segunda-feira, 30 de abril de 2012

Poema de Rui Tinoco (inédito)

o escritor foi apanhado totalmente
de surpresa: os seus personagens
sentaram-se num largo, lá
para o quinto capítulo, e todos
eles começaram a ler diferentes
livros. foi um enorme desafio
descrever tudo isso: reabriu
então o caderno, escreveu uma ou duas
frases, mas a obra parecia maior
do que ele...

domingo, 29 de abril de 2012

"Processo", de José Saramago

 A todos os poetas que nos iluminam, iluminando as palavras

As palavras mais simples, mais comuns,
As de trazer por casa e dar de troco,
Em língua doutro mundo se convertem:
Basta que, de sol, os olhos do poeta,
Rasando, as iluminem.

(in Os Poemas Possíveis; ed. Caminho)

terça-feira, 24 de abril de 2012

(Versos de Gonçalo M. Tavares que se referem a um país)

Ausência de indústria e de fábricas significativas,
eis a higiene de um país como o nosso.
E quando não há chaminés importantes
até o fumo do cigarro conta para efeitos estatísticos.
Não é grande nem é enorme mas é simpático, este país.
Dois lados dão para a terra, dois lados para o mar.
E a coisa assim quase dá certo.

(in Uma Viagem à Índia, versos do Canto III, estrofe 21; ed. Caminho)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

"Mar", de Laureano Silveira

Há um retrato de grupo muito particular
que me é especialmente caro,
algo assombroso
e que eu guardo em frente
a certos livros, numa estante
que confina com a passagem para a varanda
de onde se avista o mar
em minha casa.

Quando o olho vejo o mar
que instantaneamente assalta
a periferia da visão
e perturba levemente
a relação de transparência
que eu desejaria estabelecer
com as personagens.

Quando, pelo contrário, olho o mar
vejo-as a elas
e as figuras ascendem à condição de viventes
na reminiscência
e na memória.

E contudo
eu desconheço-as.
Formam um grupo anónimo
que recortei de um lugar
onde as acompanhava a sua história.
Que não li.

São três homens de meia idade,
duas jovens mulheres,
uma criança.

Não sei porque os amo.
Sei que estão todos mortos.

(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)

sábado, 14 de abril de 2012

Uns versos mais de Gonçalo M. Tavares

Diga-se que há problemas de poesia mais difíceis
que complicadíssimos problemas de álgebra.
Se a álgebra é uma religião rigorosa,
a poesia será uma religião excessiva, religião entre
a embriaguez e um espaço onde
as mais belas músicas descansam
antes de novamente conquistarem o ar.
Os problemas de poesia colocam questões
aos mais desprotegidos sítios da existência
de um homem.

(in Uma Viagem à Índia, versos do Canto II, estrofe 50; ed. Caminho)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Uma estrofe de "Uma Viagem à Índia", de Gonçalo M. Tavares

(Um livro que gostaria de ter na minha biblioteca, mas que a magreza do tempo presente não permite. Existem, felizmente, as bibliotecas dos outros).

De resto, se uma cara tem duas metades
- uma bela, outra medrosa -,
os inimigos só vêem o medo
e os amantes, o belo.
São no fundo duas cegueiras
particulares,
especializações que surgem (espontâneas)
em certos instantes.

(in Uma Viagem à Índia, Canto I, estrofe 17; ed. Caminho)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

(Ao nível do solo)

Fotografia de Nuno Ramos

"Já que toda a vida será morte", de Reinaldo Arenas

Já que toda a vida será morte,
já que da morte surgirá a vida,
nascer é viver para a morte?
morrer, é confirmar a vida?

Mas quando tudo é morte sendo vida
e toda a vida é um caudal de morte:
morrer, é escolher a vida?
viver, é aceitar a morte?

Quando a morte cinge a nossa vida
que não só foi vida, mas também morte
(vida porque culmina com a morte,

morte porque soubemos o que é a vida),
que nova vida surge dessa morte?
que morte é essa que engendra a vida?

