domingo, 4 de dezembro de 2011

"Da desigualdade dos homens", de Czeslaw Milosz

Não é verdade que somos carne
que por instante tagarela, move-se e ambiciona.

Enganadora são as praias apinhadas de corpos despidos
e as multidões nas escadas rolantes do metro.

Felizmente, não sabemos quem vai ao nosso lado.
Pode ser um herói, um santo ou um génio.

Pois a igualdade dos homens é uma ilusão
e as tabelas das estatísticas mentem.

A minha convicção de que a hierarquia se renova a cada dia
provém da necessidade pessoal de adoração.

Piso a terra que guarda as cinzas dos eleitos,
embora não durem mais que as dos outros.

Confesso a minha gratidão e admiração,
à falta de motivo para me envergonhar dos sentimentos nobres.

Oxalá seja eu seja digno de alta companhia
e siga com ela, segurando uma das abas do manto real.

(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"Alguns gostam de poesia", de Wislawa Szymborska



Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"Os gatos", de Manuel António Pina

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

"As escadas", de Manuel António Pina

Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.

Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras
[estrangeiras.

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Uns versos mais de Rui Tinoco

às vezes olhas para mim,
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

domingo, 20 de novembro de 2011

"Tu que desgraçaste", de Czesław Miłosz

Tu que um homem humilde desgraçaste,
rindo-te da sua desgraça,
tu que cercado por um bando de palhaços,
o bem com o mal misturaste.

Embora, perante ti, todos se inclinassem
atribuindo-te virtude e sabedoria,
e medalhas de ouro em tua homenagem cunhassem,
contentes por terem vivido mais um dia.

Não estejas seguro. O poeta lembrar-se-á.
Podes matá-lo, outro nascerá.
Actos e conversas assentes por escrito ficarão.

Melhor te seria a alvorada invernosa,
a corda e o ramo curvado pelo peso.

(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Outro poema de Rui Tinoco

à medida que envelheceu
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"Esperança", de Czesław Miłosz

Esperança surge, quando se acredita
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.

Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas apresenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensam que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.

(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Para ti

(Não estava previsto. Poder-se-á dizer que aconteceu por acidente - qualquer coisa como: "Oh, não era isto que eu queria dizer..." Uma confusão. Taquicardia, medo. Aconteceu por acaso. Ainda bem que aconteceu).

domingo, 13 de novembro de 2011

"Os livros", de Manuel António Pina

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

Outro terceto de Aurélio Porto

Bailando ao vento
dispersa novembro suas folhas
e nossos passos firmes.

(in Safra do Regresso; ed. Sempre-em-pé, 2011)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Poema de Rui Tinoco

devia ter-me levantado para escrever
aquele verso. a manhã ofereceu-me
apenas uma página em branco.
é verdade que o autor traz consigo
dois ou três temas para a vida
toda? que alimento tão escasso...
levanto-me e vou à janela:
se conseguir tocar um desses temas
com a minha alma, talvez
alcance um lugar qualquer para
observar o mundo...

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Terceto de Aurélio Porto (com uns dias de atraso)

Espreita o sol por entre os automóveis.
Calmos, os dois cavalos soltos
sob as nuvens de outubro.

(in Safra do Regresso; ed. Sempre-em-pé, 2011)