Fotografia de Nuno Ramos (http://www.facebook.com/nunoramosfotografia)
sexta-feira, 18 de maio de 2012
quinta-feira, 17 de maio de 2012
"Arte poética", de Manuel Alegre
Nada se sabe
que já não se saiba.
Nada se escreve
que não esteja escrito.
Mas nada se sabe
nada está escrito.
que já não se saiba.
Nada se escreve
que não esteja escrito.
Mas nada se sabe
nada está escrito.
(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)
terça-feira, 15 de maio de 2012
"Cidade", de Manuel Alegre
Nas ruas cheias de gente
vi as pessoas desertas.
vi as pessoas desertas.
(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)
sexta-feira, 11 de maio de 2012
(In memoriam - Bernardo Sassetti)
O poemapossivel preferia não ter que prestar homenagem (cheia de admiração pela sua música) a Bernardo Sassetti (1970-2012).
quinta-feira, 10 de maio de 2012
"A propulsão dos versos", de João Rui de Sousa
A eclosão dos versos acompanha
a propulsão das naves.
Embora ligados ao terrestre
de um chão de traves fundas,
afundadas na pedra e na armadura
de duras construções,
os versos também seguem (quase erectos)
do ponto zero de arranque às aves
do futuro - da matéria do mundo
a um destino cego.
a propulsão das naves.
Embora ligados ao terrestre
de um chão de traves fundas,
afundadas na pedra e na armadura
de duras construções,
os versos também seguem (quase erectos)
do ponto zero de arranque às aves
do futuro - da matéria do mundo
a um destino cego.
(in Quarteto para as próximas chuvas; ed. Dom Quixote, 2008)
segunda-feira, 7 de maio de 2012
"Destino", de José Saramago
Risco no chão um traço, à beira água:
Não tarda que a maré o deixe raso.
Tal e qual o poema. É comum sorte
Que areias e poemas tanto valham
Ao vaivém da maré, vem-vem da morte.
Não tarda que a maré o deixe raso.
Tal e qual o poema. É comum sorte
Que areias e poemas tanto valham
Ao vaivém da maré, vem-vem da morte.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)
sábado, 5 de maio de 2012
"A casa", de Manuel Alegre
(Para nós)
A casa tem a nossa vida
a casa está cheia de nós
de coisas arrumadas e desarrumadas
tapetes sapatos livros
retratos discos
quadros
as naturezas mortas estão todas vivas
alimentam-se de nós
e há móveis que foram de outras casas
e de pessoas que fomos nós antes de nós
a casa tem seus ritos e seus ritmos
canetas de tinta permanente
cadernos e papéis sobre a secretária
madeiras e paredes connosco dentro
a mesa com seus talheres e seus copos
e o nosso pão e o nosso vinho
camas por fazer e camas já vestidas
cadeiras onde nos sentamos
e mesmo sem nós ficam sentadas
a casa com seus passos e seu espaço
de silêncios
a casa com sua fala
a casa com sua alma.
(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)
quinta-feira, 3 de maio de 2012
"Depois do branco", de Manuel Alegre
Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?
Quem sabe o que pode acontecer
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?
Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?
Quem sabe o que pode acontecer
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?
Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?
(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)
terça-feira, 1 de maio de 2012
"Poema quase metafísico", de Manuel Alegre
Dizem que sou uma organização de água e de carbono
mas ninguém me diz o antes e o depois
nem de onde vem a música e a palavra
ninguém me diz o ritmo e a pergunta
que sem cessar se repete e não encontra
nem água nem carbono nem resposta
apenas o sussuro das marés
e as areias as ondas a cadência
ou o vento que vem do mar e a breve queixa
de quem água e carbono apenas deixa
em cada poema o eco de uma ausência.
mas ninguém me diz o antes e o depois
nem de onde vem a música e a palavra
ninguém me diz o ritmo e a pergunta
que sem cessar se repete e não encontra
nem água nem carbono nem resposta
apenas o sussuro das marés
e as areias as ondas a cadência
ou o vento que vem do mar e a breve queixa
de quem água e carbono apenas deixa
em cada poema o eco de uma ausência.
