segunda-feira, 7 de maio de 2012

"Destino", de José Saramago

Risco no chão um traço, à beira água:
Não tarda que a maré o deixe raso.
Tal e qual o poema. É comum sorte
Que areias e poemas tanto valham
Ao vaivém da maré, vem-vem da morte.

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

sábado, 5 de maio de 2012

"A casa", de Manuel Alegre

(Para nós)

A casa tem a nossa vida
a casa está cheia de nós
de coisas arrumadas e desarrumadas
tapetes sapatos livros
retratos discos
quadros
as naturezas mortas estão todas vivas
alimentam-se de nós
e há móveis que foram de outras casas
e de pessoas que fomos nós antes de nós
a casa tem seus ritos e seus ritmos
canetas de tinta permanente
cadernos e papéis sobre a secretária
madeiras e paredes connosco dentro
a mesa com seus talheres e seus copos
e o nosso pão e o nosso vinho
camas por fazer e camas já vestidas
cadeiras onde nos sentamos
e mesmo sem nós ficam sentadas
a casa com seus passos e seu espaço
de silêncios
a casa com sua fala
a casa com sua alma.

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"Depois do branco", de Manuel Alegre

Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?

Quem sabe o que pode acontecer
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?

Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)

terça-feira, 1 de maio de 2012

"Poema quase metafísico", de Manuel Alegre

Dizem que sou uma organização de água e de carbono
mas ninguém me diz o antes e o depois
nem de onde vem a música e a palavra
ninguém me diz o ritmo e a pergunta
que sem cessar se repete e não encontra
nem água nem carbono nem resposta
apenas o sussuro das marés
e as areias as ondas a cadência
ou o vento que vem do mar e a breve queixa
de quem água e carbono apenas deixa
em cada poema o eco de uma ausência.

(in Nada está escrito; ed. D. Quixote, 2012)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Poema de Rui Tinoco (inédito)

o escritor foi apanhado totalmente
de surpresa: os seus personagens
sentaram-se num largo, lá
para o quinto capítulo, e todos
eles começaram a ler diferentes
livros. foi um enorme desafio
descrever tudo isso: reabriu
então o caderno, escreveu uma ou duas
frases, mas a obra parecia maior
do que ele...

domingo, 29 de abril de 2012

"Processo", de José Saramago

 A todos os poetas que nos iluminam, iluminando as palavras

As palavras mais simples, mais comuns,
As de trazer por casa e dar de troco,
Em língua doutro mundo se convertem:
Basta que, de sol, os olhos do poeta,
Rasando, as iluminem.

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

terça-feira, 24 de abril de 2012

(Versos de Gonçalo M. Tavares que se referem a um país)

Ausência de indústria e de fábricas significativas,
eis a higiene de um país como o nosso.
E quando não há chaminés importantes
até o fumo do cigarro conta para efeitos estatísticos.
Não é grande nem é enorme mas é simpático, este país.
Dois lados dão para a terra, dois lados para o mar.
E a coisa assim quase dá certo.

(in Uma Viagem à Índia, versos do Canto III, estrofe 21; ed. Caminho)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

"Mar", de Laureano Silveira

Há um retrato de grupo muito particular
que me é especialmente caro,
algo assombroso
e que eu guardo em frente
a certos livros, numa estante
que confina com a passagem para a varanda
de onde se avista o mar
em minha casa.

Quando o olho vejo o mar
que instantaneamente assalta
a periferia da visão
e perturba levemente
a relação de transparência
que eu desejaria estabelecer
com as personagens.

Quando, pelo contrário, olho o mar
vejo-as a elas
e as figuras ascendem à condição de viventes
na reminiscência
e na memória.

E contudo
eu desconheço-as.
Formam um grupo anónimo
que recortei de um lugar
onde as acompanhava a sua história.
Que não li.

São três homens de meia idade,
duas jovens mulheres,
uma criança.

Não sei porque os amo.
Sei que estão todos mortos.

(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)

sábado, 14 de abril de 2012

Uns versos mais de Gonçalo M. Tavares

Diga-se que há problemas de poesia mais difíceis
que complicadíssimos problemas de álgebra.
Se a álgebra é uma religião rigorosa,
a poesia será uma religião excessiva, religião entre
a embriaguez e um espaço onde
as mais belas músicas descansam
antes de novamente conquistarem o ar.
Os problemas de poesia colocam questões
aos mais desprotegidos sítios da existência
de um homem.

(in Uma Viagem à Índia, versos do Canto II, estrofe 50; ed. Caminho)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Uma estrofe de "Uma Viagem à Índia", de Gonçalo M. Tavares

(Um livro que gostaria de ter na minha biblioteca, mas que a magreza do tempo presente não permite. Existem, felizmente, as bibliotecas dos outros).

De resto, se uma cara tem duas metades
- uma bela, outra medrosa -,
os inimigos só vêem o medo
e os amantes, o belo.
São no fundo duas cegueiras
particulares,
especializações que surgem (espontâneas)
em certos instantes.

(in Uma Viagem à Índia, Canto I, estrofe 17; ed. Caminho)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

(Ao nível do solo)

Fotografia de Nuno Ramos

"Já que toda a vida será morte", de Reinaldo Arenas

Já que toda a vida será morte,
já que da morte surgirá a vida,
nascer é viver para a morte?
morrer, é confirmar a vida?

Mas quando tudo é morte sendo vida
e toda a vida é um caudal de morte:
morrer, é escolher a vida?
viver, é aceitar a morte?

Quando a morte cinge a nossa vida
que não só foi vida, mas também morte
(vida porque culmina com a morte,

morte porque soubemos o que é a vida),
que nova vida surge dessa morte?
que morte é essa que engendra a vida?

(in Poesia Cubana Contemporânea. Dez Poetas; trad. Jorge Melícias; ed. Antígona, 2009)

terça-feira, 3 de abril de 2012

"Quando lhe disseram", de Reinaldo Arenas

__Quando lhe disseram que estava vigiado
que à noite quando ele saía
alguém com uma chave-mestra entrava na habitação
e remexia nos frascos de aspirina
e nos consabidos, indiferentes, livros;
__quando lhe disseram que dezenas de polícias
em sua honra se afadigavam,
que tinham conseguido subornar os seus familiares mais
__chegados,
que os seus amigos íntimos
ocultavam atrás dos testículos pequenos livretes
onde anotavam os seus silêncios e vírgulas,
_______________________não sentiu medo,
mas sim uma certa sensação de enfado
que instantaneamente soube controlar:
Não vão conseguir, prometeu a si mesmo, que me considere
__importante.

(in Poesia Cubana Contemporânea. Dez Poetas; trad. Jorge Melícias; ed. Antígona, 2009)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

"Apologia do sonho", de João Rui de Sousa

Que do sono só se salva o sonho
quando, sendo penosa a cadência dos dias,
esse sonho se torna licor inebriante
que por dentro nos lava ou rasura o frio
de viajar por entre as catacumbas.

Que esse sonho salva, bem sabemos,
nas tão difíceis contas a prestar
à razão mais corrente e à voz mesquinha:
dizerem que dormir é descansar
para voltar - sem sonho - à mesma vinha
que, no dia-a-dia, se tem de amanhar...

(in Quarteto para as próximas chuvas; ed. Dom Quixote, 2008)