(Por vezes, guardo o bilhete do espetáculo a que assisti; ou aquele prospeto sobre algo que vi e gostei; ou ainda uma pedra porque naquele dia fez sentido; e este desdobrável que, quem sabe, poderá ser útil no futuro; e assim vou guardando tantas e tantas coisas, sem aparente sentido. Será talvez uma mania minha prender a memória a objetos; hoje, momentos antes de os destruir, um certa angústia se insinua: o risco de desmemorização associada ao ato de selecionar e destruir...)
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
(Em torno de um texto de Luiz Pacheco)
Excerto do texto "O que é o neo-abjeccionismo", de Luiz Pacheco (1925-2008), retirado do documentário "Luiz Pacheco - Mais um dia de noite", realizado por António José de Almeida.
E ainda mais uns versos de Rui Tinoco
é triste, o leitor entra na casa
do poema e eu estou
debruçado sobre a secretária,
às voltas com as frases.
não lhe falo.
e isto para sempre.
do poema e eu estou
debruçado sobre a secretária,
às voltas com as frases.
não lhe falo.
e isto para sempre.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
domingo, 4 de dezembro de 2011
"Da desigualdade dos homens", de Czeslaw Milosz
Não é verdade que somos carne
que por instante tagarela, move-se e ambiciona.
Enganadora são as praias apinhadas de corpos despidos
e as multidões nas escadas rolantes do metro.
Felizmente, não sabemos quem vai ao nosso lado.
Pode ser um herói, um santo ou um génio.
Pois a igualdade dos homens é uma ilusão
e as tabelas das estatísticas mentem.
A minha convicção de que a hierarquia se renova a cada dia
provém da necessidade pessoal de adoração.
Piso a terra que guarda as cinzas dos eleitos,
embora não durem mais que as dos outros.
Confesso a minha gratidão e admiração,
à falta de motivo para me envergonhar dos sentimentos nobres.
Oxalá seja eu seja digno de alta companhia
e siga com ela, segurando uma das abas do manto real.
que por instante tagarela, move-se e ambiciona.
Enganadora são as praias apinhadas de corpos despidos
e as multidões nas escadas rolantes do metro.
Felizmente, não sabemos quem vai ao nosso lado.
Pode ser um herói, um santo ou um génio.
Pois a igualdade dos homens é uma ilusão
e as tabelas das estatísticas mentem.
A minha convicção de que a hierarquia se renova a cada dia
provém da necessidade pessoal de adoração.
Piso a terra que guarda as cinzas dos eleitos,
embora não durem mais que as dos outros.
Confesso a minha gratidão e admiração,
à falta de motivo para me envergonhar dos sentimentos nobres.
Oxalá seja eu seja digno de alta companhia
e siga com ela, segurando uma das abas do manto real.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
"Alguns gostam de poesia", de Wislawa Szymborska
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
"Os gatos", de Manuel António Pina
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
"As escadas", de Manuel António Pina
Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.
Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.
Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras
[estrangeiras.
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Uns versos mais de Rui Tinoco
às vezes olhas para mim,
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
domingo, 20 de novembro de 2011
"Tu que desgraçaste", de Czesław Miłosz
Tu que um homem humilde desgraçaste,
rindo-te da sua desgraça,
tu que cercado por um bando de palhaços,
o bem com o mal misturaste.
Embora, perante ti, todos se inclinassem
atribuindo-te virtude e sabedoria,
e medalhas de ouro em tua homenagem cunhassem,
contentes por terem vivido mais um dia.
Não estejas seguro. O poeta lembrar-se-á.
Podes matá-lo, outro nascerá.
Actos e conversas assentes por escrito ficarão.
Melhor te seria a alvorada invernosa,
a corda e o ramo curvado pelo peso.
rindo-te da sua desgraça,
tu que cercado por um bando de palhaços,
o bem com o mal misturaste.
Embora, perante ti, todos se inclinassem
atribuindo-te virtude e sabedoria,
e medalhas de ouro em tua homenagem cunhassem,
contentes por terem vivido mais um dia.
Não estejas seguro. O poeta lembrar-se-á.
Podes matá-lo, outro nascerá.
Actos e conversas assentes por escrito ficarão.
Melhor te seria a alvorada invernosa,
a corda e o ramo curvado pelo peso.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Outro poema de Rui Tinoco
à medida que envelheceu
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
"Esperança", de Czesław Miłosz
Esperança surge, quando se acredita
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.
Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas apresenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensam que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.
Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas apresenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensam que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.
(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
domingo, 13 de novembro de 2011
"Os livros", de Manuel António Pina
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)
Outro terceto de Aurélio Porto
Bailando ao vento
dispersa novembro suas folhas
e nossos passos firmes.
dispersa novembro suas folhas
e nossos passos firmes.
(in Safra do Regresso; ed. Sempre-em-pé, 2011)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
