terça-feira, 26 de junho de 2012

Regressando do silêncio com Dinarte Vasconcelos

a horda lânguida
não se apercebe da melodia
que eclode das linhas do teu colo

dos teus eflúvios procedem
a morfologia dos dias

- entre as minhas mãos
uma gramática suja

que não permite dizer-te

[se pudesse dizer-te
que diria eu]

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Um segundo poema de Dinarte Vasconcelos

lembrei-me que dois grãos de areia
são o mínimo para um poema

dois grãos de areia e o imenso atlântico
e o calado de um barco imerso

uma proa e eu o capitão
dois grãos de areia que caem

o galo que canta na manhã a bordo
e o vento cortado pelo mastro

lembrei-me que duas mãos
são o mínimo para um poema

e lembrei-me que um poema
- dois grãos de areia - é o mínimo

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poema de Dinarte Vasconcelos

a melhor poesia é a da tristeza

fica pelo menos assim o intróito
redime-nos de resto a intenção
de sermos tristes a bem da arte

(in a viagem - a casa; ed. autor, 2012)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Versos retirados de "Epístola sobre o mar", de Jorge Sousa Braga

Ninguém é tão avesso
a margens
como o mar


O coração do mar
é um cemitério
de navios e de luar

(...)

Só os meus pés
conhecem o ritmo
das marés

(...)

Noite de breu:
onde acaba o mar
e começa o céu?

(in O Novíssimo Testamento e outros poemas; ed. Assírio & Alvim, 2012)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

"Epístola sobre o silêncio", de Jorge Sousa Braga

Nestas ervas
só o silêncio
se pode deitar


Ninguém ama
tanto o silêncio -
raízes


Uma folha de erva
verga-se sob o
peso de uma palavra


Silêncio - de súbito
o som de duas carriças
fazendo amor


Vento por dentro
Um pensamento
levanta voo


Procura a tua
verdadeira voz
no silêncio


Atento
ao eco
do silêncio


Porque se agitam
as ervas só as ervas
o podem dizer

(in O Novíssimo Testamento e outros poemas; ed. Assírio & Alvim, 2012)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Arte poética", de Manuel Alegre

Nada se sabe
que já não se saiba.

Nada se escreve
que não esteja escrito.

Mas nada se sabe
nada está escrito.

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)

terça-feira, 15 de maio de 2012

"Cidade", de Manuel Alegre

Nas ruas cheias de gente
vi as pessoas desertas.

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

(In memoriam - Bernardo Sassetti)

O poemapossivel preferia não ter que prestar homenagem (cheia de admiração pela sua música) a Bernardo Sassetti (1970-2012).

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"A propulsão dos versos", de João Rui de Sousa

A eclosão dos versos acompanha
a propulsão das naves.

Embora ligados ao terrestre
de um chão de traves fundas,
afundadas na pedra e na armadura
de duras construções,
os versos também seguem (quase erectos)
do ponto zero de arranque às aves
do futuro - da matéria do mundo
a um destino cego.

(in Quarteto para as próximas chuvas; ed. Dom Quixote, 2008)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

"Destino", de José Saramago

Risco no chão um traço, à beira água:
Não tarda que a maré o deixe raso.
Tal e qual o poema. É comum sorte
Que areias e poemas tanto valham
Ao vaivém da maré, vem-vem da morte.

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

sábado, 5 de maio de 2012

"A casa", de Manuel Alegre

(Para nós)

A casa tem a nossa vida
a casa está cheia de nós
de coisas arrumadas e desarrumadas
tapetes sapatos livros
retratos discos
quadros
as naturezas mortas estão todas vivas
alimentam-se de nós
e há móveis que foram de outras casas
e de pessoas que fomos nós antes de nós
a casa tem seus ritos e seus ritmos
canetas de tinta permanente
cadernos e papéis sobre a secretária
madeiras e paredes connosco dentro
a mesa com seus talheres e seus copos
e o nosso pão e o nosso vinho
camas por fazer e camas já vestidas
cadeiras onde nos sentamos
e mesmo sem nós ficam sentadas
a casa com seus passos e seu espaço
de silêncios
a casa com sua fala
a casa com sua alma.

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"Depois do branco", de Manuel Alegre

Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?

Quem sabe o que pode acontecer
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?

Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)