(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Poema de Rui Tinoco (inédito)
o escritor foi apanhado totalmente
de surpresa: os seus personagens
sentaram-se num largo, lá
para o quinto capítulo, e todos
eles começaram a ler diferentes
livros. foi um enorme desafio
descrever tudo isso: reabriu
então o caderno, escreveu uma ou duas
frases, mas a obra parecia maior
do que ele...
de surpresa: os seus personagens
sentaram-se num largo, lá
para o quinto capítulo, e todos
eles começaram a ler diferentes
livros. foi um enorme desafio
descrever tudo isso: reabriu
então o caderno, escreveu uma ou duas
frases, mas a obra parecia maior
do que ele...
domingo, 29 de abril de 2012
"Processo", de José Saramago
A todos os poetas que nos iluminam, iluminando as palavras
As palavras mais simples, mais comuns,
As de trazer por casa e dar de troco,
Em língua doutro mundo se convertem:
Basta que, de sol, os olhos do poeta,
Rasando, as iluminem.
(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)
sábado, 28 de abril de 2012
terça-feira, 24 de abril de 2012
(Versos de Gonçalo M. Tavares que se referem a um país)
Ausência de indústria e de fábricas significativas,
eis a higiene de um país como o nosso.
E quando não há chaminés importantes
até o fumo do cigarro conta para efeitos estatísticos.
Não é grande nem é enorme mas é simpático, este país.
Dois lados dão para a terra, dois lados para o mar.
E a coisa assim quase dá certo.
eis a higiene de um país como o nosso.
E quando não há chaminés importantes
até o fumo do cigarro conta para efeitos estatísticos.
Não é grande nem é enorme mas é simpático, este país.
Dois lados dão para a terra, dois lados para o mar.
E a coisa assim quase dá certo.
(in Uma Viagem à Índia, versos do Canto III, estrofe 21; ed. Caminho)
quarta-feira, 18 de abril de 2012
"Mar", de Laureano Silveira
Há um retrato de grupo muito particular
que me é especialmente caro,
algo assombroso
e que eu guardo em frente
a certos livros, numa estante
que confina com a passagem para a varanda
de onde se avista o mar
em minha casa.
Quando o olho vejo o mar
que instantaneamente assalta
a periferia da visão
e perturba levemente
a relação de transparência
que eu desejaria estabelecer
com as personagens.
Quando, pelo contrário, olho o mar
vejo-as a elas
e as figuras ascendem à condição de viventes
na reminiscência
e na memória.
E contudo
eu desconheço-as.
Formam um grupo anónimo
que recortei de um lugar
onde as acompanhava a sua história.
Que não li.
São três homens de meia idade,
duas jovens mulheres,
uma criança.
Não sei porque os amo.
Sei que estão todos mortos.
que me é especialmente caro,
algo assombroso
e que eu guardo em frente
a certos livros, numa estante
que confina com a passagem para a varanda
de onde se avista o mar
em minha casa.
Quando o olho vejo o mar
que instantaneamente assalta
a periferia da visão
e perturba levemente
a relação de transparência
que eu desejaria estabelecer
com as personagens.
Quando, pelo contrário, olho o mar
vejo-as a elas
e as figuras ascendem à condição de viventes
na reminiscência
e na memória.
E contudo
eu desconheço-as.
Formam um grupo anónimo
que recortei de um lugar
onde as acompanhava a sua história.
Que não li.
São três homens de meia idade,
duas jovens mulheres,
uma criança.
Não sei porque os amo.
Sei que estão todos mortos.
(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)
sábado, 14 de abril de 2012
Uns versos mais de Gonçalo M. Tavares
Diga-se que há problemas de poesia mais difíceis
que complicadíssimos problemas de álgebra.
Se a álgebra é uma religião rigorosa,
a poesia será uma religião excessiva, religião entre
a embriaguez e um espaço onde
as mais belas músicas descansam
antes de novamente conquistarem o ar.
Os problemas de poesia colocam questões
aos mais desprotegidos sítios da existência
de um homem.
que complicadíssimos problemas de álgebra.
Se a álgebra é uma religião rigorosa,
a poesia será uma religião excessiva, religião entre
a embriaguez e um espaço onde
as mais belas músicas descansam
antes de novamente conquistarem o ar.
Os problemas de poesia colocam questões
aos mais desprotegidos sítios da existência
de um homem.
(in Uma Viagem à Índia, versos do Canto II, estrofe 50; ed. Caminho)
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