sábado, 7 de janeiro de 2012

Um poema mais de Amadeu Baptista

Eu era um ser delicado, mas a voz que tinha
estava impregnada de resquícios de profunda grosseria,
quem me ouvisse pensava que eu estava a morrer,
as minhas palavras enchias a jactância do teu peito
e amedrontavam o carinho dos simples que me acompanhavam.

As palavras fluíam da minha boca com o estampido do trovão,
eu praguejava contra tudo e todos,
e as minhas mãos brandiam sobre o ar
uma resoluta fortaleza que não me pertencia.

Eu era um ser delicado, a minha voz tonitruante
dava de mim apenas uma imagem enganadora,
as sílabas com que fulminava quem me ouvia
não eram mais que um último reduto de defesa,
um último pedido de socorro. Porque eu era
um ser delicado.

(in A Arte do Regresso; Campo das Letras, 1999)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"O nome lírico", de Fiama Hasse Pais Brandão

Esta manhã
hoje
é um nome

Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca

Uma palavra
palavra só
a ergue

Com um nome
amanhece
clareia

Não do sol
mas de quem
a nomeia

(in Âmago. Antologia; ed. Assírio & Alvim, 2010)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

"Falar", de Ferreira Gullar

(Hoje não era suposto publicar neste blogue, mas levou-me o acaso - entenda-se: a necessidade de comprar alguns legumes (!) - a passar por uma livraria e a pegar na obra de um autor que, embora conhecendo, nunca havia explorado. Após as primeiras páginas, o livro de Ferreira Gullar, poeta brasileiro, já me cativara. Tomei nota de um poema, o que abaixo segue, que a seu modo - pelo menos assim o sinto - comunica com o texto de Manuel António Pina anteriormente publicado. Gostaria de poder apresentar mais uns quantos poemas deste autor, mas para já não me será possível).

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

(in Em alguma parte alguma; Ulisseia, 2010)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"Para que serve, afinal, a poesia", texto de Manuel António Pina

O poemapossivel agradece a Manuel António Pina

Em Poesia, do sul-coreano Lee Chance-dong, uma mulher idosa, ao mesmo tempo que vive os graves problemas em que se envolve o neto adolescente, frequenta aulas de poesia. Deseja, ou antes, precisa imperiosamente de escrever um poema. O filme não ambiciona entender os misteriosos motivos que levam algumas pessoas a precisar de escrever poesia, e muito menos o que seja isso da poesia, algo que, parafraseando o santo, se não nos perguntam sabemos o que é, se nos perguntam já não sabemos.

As tentativas de definição de poesia acabam quase sempre no beco sem saída da etimologia: poesia seria poesis, o fazer (um fazer feito do seu próprio fazer, diz Jean-Luc Nancy). Daí para diante, tudo se torna opaco. E, no entanto, os homens fazem poesia desde o princípio do mundo. E mesmo em tempos, como os nossos, de prosa de negócios, se continua a escrever e ler poesia, e a dizê-la e ouvi-la. Porquê?, para que? - pois alguma razão há-se haver -, se a poesia não serve aparentemente para nada?

Como uma igreja catacúmbica de poucos e persistentes fiéis, no Porto (e decerto noutros lugares também), gente das mais dispersas idades e experiências de vida reúne-se regularmente em bares, galerias de arte, bibliotecas, salões paroquiais, nas próprias juntas de freguesia, para ler e ouvir ler poesia, partilhando quase clandestinamente uma confusa forma de felicidade completamente incompreensível para os pagãos.

Às vezes sou convidado para alguns desses improváveis encontros, de que os jornais não falam e cuja notícia passa de boca em bo¬ca entre amigos, sempre me perguntando o que move aquele peque¬no universo de donas de casa, reformados, estudantes, funcionários, comerciantes (num deles até um ciclista profissional conheci), o que os levará ali a todos, em vez de, como a maioria dos outros, ficarem em casa a ver televisão ou passarem as tardes de fim-de-semana a ver montras nos centros comerciais. Sempre me perguntando e nunca encontrando resposta razoável.

Depois, a poesia tem ainda outra e controversa vertente, a dos que escrevem (e, de novo: porque?, para que?) poesia. A poesia não se compra, a poesia não se vende, ninguém enriquece a escrever ou a editar poesia; a própria palavra «poeta» é hoje, em determinados contextos, uma qualificação quase tão desprestigiante quanto a de «filósofo»...

É certo que muitos poetas parecem convictos de que, escrevendo poesia, «se vão da lei da morte libertando». Só que a camoniana metáfora é apenas isso, metáfora, e ninguém se liberta da lei da morte. Acreditam alguns (humana, demasiadamente humana, delusão) que existirá uma coisa, uma espécie de santidade laica, chamada «posteridade», e labutam incansavelmente por ela, contra o esquecimento inevitável e por um lugar, como dizia um poeta meu amigo hoje já praticamente esquecido, na memória dos «vindouros». Lutar contra a morte é decerto belo se se tem consciência de que é uma batalha perdida e, apesar disso, se persiste; mas quando se acredita que é possível vencer é uma coisa tristíssima, para não dizer (seria cruel de mais) cómica.