(in Poesia Cubana Contemporânea. Dez Poetas; trad. Jorge Melícias; ed. Antígona, 2009)

terça-feira, 3 de abril de 2012

"Quando lhe disseram", de Reinaldo Arenas

__Quando lhe disseram que estava vigiado
que à noite quando ele saía
alguém com uma chave-mestra entrava na habitação
e remexia nos frascos de aspirina
e nos consabidos, indiferentes, livros;
__quando lhe disseram que dezenas de polícias
em sua honra se afadigavam,
que tinham conseguido subornar os seus familiares mais
__chegados,
que os seus amigos íntimos
ocultavam atrás dos testículos pequenos livretes
onde anotavam os seus silêncios e vírgulas,
_______________________não sentiu medo,
mas sim uma certa sensação de enfado
que instantaneamente soube controlar:
Não vão conseguir, prometeu a si mesmo, que me considere
__importante.

(in Poesia Cubana Contemporânea. Dez Poetas; trad. Jorge Melícias; ed. Antígona, 2009)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

"Apologia do sonho", de João Rui de Sousa

Que do sono só se salva o sonho
quando, sendo penosa a cadência dos dias,
esse sonho se torna licor inebriante
que por dentro nos lava ou rasura o frio
de viajar por entre as catacumbas.

Que esse sonho salva, bem sabemos,
nas tão difíceis contas a prestar
à razão mais corrente e à voz mesquinha:
dizerem que dormir é descansar
para voltar - sem sonho - à mesma vinha
que, no dia-a-dia, se tem de amanhar...

(in Quarteto para as próximas chuvas; ed. Dom Quixote, 2008)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Outro poema de Francisco José Viegas

Os amigos vêm uma vez ou outra e sentam-se,
mostram-te como são dóceis ou difíceis, ou
como a morte se impede, por eles, de chegar
até ti. São uma barreira contra a morte,

os amigos, acaricias vagamente o seu rosto
ou a sua memória, as palavras não servem
para isso. Por eles vem a geometria do mundo,
neles se perde depois, nem que seja para sempre.

Vê como eles chegam e trazem vinho, tabaco,
vergonha, cartas antigas, recortes de jornais,
músicas que ouvimos antes. Depois sentam-se

chamam-te para o meio deles, emprestam-te
uma palavra ou outra, caminham com vagar,
riem, trazem coisas que esqueces por toda a casa.

(in O Puro e o Impuro; ed. Quase, 2003)

quinta-feira, 29 de março de 2012

Poema de Francisco José Viegas

Essa velha ciência, a de esperar, escreve-la
em cadernos retirados a cada viagem. Neles
anotaste os movimentos do mundo, o balanço
do mar. São só velhos, os cadernos; ainda

escreves à mão, ainda respiras por ele,
ciência antiga - onde a conservas? Linha
a linha as viagens vão passando por eles como
um mapa: aqui as ilhas, ali pequenos continentes,

provas de que o mundo não acaba à tua porta
quando o jardim desaparece entre os granitos.
Levantas a voz uma vez por outra, mas não é

isso que te interessa. Gostavas apenas que
os cadernos ficassem, gravados de ti e de quem amas,
guardados em gavetas, guardando o mundo.

(in O Puro e o Impuro; ed. Quasi, 2003)

quarta-feira, 28 de março de 2012

"Loa ao Porto", de António Manuel Couto Viana

Que impulso de dizer-te pátria, Porto:
O corpo amuralhado de granito,
Cabelo d'água, à névoa, ao vento, exposto,
Face esculpida em grito.

Braços de ferro, arqueados, desmedidos,
Sobre o fluir dos barcos e do barro.
E um rumor antigo
Na voz das tuas ruas e mercados.

Vestes de escuro e enfeitas-te de luzes
Antes do Sol perder seu oiro pálido.
E das torres com sinos e com cruzes
acenas ao mar largo.

Bulícios de cafés (há mais de mil)
Entornam-te nas veias graça e fogo.
E o lírico torpor dos teus jardins
Suspiros e repouso.

Que impulso de dizer-te pátria, Porto:
Coração não de Pedro, mas de pedra
Com sangue fértil, vinho generoso
A gerar alma e terra.

(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)

segunda-feira, 26 de março de 2012

"Estou aqui", de Eugénio de Andrade

Estou aqui sentado - ali o mar,
as palmeiras.
O leite fresco, o pão na mesa.
O gesto sempre igual
da luz, o mesmo olhar da ave.
Existe uma secreta harmonia
entre a luz e o mar,
a mesma provavelmente
entre a palmeira e a ave,
o leite e o pão.
E com a palavra, o seu
voo a prumo,
com a palavra qual é a relação?

(in Ao Porto. Colectânea de Poesia sobre o Porto; ed. Dom Quixote, 2001)