quarta-feira, 21 de março de 2012

"Dia", de Sophia de Mello Breyner Andresen

Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.

(in No Tempo Dividido; ed. Caminho)

segunda-feira, 19 de março de 2012

domingo, 18 de março de 2012

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Não procures verdade no que sabes
Nem destino procures nos teus gestos
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
(in No Tempo Dividido; ed. Caminho)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

(Lampejo)

(Após um silêncio de três ou quatro anos, recomeçou a escrever. Nada de relevo, diga-se, mas só o reaparecimento do impulso para jogar com as palavras o intrigou. Julgava ter-se aposentado o escrevinhador, ou mesmo estar morto, mas afinal não; de alguma forma parecia ter sobrevivido, e a menos que fosse uma aparição fulgurante, de imediato revelou a sua tendência para a catástrofe).

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

Para a AJ

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

(in Âmago. Antologia; ed. Assírio & Alvim, 2010)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Tâmara", de Fiama Hasse Pais Brandão

Pura circunstância trazerem-me
num cesto levíssimo as tâmaras.
Com a boca peso três sílabas.
Com os olhos sou ávida.
Com as mãos repouso e saboreio
os frutos translúcidos.

(in Âmago. Antologia; ed. Assírio & Alvim, 2010)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"A morte saiu à rua", de José Afonso

(O poemapossivel lembra José Afonso, no dia em que passam 25 anos do seu desaparecimento)



A morte
Saiu à rua
Num dia assim
Naquele
Lugar sem nome
P'ra qualquer fim

Uma
Gota rubra sobre a calçada
Cai

E um rio
De sangue
Dum
Peito aberto
Sai

O vento
Que dá nas canas
Do canavial

E a foice
Duma ceifeira
De Portugal

E o som
Da bigorna
Como
Um clarim do céu

Vão dizendo
em toda a parte
O pintor morreu

Teu sangue,
Pintor, reclama
Outra morte
Igual

Só olho
Por olho e
Dente por dente
Vale

À lei assassina
À morte
Que te matou

Teu corpo
Pertence à terra
Que te abraçou

Aqui
Te afirmamos
Dente por dente
Assim

Que um dia
Rirá melhor
Quem rirá
Por fim

Na curva
Da estrada
Há covas
Feitas no chão

E em todas
Florirão rosas
Duma nação

(in Textos e Canções; Assírio & Alvim, 1988)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Poema de Fernando Echevarría

Cada dia nos dê o nosso pão
e comê-lo nos abra aquela casa
de inteligência e coração
onde sentar-se é mesa rasa

de ver quantos não estão
sentados nessa casa.
E comer se ilumina, e abre-se portão,
ou qualquer coisa de brasa

entra no movimento e na palavra,
como se cada gesto e cada som
fosse uma leitura que se abra

dentro da história de não haver senão
a de estarmos à mesa da palavra,
transparentes, à luz de se partir o pão.

(in Obra Inacabada; Afrontamento, 2006)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"A meias", de João Luís Barreto Guimarães

Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.

(in Poesia Reunida; Quetzal, 2011)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"Desculpas não faltam", de José Miguel Silva

Uma casa junto ao Vouga,
rio de água suficiente,
onde apenas se mergulha
até à cintura, a pequena horta
de Virgílio, o amor robustecido
por nenhuma esperança
e tantos livros para ler
- que desculpa vou agora dar
para não ser feliz?

(in Sérem, 24 de Março; Averno, 2011)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"A caminho do fogão", de José Miguel Silva

Adoro essa paixão absurda que tens por Hitchcock,
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálogos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja
de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.

(in Sérem, 24 de Março; Averno, 2011)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"Preocupações naturais", de José Miguel Silva

Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo as horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.

(in Sérem, 24 de Março; Averno, 2011)