Não, a poesia, o que quer que seja a poesia, não protege da morte nem do esquecimento (pois tudo será esquecido, mais ano menos ano, mais século menos século, mais milénio menos milénio; e, visto a suficiente distância, tão-só da Lua ou de Alfa de Centauro, tudo é fútil); a poesia ajuda, mas que sei eu?, a viver e a encontrar nas palavras efémeros instantes de coincidência connosco mesmos e com os nossos medos e desejos. O que, à nossa humana e irrelevante medida, já não será decerto pouco.

Talvez, quem sabe?, a poesia sirva afinal para alguma coisa.

(in Notícias Magazine, edição de 25 de Dezembro de 2011)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Abrindo o ano com um poema de Amadeu Baptista (com os votos de um feliz ano)

Procuro um texto impossível,
um outro caminho para a salvação.

Procuro a palavra que nos una definitivamente, o poema
escrito no barro da alucinação, a palavra que cresce da terra
e atinge a noite com pancadas de luminosa alegria.

Procuro o teu rosto, a chave do segredo inviolável, a súbita
haste de uma flor com o teu nome, lírio, lume, lucerna, a pressão
sobre a página que vem reabilitar
a memória de que somos feitos.

Procuro os teus lábios, a cálida gruta
das tuas mãos, a árvore da vida, lágrima
e luz transgredindo o trajecto entre uma ausência e outra,
murmúrio e estremecimento.

Procuro os teus olhos, procuro a profundidade dos teus olhos,
a euforia que vive no fundo dos teus olhos, os íntimos
sinais de selvagem serenidade
com que recebes quem te olha nos olhos, a ternura,
a violenta ternura dos teus olhos.

Procuro o espaço onde prolongar o sonho para além da manhã,
o rio subterrâneo que exorciza o abismo, a ave
que grita entre as ravinas das trevas, o esplendor
da planície, a chuva
áugure.

Um barco ou uma pedra,
procuro.

(in Arte do Regresso; Campo das Letras, 1999)

sábado, 17 de dezembro de 2011

(Cutting Branches For A Temporary Shelter)

(Hoje o poemapossivel oferece-vos um pouco de música: Penguin Cafe Orchestra, o original coletivo fundado por Simon Jeffes... Espero que esta - para mim - pequena preciosidade o possa ser também para os seguidores deste blogue).

sábado, 10 de dezembro de 2011

Dez versos de Amadeu Baptista

Falo com as cabeças de mármore
que interrogam sobre o rumo da viagem.
Tenho poucas palavras para responder.
Hei-de dizer que alguém soberano
me ordenou com a espada e a prata
e que apenas respondo pela minha cabeça,
também ela de mármore imaculado.
As estátuas quedam-se no mais absoluto silêncio
e esperam ler o destino no fundo dos meus olhos,
pura reverberação de pedra despolida.

(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um poema mais de Amadeu Baptista

Preso ao encantamento das crisálidas
e à multiplicação dos girinos
vejo-te ainda onde pequenos barcos
sulcam a névoa e sobre a água pairam

com a suave delicadeza da brancura.
Estende-se a tarde sob a ameixoeira.
A luz é o verdor com guarnição lilás
que escorre dos muros. E as aves são

cintilações que habitam as roseiras
que o mistério invade enquanto os gatos
andam à caça de algum pardal esparso.

Ao cimo das escadas uma estátua grega brilha.
Os deuses que nos falam estão próximo
do odor a limão que nos inebria.

(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

(Seleção)

(Por vezes, guardo o bilhete do espetáculo a que assisti; ou aquele prospeto sobre algo que vi e gostei; ou ainda uma pedra porque naquele dia fez sentido; e este desdobrável que, quem sabe, poderá ser útil no futuro; e assim vou guardando tantas e tantas coisas, sem aparente sentido. Será talvez uma mania minha prender a memória a objetos; hoje, momentos antes de os destruir, um certa angústia se insinua: o risco de desmemorização associada ao ato de selecionar e destruir...)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

(Em torno de um texto de Luiz Pacheco)


Excerto do texto "O que é o neo-abjeccionismo", de Luiz Pacheco (1925-2008), retirado do documentário "Luiz Pacheco - Mais um dia de noite", realizado por António José de Almeida.

E ainda mais uns versos de Rui Tinoco

é triste, o leitor entra na casa
do poema e eu estou
debruçado sobre a secretária,
às voltas com as frases.
não lhe falo.
e isto para sempre.

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

domingo, 4 de dezembro de 2011

"Da desigualdade dos homens", de Czeslaw Milosz

Não é verdade que somos carne
que por instante tagarela, move-se e ambiciona.

Enganadora são as praias apinhadas de corpos despidos
e as multidões nas escadas rolantes do metro.

Felizmente, não sabemos quem vai ao nosso lado.
Pode ser um herói, um santo ou um génio.

Pois a igualdade dos homens é uma ilusão
e as tabelas das estatísticas mentem.

A minha convicção de que a hierarquia se renova a cada dia
provém da necessidade pessoal de adoração.

Piso a terra que guarda as cinzas dos eleitos,
embora não durem mais que as dos outros.

Confesso a minha gratidão e admiração,
à falta de motivo para me envergonhar dos sentimentos nobres.

Oxalá seja eu seja digno de alta companhia
e siga com ela, segurando uma das abas do manto real.

(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"Alguns gostam de poesia", de Wislawa Szymborska



Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)