domingo, 25 de março de 2012
"As flores", Sophia de Mello Breyner Andresen
Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.
(in No Tempo Dividido; ed. Caminho)
quarta-feira, 21 de março de 2012
(Uma recomendação para o Dia Mundial da Poesia)
"Dia", de Sophia de Mello Breyner Andresen
Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.
(in No Tempo Dividido; ed. Caminho)
segunda-feira, 19 de março de 2012
"Tarde", de Sophia de Mello Breyner Andresen
O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas
Nada tem de comum com as gaivotas
(in No Tempo Dividido; ed. Caminho)
domingo, 18 de março de 2012
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
(Lampejo)
(Após um silêncio de três ou quatro anos, recomeçou a escrever. Nada de relevo, diga-se, mas só o reaparecimento do impulso para jogar com as palavras o intrigou. Julgava ter-se aposentado o escrevinhador, ou mesmo estar morto, mas afinal não; de alguma forma parecia ter sobrevivido, e a menos que fosse uma aparição fulgurante, de imediato revelou a sua tendência para a catástrofe).
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Poema de Fiama Hasse Pais Brandão
Para a AJ
Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.
(in Âmago. Antologia; ed. Assírio & Alvim, 2010)
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
"Tâmara", de Fiama Hasse Pais Brandão
Pura circunstância trazerem-me
num cesto levíssimo as tâmaras.
Com a boca peso três sílabas.
Com os olhos sou ávida.
Com as mãos repouso e saboreio
os frutos translúcidos.
num cesto levíssimo as tâmaras.
Com a boca peso três sílabas.
Com os olhos sou ávida.
Com as mãos repouso e saboreio
os frutos translúcidos.
(in Âmago. Antologia; ed. Assírio & Alvim, 2010)
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
"A morte saiu à rua", de José Afonso
(O poemapossivel lembra José Afonso, no dia em que passam 25 anos do seu desaparecimento)
A morte
Saiu à rua
Num dia assim
Naquele
Lugar sem nome
P'ra qualquer fim
Uma
Gota rubra sobre a calçada
Cai
E um rio
De sangue
Dum
Peito aberto
Sai
O vento
Que dá nas canas
Do canavial
E a foice
Duma ceifeira
De Portugal
E o som
Da bigorna
Como
Um clarim do céu
Vão dizendo
em toda a parte
O pintor morreu
Teu sangue,
Pintor, reclama
Outra morte
Igual
Só olho
Por olho e
Dente por dente
Vale
À lei assassina
À morte
Que te matou
Teu corpo
Pertence à terra
Que te abraçou
Aqui
Te afirmamos
Dente por dente
Assim
Que um dia
Rirá melhor
Quem rirá
Por fim
Na curva
Da estrada
Há covas
Feitas no chão
E em todas
Florirão rosas
Duma nação
(in Textos e Canções; Assírio & Alvim, 1988)
domingo, 19 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Poema de Fernando Echevarría
Cada dia nos dê o nosso pão
e comê-lo nos abra aquela casa
de inteligência e coração
onde sentar-se é mesa rasa
de ver quantos não estão
sentados nessa casa.
E comer se ilumina, e abre-se portão,
ou qualquer coisa de brasa
entra no movimento e na palavra,
como se cada gesto e cada som
fosse uma leitura que se abra
dentro da história de não haver senão
a de estarmos à mesa da palavra,
transparentes, à luz de se partir o pão.
e comê-lo nos abra aquela casa
de inteligência e coração
onde sentar-se é mesa rasa
de ver quantos não estão
sentados nessa casa.
E comer se ilumina, e abre-se portão,
ou qualquer coisa de brasa
entra no movimento e na palavra,
como se cada gesto e cada som
fosse uma leitura que se abra
dentro da história de não haver senão
a de estarmos à mesa da palavra,
transparentes, à luz de se partir o pão.
(in Obra Inacabada; Afrontamento, 2006)
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
"A meias", de João Luís Barreto Guimarães
Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.
(in Poesia Reunida; Quetzal, 2011)
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
"Desculpas não faltam", de José Miguel Silva
Uma casa junto ao Vouga,
rio de água suficiente,
onde apenas se mergulha
até à cintura, a pequena horta
de Virgílio, o amor robustecido
por nenhuma esperança
e tantos livros para ler
- que desculpa vou agora dar
para não ser feliz?
rio de água suficiente,
onde apenas se mergulha
até à cintura, a pequena horta
de Virgílio, o amor robustecido
por nenhuma esperança
e tantos livros para ler
- que desculpa vou agora dar
para não ser feliz?
(in Sérem, 24 de Março; Averno, 2011)
Subscrever:
Mensagens (Atom)


