2012)

"O tanque", de José Saramago

Secou a fonte, ou mais distante rega,
Não tem água o tanque abandonado.
Vida que houve aqui, hoje se nega:
Só a taça de pedra se reflecte
Na memória oscilante do passado.

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

Regressando do silêncio com Dinarte Vasconcelos

a horda lânguida
não se apercebe da melodia
que eclode das linhas do teu colo

dos teus eflúvios procedem
a morfologia dos dias

- entre as minhas mãos
uma gramática suja

que não permite dizer-te

[se pudesse dizer-te
que diria eu]

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Um segundo poema de Dinarte Vasconcelos

lembrei-me que dois grãos de areia
são o mínimo para um poema

dois grãos de areia e o imenso atlântico
e o calado de um barco imerso

uma proa e eu o capitão
dois grãos de areia que caem

o galo que canta na manhã a bordo
e o vento cortado pelo mastro

lembrei-me que duas mãos
são o mínimo para um poema

e lembrei-me que um poema
- dois grãos de areia - é o mínimo

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poema de Dinarte Vasconcelos

a melhor poesia é a da tristeza

fica pelo menos assim o intróito
redime-nos de resto a intenção
de sermos tristes a bem da arte

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Versos retirados de "Epístola sobre o mar", de Jorge Sousa Braga

Ninguém é tão avesso
a margens
como o mar


O coração do mar
é um cemitério
de navios e de luar

(...)

Só os meus pés
conhecem o ritmo
das marés

(...)

Noite de breu:
onde acaba o mar
e começa o céu?

(in O Novíssimo Testamento e outros poemas; ed. Assírio & Alvim, 2012)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

"Epístola sobre o silêncio", de Jorge Sousa Braga

Nestas ervas
só o silêncio
se pode deitar


Ninguém ama
tanto o silêncio -
raízes


Uma folha de erva
verga-se sob o
peso de uma palavra


Silêncio - de súbito
o som de duas carriças
fazendo amor


Vento por dentro
Um pensamento
levanta voo


Procura a tua
verdadeira voz
no silêncio


Atento
ao eco
do silêncio


Porque se agitam
as ervas só as ervas
o podem dizer

(in O Novíssimo Testamento e outros poemas; ed. Assírio & Alvim, 2012)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Arte poética", de Manuel Alegre

Nada se sabe
que já não se saiba.

Nada se escreve
que não esteja escrito.

Mas nada se sabe
nada está escrito.

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)

terça-feira, 15 de maio de 2012

"Cidade", de Manuel Alegre

Nas ruas cheias de gente
vi as pessoas desertas.

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)