Cobra (& etc, 1977)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
sábado, 17 de dezembro de 2011
(Cutting Branches For A Temporary Shelter)
(Hoje o poemapossivel oferece-vos um pouco de música: Penguin Cafe Orchestra, o original coletivo fundado por Simon Jeffes... Espero que esta - para mim - pequena preciosidade o possa ser também para os seguidores deste blogue).
sábado, 10 de dezembro de 2011
Dez versos de Amadeu Baptista
Falo com as cabeças de mármore
que interrogam sobre o rumo da viagem.
Tenho poucas palavras para responder.
Hei-de dizer que alguém soberano
me ordenou com a espada e a prata
e que apenas respondo pela minha cabeça,
também ela de mármore imaculado.
As estátuas quedam-se no mais absoluto silêncio
e esperam ler o destino no fundo dos meus olhos,
pura reverberação de pedra despolida.
que interrogam sobre o rumo da viagem.
Tenho poucas palavras para responder.
Hei-de dizer que alguém soberano
me ordenou com a espada e a prata
e que apenas respondo pela minha cabeça,
também ela de mármore imaculado.
As estátuas quedam-se no mais absoluto silêncio
e esperam ler o destino no fundo dos meus olhos,
pura reverberação de pedra despolida.
(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Um poema mais de Amadeu Baptista
Preso ao encantamento das crisálidas
e à multiplicação dos girinos
vejo-te ainda onde pequenos barcos
sulcam a névoa e sobre a água pairam
com a suave delicadeza da brancura.
Estende-se a tarde sob a ameixoeira.
A luz é o verdor com guarnição lilás
que escorre dos muros. E as aves são
cintilações que habitam as roseiras
que o mistério invade enquanto os gatos
andam à caça de algum pardal esparso.
Ao cimo das escadas uma estátua grega brilha.
Os deuses que nos falam estão próximo
do odor a limão que nos inebria.
e à multiplicação dos girinos
vejo-te ainda onde pequenos barcos
sulcam a névoa e sobre a água pairam
com a suave delicadeza da brancura.
Estende-se a tarde sob a ameixoeira.
A luz é o verdor com guarnição lilás
que escorre dos muros. E as aves são
cintilações que habitam as roseiras
que o mistério invade enquanto os gatos
andam à caça de algum pardal esparso.
Ao cimo das escadas uma estátua grega brilha.
Os deuses que nos falam estão próximo
do odor a limão que nos inebria.
(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
(Seleção)
(Por vezes, guardo o bilhete do espetáculo a que assisti; ou aquele prospeto sobre algo que vi e gostei; ou ainda uma pedra porque naquele dia fez sentido; e este desdobrável que, quem sabe, poderá ser útil no futuro; e assim vou guardando tantas e tantas coisas, sem aparente sentido. Será talvez uma mania minha prender a memória a objetos; hoje, momentos antes de os destruir, um certa angústia se insinua: o risco de desmemorização associada ao ato de selecionar e destruir...)
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
(Em torno de um texto de Luiz Pacheco)
Excerto do texto "O que é o neo-abjeccionismo", de Luiz Pacheco (1925-2008), retirado do documentário "Luiz Pacheco - Mais um dia de noite", realizado por António José de Almeida.
E ainda mais uns versos de Rui Tinoco
é triste, o leitor entra na casa
do poema e eu estou
debruçado sobre a secretária,
às voltas com as frases.
não lhe falo.
e isto para sempre.
do poema e eu estou
debruçado sobre a secretária,
às voltas com as frases.
não lhe falo.
e isto para sempre.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
domingo, 4 de dezembro de 2011
"Da desigualdade dos homens", de Czeslaw Milosz
Não é verdade que somos carne
que por instante tagarela, move-se e ambiciona.
Enganadora são as praias apinhadas de corpos despidos
e as multidões nas escadas rolantes do metro.
Felizmente, não sabemos quem vai ao nosso lado.
Pode ser um herói, um santo ou um génio.
Pois a igualdade dos homens é uma ilusão
e as tabelas das estatísticas mentem.
A minha convicção de que a hierarquia se renova a cada dia
provém da necessidade pessoal de adoração.
Piso a terra que guarda as cinzas dos eleitos,
embora não durem mais que as dos outros.
Confesso a minha gratidão e admiração,
à falta de motivo para me envergonhar dos sentimentos nobres.
Oxalá seja eu seja digno de alta companhia
e siga com ela, segurando uma das abas do manto real.
que por instante tagarela, move-se e ambiciona.
Enganadora são as praias apinhadas de corpos despidos
e as multidões nas escadas rolantes do metro.
Felizmente, não sabemos quem vai ao nosso lado.
Pode ser um herói, um santo ou um génio.
Pois a igualdade dos homens é uma ilusão
e as tabelas das estatísticas mentem.
A minha convicção de que a hierarquia se renova a cada dia
provém da necessidade pessoal de adoração.
Piso a terra que guarda as cinzas dos eleitos,
embora não durem mais que as dos outros.
Confesso a minha gratidão e admiração,
à falta de motivo para me envergonhar dos sentimentos nobres.
Oxalá seja eu seja digno de alta companhia
e siga com ela, segurando uma das abas do manto real.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
"Alguns gostam de poesia", de Wislawa Szymborska
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
"Os gatos", de Manuel António Pina
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
"As escadas", de Manuel António Pina
Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.
Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.
Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras
[estrangeiras.
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Uns versos mais de Rui Tinoco
às vezes olhas para mim,
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
domingo, 20 de novembro de 2011
"Tu que desgraçaste", de Czesław Miłosz
Tu que um homem humilde desgraçaste,
rindo-te da sua desgraça,
tu que cercado por um bando de palhaços,
o bem com o mal misturaste.
Embora, perante ti, todos se inclinassem
atribuindo-te virtude e sabedoria,
e medalhas de ouro em tua homenagem cunhassem,
contentes por terem vivido mais um dia.
Não estejas seguro. O poeta lembrar-se-á.
Podes matá-lo, outro nascerá.
Actos e conversas assentes por escrito ficarão.
Melhor te seria a alvorada invernosa,
a corda e o ramo curvado pelo peso.
rindo-te da sua desgraça,
tu que cercado por um bando de palhaços,
o bem com o mal misturaste.
Embora, perante ti, todos se inclinassem
atribuindo-te virtude e sabedoria,
e medalhas de ouro em tua homenagem cunhassem,
contentes por terem vivido mais um dia.
Não estejas seguro. O poeta lembrar-se-á.
Podes matá-lo, outro nascerá.
Actos e conversas assentes por escrito ficarão.
Melhor te seria a alvorada invernosa,
a corda e o ramo curvado pelo peso.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Outro poema de Rui Tinoco
à medida que envelheceu
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
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