(Hoje o poemapossivel oferece-vos um pouco de música: Penguin Cafe Orchestra, o original coletivo fundado por Simon Jeffes... Espero que esta - para mim - pequena preciosidade o possa ser também para os seguidores deste blogue).
sábado, 17 de dezembro de 2011
sábado, 10 de dezembro de 2011
Dez versos de Amadeu Baptista
Falo com as cabeças de mármore
que interrogam sobre o rumo da viagem.
Tenho poucas palavras para responder.
Hei-de dizer que alguém soberano
me ordenou com a espada e a prata
e que apenas respondo pela minha cabeça,
também ela de mármore imaculado.
As estátuas quedam-se no mais absoluto silêncio
e esperam ler o destino no fundo dos meus olhos,
pura reverberação de pedra despolida.
que interrogam sobre o rumo da viagem.
Tenho poucas palavras para responder.
Hei-de dizer que alguém soberano
me ordenou com a espada e a prata
e que apenas respondo pela minha cabeça,
também ela de mármore imaculado.
As estátuas quedam-se no mais absoluto silêncio
e esperam ler o destino no fundo dos meus olhos,
pura reverberação de pedra despolida.
(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Um poema mais de Amadeu Baptista
Preso ao encantamento das crisálidas
e à multiplicação dos girinos
vejo-te ainda onde pequenos barcos
sulcam a névoa e sobre a água pairam
com a suave delicadeza da brancura.
Estende-se a tarde sob a ameixoeira.
A luz é o verdor com guarnição lilás
que escorre dos muros. E as aves são
cintilações que habitam as roseiras
que o mistério invade enquanto os gatos
andam à caça de algum pardal esparso.
Ao cimo das escadas uma estátua grega brilha.
Os deuses que nos falam estão próximo
do odor a limão que nos inebria.
e à multiplicação dos girinos
vejo-te ainda onde pequenos barcos
sulcam a névoa e sobre a água pairam
com a suave delicadeza da brancura.
Estende-se a tarde sob a ameixoeira.
A luz é o verdor com guarnição lilás
que escorre dos muros. E as aves são
cintilações que habitam as roseiras
que o mistério invade enquanto os gatos
andam à caça de algum pardal esparso.
Ao cimo das escadas uma estátua grega brilha.
Os deuses que nos falam estão próximo
do odor a limão que nos inebria.
(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
(Seleção)
(Por vezes, guardo o bilhete do espetáculo a que assisti; ou aquele prospeto sobre algo que vi e gostei; ou ainda uma pedra porque naquele dia fez sentido; e este desdobrável que, quem sabe, poderá ser útil no futuro; e assim vou guardando tantas e tantas coisas, sem aparente sentido. Será talvez uma mania minha prender a memória a objetos; hoje, momentos antes de os destruir, um certa angústia se insinua: o risco de desmemorização associada ao ato de selecionar e destruir...)
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
(Em torno de um texto de Luiz Pacheco)
Excerto do texto "O que é o neo-abjeccionismo", de Luiz Pacheco (1925-2008), retirado do documentário "Luiz Pacheco - Mais um dia de noite", realizado por António José de Almeida.
E ainda mais uns versos de Rui Tinoco
é triste, o leitor entra na casa
do poema e eu estou
debruçado sobre a secretária,
às voltas com as frases.
não lhe falo.
e isto para sempre.
do poema e eu estou
debruçado sobre a secretária,
às voltas com as frases.
não lhe falo.
e isto para sempre.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
domingo, 4 de dezembro de 2011
"Da desigualdade dos homens", de Czeslaw Milosz
Não é verdade que somos carne
que por instante tagarela, move-se e ambiciona.
Enganadora são as praias apinhadas de corpos despidos
e as multidões nas escadas rolantes do metro.
Felizmente, não sabemos quem vai ao nosso lado.
Pode ser um herói, um santo ou um génio.
Pois a igualdade dos homens é uma ilusão
e as tabelas das estatísticas mentem.
A minha convicção de que a hierarquia se renova a cada dia
provém da necessidade pessoal de adoração.
Piso a terra que guarda as cinzas dos eleitos,
embora não durem mais que as dos outros.
Confesso a minha gratidão e admiração,
à falta de motivo para me envergonhar dos sentimentos nobres.
Oxalá seja eu seja digno de alta companhia
e siga com ela, segurando uma das abas do manto real.
que por instante tagarela, move-se e ambiciona.
Enganadora são as praias apinhadas de corpos despidos
e as multidões nas escadas rolantes do metro.
Felizmente, não sabemos quem vai ao nosso lado.
Pode ser um herói, um santo ou um génio.
Pois a igualdade dos homens é uma ilusão
e as tabelas das estatísticas mentem.
A minha convicção de que a hierarquia se renova a cada dia
provém da necessidade pessoal de adoração.
Piso a terra que guarda as cinzas dos eleitos,
embora não durem mais que as dos outros.
Confesso a minha gratidão e admiração,
à falta de motivo para me envergonhar dos sentimentos nobres.
Oxalá seja eu seja digno de alta companhia
e siga com ela, segurando uma das abas do manto real.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
"Alguns gostam de poesia", de Wislawa Szymborska
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
"Os gatos", de Manuel António Pina
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
"As escadas", de Manuel António Pina
Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.
Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.
Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras
[estrangeiras.
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Uns versos mais de Rui Tinoco
às vezes olhas para mim,
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
domingo, 20 de novembro de 2011
"Tu que desgraçaste", de Czesław Miłosz
Tu que um homem humilde desgraçaste,
rindo-te da sua desgraça,
tu que cercado por um bando de palhaços,
o bem com o mal misturaste.
Embora, perante ti, todos se inclinassem
atribuindo-te virtude e sabedoria,
e medalhas de ouro em tua homenagem cunhassem,
contentes por terem vivido mais um dia.
Não estejas seguro. O poeta lembrar-se-á.
Podes matá-lo, outro nascerá.
Actos e conversas assentes por escrito ficarão.
Melhor te seria a alvorada invernosa,
a corda e o ramo curvado pelo peso.
rindo-te da sua desgraça,
tu que cercado por um bando de palhaços,
o bem com o mal misturaste.
Embora, perante ti, todos se inclinassem
atribuindo-te virtude e sabedoria,
e medalhas de ouro em tua homenagem cunhassem,
contentes por terem vivido mais um dia.
Não estejas seguro. O poeta lembrar-se-á.
Podes matá-lo, outro nascerá.
Actos e conversas assentes por escrito ficarão.
Melhor te seria a alvorada invernosa,
a corda e o ramo curvado pelo peso.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Outro poema de Rui Tinoco
à medida que envelheceu
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
"Esperança", de Czesław Miłosz
Esperança surge, quando se acredita
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.
Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas apresenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensam que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.
Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas apresenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensam que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
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